A briga é deles, mas quem ganha é o leitor

Obras marcantes dos autores portugueses

Em 2019, António Lobo Antunes completa quarenta anos de escrita. Em 2018, comemoraram-se os vinte anos do Prêmio Nobel de José Saramago. Datas marcantes para autores consagrados e rivais contumazes.

É difícil apontar como tudo começou – existem diversas hipóteses levantadas pela imprensa de Portugal e pelos leitores e admiradores ao longo do tempo –, mas uma coisa é certa: a rivalidade entre José Saramago e António Lobo Antunes, dois dos maiores ícones da literatura portuguesa contemporânea, acabou por se transformar em um enredo à parte, uma intriga recheada de trocas de farpas e de recriminações diversas, tanto em relação à escrita como em nível pessoal.

A princípio, a inimizade entre os dois escritores teria nascido de um mal-entendido. Após uma entrevista, o apresentador de um programa humorístico do final da década de 1980 oferece de presente a José Saramago um livro. Um romance de António Lobo Antunes. Saramago recusa o presente, e o fato repercute. A partir daí, a relação, que nunca foi muito próxima, esfriou de vez. Nos anos seguintes, Lobo Antunes passou a metralhar o oponente literário. Em suas entrevistas, o nome de José Saramago sempre esteve presente. Para ser contrariado, é claro. Quanto a Saramago, se perguntado sobre Lobo Antunes, costumava manter-se inerte, assegurando vagamente que desconhecia a obra do oponente, que jamais o lera.

A atribuição do Prêmio Nobel de Literatura a José Saramago em 1998 acentuou de vez o clima de disputa entre os dois escritores. Corre, no mundo literário, o boato de que, ao ser anunciado o vencedor, um jornalista de Nova York telefonou a Lobo Antunes a fim de obter a opinião de um escritor português sobre o fato. Fazendo-se de desentendido, Lobo Antunes teria argumentado que a ligação estava péssima e, assim, bateu o telefone sem oferecer palavra à efeméride do conterrâneo.

O falecimento de José Saramago, em 2010, parece ter amainado as críticas mais diretas à obra e à figura do autor por parte de Lobo Antunes, mas o mesmo não parece ter esquecido a disputa pelo posto de escritor mais famoso de Portugal. Lobo Antunes, nos últimos anos, passou a tecer severas críticas aos prêmios literários, de maneira geral, desprestigiando principalmente o Nobel de Literatura nas ocasiões em que é abordado pelos entrevistadores sobre o fato de sempre figurar na lista dos possíveis ganhadores.

A rivalidade entre os dois escritores parece não ter sido travada somente nas páginas dos jornais, mas também migrou para as páginas dos romances, uma vez que, em muitos aspectos literários, António Lobo Antunes e José Saramago apresentam escritas que se opõem em seus estilos e formas.

Em termos narrativos, enquanto o autor do Ribatejo sempre optou pela valorização da palavra e da construção de frases e períodos longos, formando, assim, uma escrita caudalosa, que faz a história caminhar sempre em frente, encadeada, o lisboeta Lobo Antunes caracteriza-se pelo oposto disso ao operar, principalmente a partir dos anos 1990, uma ruptura radical na escrita do romance, optando pela fragmentação da narrativa e pela pluralidade de vozes.

Em termos de conteúdo, os dois autores se aproximam. Ambos escrevem e publicam suas obras em um contexto histórico muito conturbado em Portugal: o país, a partir de 1974, liberta-se da ditadura de Salazar, que havia amordaçado a sociedade por mais de quatro décadas, e as colônias na África, depois de quase cinco séculos de dominação portuguesa, finalmente conquistavam sua independência. Prevalece, assim, na escrita dos dois autores, a preocupação em denunciar as formas de autoritarismo e as diversas maneiras como elas afetam o tecido social, causando traumas na vida das pessoas. Nesse sentido, é importante citar, de autoria de Saramago, as obras Levantado do chão (1980), Ensaio sobre a cegueira (1995) e O evangelho segundo Jesus Cristo (1991). Quanto às de António Lobo Antunes, cabe mencionar Os cus de Judas (1979), As naus (1988) e Manual dos inquisidores (1996).

Se em Portugal a disputa sempre foi acirrada, no Brasil a balança pende mais para o lado de José Saramago, sendo ele mais íntimo do público em geral do que Lobo Antunes. O Prêmio Nobel de Literatura certamente foi um fator midiático e mercadológico muito favorável para Saramago ser mais reconhecido no Brasil. Pesa também o fato de suas obras serem publicadas no país por uma das maiores editoras do mercado, o que garante, certamente, mais popularidade. O estilo parece ser marcante neste quesito, uma vez que José Saramago apresenta em suas obras uma prosa mais familiar ao leitor, abordando temas de caráter humanista mais universal, enquanto Lobo Antunes, através de uma escrita fragmentária, dedica-se aos problemas internos de Portugal, causando, assim, certo estranhamento ao leitor brasileiro, que precisa estar sempre atento à história portuguesa.

Em resumo, a briga sempre foi deles, mas quem ganha, neste caso, é sempre o leitor.