Artigo | Doutorando em Antropologia, Hermes de Sousa Veras especula o caminho de sua dissertação junto a um terreiro de Mina Nagô em Ananindeua (PA), agora transformada em livro, até a estante de seu principal informante
*Por: Hermes de Sousa Veras
*Foto de capa: Karina Martins
A Amazônia é umas das regiões que mais sofre de percepções preconceituosas e deformadas sobre a sua realidade e o seu contexto. Geralmente o restante do próprio Brasil ignora a diversidade étnico-racial e cultural que há nela. Sabe-se, por meio de uma extensa bibliografia, que não se pode compreender a Amazônia ignorando a existência de populações, comunidades e tradições diversas resultantes da diáspora africana. Essa ênfase já é dada pelos estudos amazônicos há algum tempo, perpassando por Nunes Pereira e Vicente Salles e desembocando na importante contribuição de Marilu Campelo, Raimundo de Jesus e Zélia Amador de Deus em Entre os rios e as florestas: perspectivas, memórias e narrativas de negros em movimento (2014).
A minha pesquisa de mestrado é tributária desses estudos e foca nas religiões de matriz africana na Amazônia paraense. Comentarei neste espaço a passagem dessa pesquisa para a sua publicação em livro.
A transformação da dissertação O sacerdote e o aprendiz: etnografia, experiência e ritual em um terreiro de Mina Nagô na Amazônia (Ananindeua-PA) – pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal do Pará sob a orientação do professor Agenor Sarraf Pacheco e defendida no ano de 2015 – em O sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amazônico se deu basicamente em uma nova revisão e preparação do texto, além de consulta contínua ao terreiro, centro irradiador da pesquisa.
O Terreiro de Mina Deus Esteja Contigo foi fundado em 1988 por Pai Álvaro Pizarro, sacerdote que nasceu em São Paulo. No sudeste, vivenciou diversas religiões, especialmente a umbanda, na região do ABCD paulista, e o budismo. Em certa altura de sua vida, passou por diversos eventos que o trouxeram para Belém do Pará. Dessa forma, um homem branco do sudeste se muda para o Norte para ser iniciado nas tradições de pajelança e de matriz africana do lugar. O terreiro, localizado na periferia da Grande Belém, mais especificamente em Ananindeua, é de nação Mina Nagô. Compõe e transforma os fundamentos passados por Mãe Marajó, uma curadora marajoara e experiente da nação Mina amplamente conhecedora da pajelança amazônica. Também recebeu fundamentação de um experiente babalorixá de nação Ketu.
A dissertação, dividida em quatro capítulos, ensaiou a relação entre a história de vida do sacerdote e a estrutura ritual apresentada no terreiro, principalmente as giras: toques de tambor fundamentados nos orixás, nos caboclos e caboclas, encantados e encantadas e outras entidades espirituais, assim como na mesa branca, ritual de fundo kardecista praticado dentro do terreiro. Além disso, dissertou sobre aquilo que denominei apreensão cosmológica de livros. Pai Álvaro, sendo leitor, me sugeria leituras e emprestava livros. Primeiro, trouxe obras clássicas dos estudos de religiões de matriz africana no Pará; depois, alguns livros de teologia umbandista. Sendo um tema amplamente discutido na bibliografia, mas menos abordado nas pesquisas empíricas, trouxe para a dissertação a percepção de Pai Álvaro sobre a leitura e os livros e o modo como as concepções cosmológicas do terreiro atravessavam essa elaboração.
Sendo que as entidades e outros seres atuantes na comunidade do terreiro tangenciam toda a pesquisa e sua escrita, não deixei de consultar a própria Dona Maria Padilha, que irradia Pai Álvaro, sobre a possibilidade de publicar a pesquisa em formato de livro. Maria Padilha disse que poderia, mas havia a necessidade de acrescentar “algumas coisas, retirar outras”. Assim, antes mesmo de enviar para a temporada de originais da editora Letramento de Belo Horizonte, reli o trabalho, alterando alguns equívocos e atualizando parte de algumas informações. Consultei o jogo de búzios com Pai Álvaro sobre o livro, e ele foi dado como realidade, sendo aceito tanto pela editora quanto pela comunidade do terreiro. Toda essa preocupação percorre a pesquisa.
O livro mantém os capítulos e títulos. As alterações foram pontuais e de revisão e preparação. O percurso interessa porque ao longo da etnografia Pai Álvaro menciona, como já disse, outras obras. Durante o trabalho de campo, a antropóloga Anaíza Vergolino, que defendeu a sua dissertação sobre a Federação Espírita Umbandista e dos cultos afro-brasileiros do Pará (FEUCAPEB) em 1976 na UNICAMP, publicou a sua pesquisa em livro, intitulado Tambor das flores. Isso foi bastante comentado por Pai Álvaro e lemos e comentamos o livro conjuntamente. A transformação dessa pesquisa em um material que comporá a estante de Pai Álvaro elabora, portanto, um círculo metaetnográfico, em que se alimentam de forma célere as expressões orais e escrita, sendo a passagem da oralidade para a escrita sempre uma operação complexa e que não exclui o agenciamento dos seres que compõem o terreiro.
Sobre a alteração do subtítulo do escrito, já existia na dissertação a proposta de que o terreiro e as Comunidades Tradicionais de Terreiro (CTTro), para utilizarmos a categoria expressa no livro Intolerância religiosa, escrito por Sidney Nogueira, doutor em semiótica e babalorixá, possuem sua própria antropologia. Sabemos que o conhecimento não é fragmentado para essas comunidades, por conseguinte poderia dizer que o terreiro possui outras ciências. Como ainda acredito que a antropologia é esse compósito holístico que percorre as experiências e formas de estar, habitar e produzir o mundo, não é de todo mal, contudo, considerar que um terreiro faz a sua peculiar antropologia e, por consequência, nos ensina a aprender com a diferença.
Hermes de Sousa Veras é antropólogo e escritor, aluno de doutorado em Antropologia Social pela UFRGS.
Especial Amazônia

:: Posts relacionados

Livro reflete sobre o trabalho antropológico em prática na atualidade e sua contribuição para os dir...

Com a proliferação de conteúdos sobre saúde na internet, profissionais alertam para os riscos do aut...

Casas de religião de matriz africana atingidas pela enchente na Região Metropolitana de Porto Alegre








