Artigo | Jackson Raymundo, doutor em Letras, mostra que existem projetos de investigação sobre as festividades, mas aponta que ainda há aspectos a serem tematizados na Universidade
*Por: Jackson Raymundo
*Foto de capa: Flávio Dutra/JU
Idos de 2008 ou 2009, Porto Alegre. No aniversário de um amigo, babalorixá, em meio a tantos sambas da Alcione, do Agepê, do Fundo de Quintal, da Beth Carvalho e outros que animam qualquer festa, toca um que mexe com as minhas memórias mais profundas. Não era como os demais, já que não falava de amor e temas do cotidiano, e sim da história de parte do povo gaúcho. Não era, no entanto, parte da história que aprendemos na escola e que usualmente integra o cânone do que vem a ser chamado de “música gaúcha” – em sua versão nativista ou “MPB”.
Era um samba-enredo, a canção feita para o cortejo processional das escolas de samba, exaustivamente entoada por centenas ou milhares de pessoas em uma manifestação carnavalesca que é também competição e que anualmente mobiliza várias comunidades.
Ao ouvir Festa de Batuque, o hino do Bambas da Orgia em 1995, sendo interpretado com tanto entusiasmo pelos participantes daquela festa, bateu um estalo naquele estudante de graduação em Letras na UFRGS que chegava à metade do curso (e que, como todos nessa fase, busca um tema para seu TCC): que tal estudar o samba-enredo, gênero musical tão representativo da nossa cultura brasileira – e que sempre amei?
Sem precisar pensar muito, logo procurei o professor Luís Augusto Fischer, titular do Instituto de Letras, referência tanto nos estudos de canção popular na área da literatura quanto em temas ligados à cultura de Porto Alegre, e convidei-o para ser o meu orientador. Ele prontamente aceitou e iniciamos uma trajetória que foi da graduação ao doutorado de pesquisas sobre o samba e o Carnaval.
Apesar de ser, possivelmente, a mais expressiva manifestação cultural brasileira, a bibliografia acerca do Carnaval naquela primeira década do século se mostrava escassa e/ou inacessível. Isso dificulta a vida de qualquer pesquisador, ainda mais do principiante. Nesse cenário minguado de produções, basicamente o que se tinha era acerca das escolas de samba do Rio de Janeiro. No início dos anos 10, porém, concomitante ao maior interesse pela cultura nacional que o país vivia à época, a literatura carnavalesca cresceu exponencialmente – o que, com a mudança de ares na conjuntura brasileira, infelizmente não se manteve.
Se os livros falando de Carnaval já eram raros no mercado editorial, o cenário não se difere muito na academia. No entanto, algumas pesquisas romperam com essa lógica de invisibilidade. No caso do Carnaval de Rio Grande do Sul, e particularmente de Porto Alegre, a UFRGS exerce um papel importante, ainda que bastante aquém quando se fala da potencialidade de uma manifestação que se realiza todo ano e pode ser estudada sob as mais diferentes perspectivas – artística, musical, sociológica, antropológica, histórica, econômica, comunicacional etc.
Entre os estudos pioneiros, destaco a dissertação de mestrado Rio Grande do Sul, Brasil e Etiópia: os negros e o Carnaval de Porto Alegre nas décadas de 1930 e 40 (1999), de Íris Graciela Germano (PPG em História), abordando a relação amalgamada entre as entidades carnavalescas populares e as comunidades negras de Porto Alegre, que formavam territórios de sociabilidade e símbolos identitários coletivos. O trabalho, entre outros méritos, demonstra como as discussões ideológicas acerca dos conceitos de nação e cultura brasileira, efervescentes no período, se fizeram representar no Carnaval. A criação das tribos carnavalescas, uma peculiaridade do Carnaval de Porto Alegre, também se deu nas comunidades negras e periféricas da cidade, e estava consoante ao imaginário que via no indígena o símbolo de “brasilidade”.
Ainda na década de 1990, outras duas pesquisadoras se dedicaram ao estudo do Carnaval porto-alegrense. Liliane Guterres, com a dissertação ‘Sou imperador até morrer…’: um estudo sobre identidade, tempo e sociabilidade em uma escola de samba de Porto Alegre (1996), fez uma detalhada pesquisa de campo sobre uma das mais tradicionais agremiações carnavalescas do estado, a vermelho-e-branco Imperadores do Samba.
O trabalho, repleto de relatos orais de integrantes da comunidade e de fotos do cotidiano carnavalesco, mostra que a vida da escola de samba vai muito além do que é exibido no desfile, possuindo códigos simbólicos e redes de afeto muito sólidas, além de contextualizar a formação histórica do Carnaval da Capital.
Já a principal rival, a azul-e-branco Bambas da Orgia, foi o tema da pesquisa de Luciana Prass no mestrado em Música, com a dissertação intitulada Saberes musicais em uma bateria de escola de samba – uma etnografia entre os ‘Bambas da Orgia’ (1998). A pesquisadora, hoje professora do Instituto de Artes, desenvolveu um estudo etnomusicológico a partir de uma vivência prática como aprendiz de tamborim na bateria da escola – sem dúvida um dos trabalhos mais completos já produzidos no país sobre baterias, esse setor que é considerado o “coração” de uma escola de samba.
Mais adiante, nos anos 2010, concomitante ao crescimento dos estudos sobre o Carnaval pelo país, também a UFRGS vê crescer as pesquisas sobre as manifestações momescas, em especial sobre Porto Alegre e o Rio Grande do Sul. Ulisses Corrêa Duarte, no PPG Antropologia Social, realizou, primeiramente, uma etnografia sobre os desfiles de escolas de samba de Porto Alegre e de Uruguaiana, que viam naquele momento crescer o “carnaval-espetáculo”. As peculiaridades étnico-raciais, o envolvimento comunitário, a organização econômica e a relação com os símbolos nacionais foram alguns aspectos abordados pela dissertação de mestrado, intitulada O Carnaval espetáculo no Sul do Brasil: uma etnografia da cultura carnavalesca nas construções das identidades e nas transformações da festa em Porto Alegre e Uruguaiana (2011).
Indo além geograficamente no doutorado, Duarte produz uma etnografia das escolas de samba a partir de polos bastante distintos: Rio de Janeiro, Londres e a região fronteiriça entre Brasil, Argentina e Uruguai, através dos carnavais, respectivamente, de Uruguaiana, Paso de Los Libres e Artigas – a tese se chama Carnavais além das fronteiras: circuitos carnavalescos e relações interculturais em escolas de samba do Rio de Janeiro, nos Pampas e em Londres (2016).
Também na área de Antropologia, a tese ‘O poder da criação’: outras histórias sobre os festivais de samba-enredo nas encruzilhadas do sul do Brasil (2017), de Marcelo da Silva, mergulhou no universo das escolhas de sambas-enredo em três agremiações de diferentes municípios – Porto Alegre, Pelotas e Florianópolis. Todo o processo de composição e de competição desse elemento essencial das escolas de samba foi minuciosamente etnografado na pesquisa.
O período em que Porto Alegre vivencia uma das mais significativas transformações na estética de seus desfiles carnavalescos foi investigado por Helena Cattani na dissertação de mestrado em História G.R.E.S. Porto Alegre: o processo de cariocarização do Carnaval de Porto Alegre (1962-1973) (2015).
Outro momento decisivo para a cultura popular de Porto Alegre foi abordado na dissertação Um longo caminho até o Porto Seco: lutas e disputas por espaço no Carnaval de Porto Alegre (1994-2004), de Laura Spritzer Galli, também do PPG História; como o título indica, trata das idas e vindas até que a comunidade carnavalesca conquistasse uma pista de eventos (sambódromo).
Por fim, falo brevemente sobre a minha contribuição para os estudos sobre o Carnaval, especialmente o de Porto Alegre. O trabalho final da graduação, que tratou de características gerais acerca do samba-enredo, virou livro (Samba-enredo, a canção de uma arte moderna, Bestiário, 2012). No mestrado em Letras, produzi um artigo publicado na revista Nau Literária, do Instituto de Letras, e um texto para o jornal Zero Hora sobre a arte e a canção das tribos carnavalescas. Na pesquisa de mestrado, por sua vez, denominada A poética do samba-enredo: a canção das escolas de samba de Porto Alegre (2015), fiz um trabalho de garimpo de centenas de letras e gravações de 1976 a 2014 (diferentemente do Rio, não há um local de acesso organizado a todo o material), identificando características gerais e específicas do cancioneiro e a sua composição em “longas durações”, “ciclos” e “eventos” a partir de campos de sentido – antecipo que em breve haverá a publicação de uma versão revisada e atualizada do trabalho pela Atena Editora, com o título Samba-enredo – A poética do Carnaval de Porto Alegre (2021).
No doutorado, aprofundei os estudos sobre o tema e, em 2019, defendi a tese A construção de uma poética da brasilidade: a formação do samba-enredo (que, para minha grata alegria, foi escolhida para representar o Pós-graduação em Letras da UFRGS no Prêmio CAPES de Tese 2020).
Outros trabalhos falaram do Carnaval das escolas de samba, mas não como objeto principal; trouxeram contribuições importantes sobre aspectos da musicalidade e da história social e cultural das agremiações e suas comunidades. Outras manifestações carnavalescas, como os blocos, também vêm sendo estudadas recentemente. Embora tanto já tenha sido dito em publicações acadêmicas e não acadêmicas, as possibilidades de pesquisa são infindáveis.
Há muitas memórias para serem registradas dessa manifestação popular tão brasileira, que já superou guerras e ditaduras e que resiste tanto ao racismo e ao preconceito social quanto à pasteurização do gosto e da cultura.
Jackson Raymundo é mestre e doutor em Letras pela UFRGS.

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