Projeto de extensão democratiza acesso à prática de ioga por meio de aulas online

Saúde | Yoga para Todxs conta com 260 participantes que relatam benefícios após praticarem a atividade milenar que combina aspectos físicos e mentais

*Foto de capa: Arquivo pessoal

Em busca da democratização de uma prática milenar, o projeto de extensão Yoga para Todxs oferece aulas gratuitas para a comunidade interna e externa à UFRGS. Atualmente, em razão do isolamento social, os integrantes encontraram no ambiente online um meio de seguir as atividades que antes aconteciam na Geodésia do Câmpus Olímpico.

Apesar das dificuldades causadas pela pandemia do covid-19, a migração para o formato online possibilitou o acesso às aulas por pessoas de outras cidades do Rio Grande do Sul e até de outros estados do Brasil. Hoje, o projeto conta com 260 participantes e duas bolsistas de extensão, responsáveis pelas aulas – Giani Cazanova e Tini Kruger, estudantes de Fisioterapia com formação em ioga.

Para Giani, o principal desafio das atividades remotas foram os ajustes físicos. “Foi necessário especificar mais os comandos verbais de entrada e saída das posturas. Além disso, passei a utilizar mais demonstrações. Apesar de desafiadora, acredito que essa é uma oportunidade para nós, professoras, dissecarmos melhor as posturas e descobrimos outras formas de condução de uma aula”, explica. 

Iara Borges é uma das alunas do projeto e acompanha as aulas em Torres, no litoral do Rio Grande do Sul. Segundo ela, “há um cuidado para que o número de participantes seja compatível com a capacidade das professoras de observarem as práticas individuais. Antes de iniciar, receava fazer alguma postura não muito correta e não ser possível a correção. Mas logo esse receio foi embora, pois são comuns as correções e o nosso nome ser chamado para corrigirmos determinada postura”, conta. 

Como as pessoas estão em suas casas, as professoras procuram utilizar recursos do próprio ambiente, como cadeiras, cordas e livros para transmitir uma forma segura e confortável de realizar as posturas. Outro desafio são as dificuldades técnicas, como falta de luz, conexão ruim de internet ou pane nos computadores. “Mas isso também é um convite ao exercício da flexibilidade mental e da compreensão de que existem situações que não estão no nosso controle”, acrescenta sobre as possibilidades abertas pelas práticas espirituais, morais e físicas surgidas da Índia há mais de 5 mil anos. 

“As aulas síncronas são também momentos de conexão neste contexto de isolamento trazido pela pandemia. As pessoas que participam das práticas síncronas de alguma forma estão conectadas durante aquele momento. Elas podem não estar partilhando o mesmo espaço físico, mas partilham o mesmo tempo e a mesma atividade. Estão unidas. O curioso é que a origem da palavra ‘yoga’ remete justamente a isso: união”

Giani Cazanova
Reflexos na saúde física e mental

A professora Giani Cazanova conta que os alunos percebem benefícios físicos e mentais após a atividade. “Geralmente, ouvimos comentários sobre aumento da força, da flexibilidade, do equilíbrio. Escutamos, também, relatos sobre a redução da ansiedade e dos sintomas depressivos, melhora na qualidade do sono, aumento da sensação de bem-estar”, relata. 

Uma das alunas do projeto, Melissa Cardozo realiza as práticas em São Paulo desde o início do projeto em formato remoto. Para ela, a prática de ioga influenciou o bem-estar físico e emocional. “Fisicamente falando, eu tensiono bastante durante a semana e tenho bastante dor nas costas. Essa dor passa depois da prática. Durante a pandemia, também tenho tido dificuldade para dormir, nos dias em que pratico o sono vem mais fácil. Consigo relaxar”, diz. 

Participante desde 2019, quando as atividades ainda eram presenciais, Cláudia Coronas acompanhou a transição das aulas do projeto. Ela relata que uma dificuldade inicial do modo virtual foi encontrar um local espaçoso o suficiente no apartamento, mas isso nunca inviabilizou a continuidade das atividades. Apesar dos desafios, a prática tem sido satisfatória: “Desde o início notei uma melhora na capacidade de concentração e no controle da ansiedade. Com o advento da pandemia e a necessidade de isolamento social, a possibilidade de permanecer participando do projeto de forma online trouxe  alento. Para mim, é importante ter um horário definido, uma turma e estar em contato com a instrutora durante a prática”.

O Centro Interdisciplinar de Pesquisa e Atenção à Saúde (CIPAS), do Instituto de Psicologia, recomenda que os hábitos saudáveis, como a prática de atividades físicas, aliados à manutenção de uma rotina, são essenciais para uma boa saúde mental. Esses reflexos foram sentidos por Iara Borges, aluna desde agosto de 2020, que encontrou na prática uma forma de manter seu bem-estar no período de isolamento.

“Moro sozinha e não tenho familiares aqui em Torres. A minha rotina era bastante na rua, na praia, nos cafés, enfim, uma vida social ativa. Em casa, compulsoriamente, acredito que, se não fosse o ioga e a oportunidade dada pelo Projeto Yoga para Todxs, o isolamento teria sido e estaria sendo muito mais difícil, mas muito mesmo”

Iara Borges

Giani reforça que é importante não transformar ioga em uma “pílula dourada” e que existem situações em que é necessária a intervenção de meios tradicionais. “Por exemplo, se uma pessoa está passando por uma depressão grave, é importante procurar profissionais da psiquiatria. Nesse caso, durante o tratamento, a meditação pode potencializar os efeitos das medicações, no entanto, é fundamental que a pessoa seja acompanhada por profissionais da saúde mental”, diz.

Com grande procura pelas aulas, o projeto chegou a receber mais de 800 solicitações de ingresso por e-mail. Lisandra Oliveira, professora e coordenadora da atividade, explica que agora precisam levar em frente algumas mudanças: “Até então, o projeto recebia toda e qualquer pessoa que tivesse interesse. Mas não temos como dar conta de tantas pessoas com os recursos humanos que temos. Então, estamos pensando em estratégias para estabelecer alguns critérios de ingresso”. Segundo a coordenadora, a prioridade será para profissionais da saúde e pessoas de baixa renda. 

“Optamos por tais critérios em razão do momento histórico de pandemia e da crise que estamos vivendo. Achamos que faz sentido direcionar esse projeto para atender as pessoas mais atingidas pelas consequências da pandemia, que são, de fato, aquelas que não têm condições financeiras de pagar por práticas de ioga e profissionais da saúde que estão batalhando para salvar o máximo de vidas possível”

Lisandra Oliveira

A professora Lisandra Oliveira lembra que a ideia inicial surgiu quando ainda era estudante de Educação Física, em 1998, ao conhecer o professor de ioga Jarbas Araújo. Mas foi em 2017 que ela organizou seu primeiro projeto sobre a prática na Universidade: o Brincando de Yoga na Educação Infantil, destinado a crianças de dois a cinco anos e onze meses, em parceria com a Escola de Educação Infantil Amigo Germano, de Porto Alegre. 

No ano seguinte, Lisandra e a então mestranda Júlia Foletto, cuja dissertação abordava os preceitos morais e éticos da prática indiana, ofereceram a disciplina eletiva Yoga e Educação Física para cursos de graduação e pós-graduação da UFRGS. “O que nos interessa é discutir essas culturas milenares também na academia, não no intuito de academizar isso. Pelo contrário, no sentido de que a universidade tem muito a aprender com esse conhecimento. Nós entendemos que esse conhecimento é da humanidade. Não é um conhecimento de um determinado lugar, ou espaço, ou nicho. Temos muito a aprender e a beneficiar a sociedade com isso”, ressalta a coordenadora.

Os alunos manifestaram interesse pela continuidade da temática para além da disciplina. “O projeto nasceu em 2019 com o objetivo de democratizar a prática. Como a Júlia viu também na dissertação dela, a prática de ioga ainda é elitizada. O que a gente quer é que as pessoas tenham acesso a esse conhecimento de forma gratuita”, acrescenta.

Assim como essa inciativa, outras atividades comunitárias da ESEFID estão acontecendo em formato online.