Rosinha Carrion tem os braços abertos para a vida

Perfil | Professora aposentada da UFRGS defende um olhar comprometido com a Amazônia e suas populações

*Foto: Arquivo pessoal

Rosinha da Silva Machado Carrion é professora aposentada do departamento de Administração da UFRGS, instituição pela qual foi graduada em Ciências Sociais e Literatura e Língua Inglesa no início dos anos 1970. Desde então, Rosinha conheceu o mundo, experimentou, pesquisou e consolidou sua trajetória como socióloga e administradora. Hoje, sua pesquisa trata de sujeitos em deslocamento, isto é, os refugiados, os migrantes, os estudantes estrangeiros, etc.

Como socióloga, Rosinha tenta entender a realidade e, olhando para o caminho que tem percorrido, se questiona: “O que tem sido a minha trajetória?”. Ela mesma tem a resposta: “Sempre, sempre, sempre processo de construção democrática”. Com isso, a docente quer dizer que seu trabalho se volta para as práticas democráticas e a luta pelos direitos humanos.

Suas pesquisas levaram-na à Amazônia em 2005, quando coordenou a equipe da UFRGS na reativação do Projeto Rondon. Ela lembra com nostalgia dos episódios vividos no alojamento do 18.º Batalhão de Infantaria Avançada da Selva, incluindo o dia em que saiu do alojamento sem repelente e foi “devorada” pelos mosquitos. “Foi o suficiente pra eu ficar tão empolada que queriam me dar injeção de hidrocortisona na veia”, diverte-se.

Sobre o trabalho desenvolvido no local, Rosinha explica: “Eram mais quatro moças: uma da geografia, uma da farmácia, uma da gestão social e uma da parte ambiental. A gente fez um relatório excelente, porque conseguimos cobrir todas as áreas – educação, saúde, meio ambiente, trabalho, direitos humanos, produção”. E afirma que o relatório foi recebido por gente graúda em Brasília: “Conseguimos, a partir da nossa ida, mudar políticas públicas”.

A partir de então, as idas à Amazônia se tornaram frequentes em sua agenda. Ela, contudo, deixa clara a finalidade de suas viagens: “Não são visitas, eu vou a trabalho”.

Seu mais recente encontro com a floresta ocorreu no início deste ano, quando buscou entender os impactos dos grandes negócios na vida da população originária da região. Ela ficou baseada em Alter do Chão, no Pará, passou por Santarém, pela região de planalto do estado – onde conheceu a Aldeia Açaizal e a Aldeia São Francisco da Cavada –, foi para Oriximiná conversar com lideranças quilombolas e parou em Porto Trombetas, onde viu de perto a atuação da Mineração Rio do Norte. Passou também por municípios do Amazonas, como Tefé e São Gabriel da Cachoeira, na divisa com a Colômbia.

Rosinha constatou o avanço do capital na floresta. Notificou a presença de doenças neurológicas causadas pelo garimpo da bauxita, solos e águas contaminados pelo uso de pesticidas no agronegócio, a violação de territórios demarcados e os temores dos quilombolas com relação à construção de uma estrada em Oriximiná que serviria de porta de entrada para a exploração econômica no local.

“Fui descendo o rio, vendo a beleza da floresta amazônica e ao mesmo tempo vendo aquelas chatas carregadas de madeira e areia. Vendo ao mesmo tempo oásis de belezas e barbáries”

Rosinha Carrion

A socióloga denuncia a discrepância entre a legislação e a realidade: “A lei existe. O problema não é a ausência de lei. O problema é o não cumprimento da lei”.

Além de uma terra de leis impraticadas, a Amazônia é, também, uma terra de situações contradizentes. Enquanto a mineração, o agronegócio e a garimpagem exploram fartamente o território, a população local vive no abandono. Rosinha entende que, para que a floresta siga de pé, os povos originários, formados pelos ribeirinhos, indígenas, quilombolas e assentados do Incra, precisam ser defendidos. Para ela, precisamos pensar – e aqui se inclui todo o povo brasileiro – um modelo de utilização da Amazônia em que essa população seja entendida como sujeito do processo, e não como um recurso.

“A Amazônia é nossa. Nós somos a Amazônia. Será que podemos continuar ignorando? É a nossa vida que depende disso”

Rosinha Carrion
Afeto

Rosinha tem um lema que carrega consigo em suas viagens: “De braços abertos para a vida”. Significa que ela encara a vida sempre disposta a acolher todo tipo de experiência, aceitando tudo o que lhe é oferecido.

Foi “de braços abertos” que ela pôde aprender tanto nos locais por onde passou. A pesquisadora já morou nos Estados Unidos e na França. Conheceu Senegal, Moçambique, Angola, Burkina Faso e Cabo Verde – onde até mesmo ajudou na criação de uma escola de administração pública.

O que a leva a todos esses lugares? A sua busca incessante por conhecimento e visibilidade. Assim como a ONU envia observadores para os locais de guerra, Rosinha faz questão de testemunhar a realidade pelos seus próprios olhos, para que possa documentá-la e relatá-la. Mas a verdade é que, uma vez inserida em um novo meio, gosta de diluir-se nele e afirma que “não há lugar em que a vida pulse com tamanha intensidade do que onde se vive no fio da navalha”.

Sua experiência ao redor do mundo lhe permitiu também descobrir o que é comum aos seres humanos: “O mundo é extremamente lindo. O mundo é extremamente diverso. Mas o que eu pude perceber é que todas as pessoas buscam, independentemente do lugar do mundo, o afeto. O que há de mais importante no mundo e é comum, atravessa toda a espécie humana, é a questão do afeto”.