Posvenção ao suicídio e ambiente organizacional

Artigo | Luiza Zamban De Pieri e Lisiane Bizarro Araújo destacam a importância da elaboração de estratégias para que as organizações lidem de forma adequada com a temática do suicídio

*Por: Luiza Zamban De Pieri e Lisiane Bizarro Araújo
*Foto: Flávio Dutra/JU

Além do sofrimento de membros da família e de amigos, o suicídio de alguém também impacta a vida das comunidades que a pessoa em questão frequentava, como escola, igreja e local de trabalho. Estudos sugerem que a exposição ao suicídio é mais provável pela morte de um colega de trabalho, por exemplo, do que pela família ou pelo círculo de amigos. O termo “sobrevivente” remete a todas as pessoas que já experienciaram o luto por suicídio. 

Tendo em vista a complexidade e o sofrimento atrelados à perda de alguém em razão do suicídio, sabe-se a importância e a necessidade do cuidado e da atenção aos sobreviventes do suicídio, especialmente na fase do luto. O termo “posvenção” refere-se a toda e qualquer atividade realizada após o suicídio, com o intuito de minimizar as sequelas e o impacto causado aos sobreviventes em razão da morte violenta. 

Existem alguns manuais de posvenção ao suicídio no ambiente de trabalho em língua inglesa ou traduções. Não foi encontrado um manual brasileiro de posvenção desenvolvido com foco nas organizações. Realizamos, portanto, um trabalho com o objetivo de revisar esses manuais para subsidiar o desenvolvimento de manuais brasileiros de posvenção ao suicídio em instituições de trabalho, pois as orientações de posvenção devem considerar as realidades sociais e de trabalho de cada país. 

Sabe-se que a posvenção ao suicídio dentro de uma organização é multifacetada e fornece apoio e orientações para que os gestores e líderes possam responder às reações e consequências advindas dessa morte trágica e as conduzir de forma adequada. A posvenção também auxilia os membros da organização a encontrarem maneiras apropriadas de expressar e compartilhar sua dor e seu sofrimento, assim como comunica a respeito dos fatores relacionados ao suicídio, dos recursos disponíveis a pessoas com comportamentos suicidas, dos sinais de alerta e tratamentos.

A posvenção abrange ainda estratégias pensadas a longo prazo para que a instituição lide com as consequências do suicídio não só durante o luto, mas que também desenvolva planos de prevenção a futuros suicídios e para lidar com possíveis traumas ocupacionais.

Frente a isso, é possível afirmar a importância da existência de manuais de posvenção ao suicídio para que as instituições de trabalho estejam preparadas caso tenham de lidar com o luto pelo suicídio de um colaborador e possam prevenir outros atos suicidas. 

Considerando o aumento da taxa de contágio do suicídio entre colaboradores de ambientes de trabalho menores e a limitação de recursos internos para apoio em empresas pequenas, torna-se importante o desenvolvimento de materiais de posvenção que considerem a diferença de tamanho e a disponibilidade de recursos entre as instituições. Os manuais também devem conter práticas específicas de posvenção caso o suicídio aconteça dentro da instituição, considerando que o choque e impacto podem ser ainda maiores se os gestores e colaboradores presenciarem a cena forte da morte de um colega.

É necessário que constem dos manuais, de forma detalhada, aspectos psicoeducativos e os principais dados sobre suicídio e saúde mental para melhores resultados no processo do luto e posvenção e também para instrumentalizar quem utilizará o manual. Além disso, é relevante o desenvolvimento de materiais de posvenção com foco não só nos colaboradores e colegas próximos à pessoa que morreu por suicídio, mas também nos gestores e líderes da instituição. Indivíduos em posições de gestão, apesar de não conviverem diariamente com os colaboradores, podem sofrer grande impacto pela morte em questão e carregam a responsabilidade de tomar decisões e agir com rapidez frente ao ocorrido, necessitando de acolhimento e apoio especializado nessas situações.

Em relação às ações de posvenção consideradas de curto prazo, o isolamento do local no qual ocorreu o suicídio e o acionamento da polícia são condutas adequadas tanto na ocorrência de suicídio dentro do local de trabalho como na situação de qualquer outro acidente ou trauma ocupacional. Além do isolamento da área, a comunicação empática e assertiva por meio de figuras de autoridade pode ser interessante também a longo prazo, considerando a prevenção do contágio.

As ações de médio prazo reforçam a importância da prevenção do contágio, da formação de grupos de apoio e da abertura para o desenvolvimento de memoriais e espaços para homenagens. Também é relevante pensar nas datas comemorativas em que a pessoa que faleceu costumava estar presente, como aniversários e celebrações da empresa. Reservar um espaço de lembranças e homenagens pode fortalecer o processo de aceitação. Os espaços para reflexões em grupo são importantes para que os sentimentos sejam expressados e possam ser acolhidos, além dos participantes se identificarem com as experiências e emoções uns dos outros.

A análise periódica do plano de posvenção ao suicídio de uma instituição serve não só para a busca de melhorias, mas também para a adaptação das diretrizes à realidade da instituição e de seus colaboradores, em relação às condições da equipe capacitada a ajudar, ao apoio externo disponível ou à inclusão de diferentes culturas e crenças em relação ao suicídio. Sugere-se, portanto, uma avaliação qualitativa de processo ou resultado das estratégias adotadas no plano de posvenção. 

Com esse material será possível auxiliar os trabalhadores que enfrentam o luto por suicídio de algum colega, psicoeducar a comunidade sobre saúde mental e fatores de risco e, consequentemente, prevenir mais suicídios.


Luiza Zamban De Pieri é graduanda do décimo semestre de Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Lisiane Bizarro Araújo é doutora em Psicologia pelo Institute of Psychiatry Kings College London e docente permanente do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFRGS.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”