Sustentabilidade e inovação no HCPA

Artigo | Marisol Silveira de Oliveira, Cristiane Froehlich e Cristine Hermann Nodari relatam estudo que identificou como o hospital articula os dois temas em sua prática de gestão financeira e ambiental

*Por: Marisol Silveira de Oliveira, Cristiane Froehlich e Cristine Hermann Nodari
*Foto: Recepção a usuários dos serviços de saúde na entrada do novo prédio do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
(Flávio Dutra/JU)

A sustentabilidade e a inovação são temas que flertam entre si há algumas décadas. A inovação orientada à sustentabilidade (IOS) é uma das temáticas que associa as duas iniciativas dentro das empresas. Ela aborda a inovação a partir de aspectos ambiental e socialmente aceitos por meio de mudanças intencionais na filosofia, nos valores, processos, produtos e serviços, para além do retorno econômico tradicionalmente almejado pelas empresas.

Trata-se de uma mudança de perspectiva, cujo caminho percorrido difere de acordo com o segmento de atuação, o cenário interno e os fatores externos que norteiam a organização. Compreender as diferentes realidades organizacionais é importante para avançar na discussão do tema e na sua transposição para a prática. Esse foi o motivo que levou o mesmo a ser objeto de estudo no mestrado em Administração, tendo o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) como campo de estudo.

A pesquisa analisou quais fatores internos e externos relacionados à inovação orientada à sustentabilidade estavam presentes no HCPA, em um estudo qualitativo e descritivo. No HCPA, as unidades de análise foram compostas pelas áreas de gestão estratégica da instituição, de auditoria interna, de gestão de riscos à integridade corporativa e de promoção de inovação. Doze gestores foram entrevistados, além de serem realizadas uma pesquisa documental e observação participante.

Ao longo do estudo, foram identificados exemplos da relação entre a sustentabilidade e a inovação no ambiente hospitalar. Entre eles, o Núcleo de Inovação e Transferência de Tecnologia (NITT), que articula, internamente, as estruturas organizacionais e as pessoas e, externamente, busca as parcerias para o seu desenvolvimento, potencializando e otimizando os recursos em busca da inovação. Assim como o ensino e a pesquisa, os dois negócios com maior chance de impulsionar o futuro da inovação sustentável na instituição.

Sob o viés econômico da sustentabilidade, como empresa pública, a preocupação e a responsabilidade com o uso do recurso são recorrentes na fala dos entrevistados: “[…] nós lidamos com o dinheiro público, esse dinheiro tem que ser o mais bem aplicado e controlado” e “[…] isso eu vejo que é uma diretriz […]”. Novas fontes de recurso são vistas como alternativas para um crescimento sustentável: “[…] nunca se falou tanto em que os próprios órgãos públicos têm que criar as suas fontes de sustentabilidade”. Isso reforça a necessidade de uma gestão cada vez mais atenta à aplicação dos recursos e convoca o hospital a inovar na captação de investimentos.

No aspecto ambiental, há uma preocupação consistente com a destinação dos resíduos hospitalares. Ainda persiste, contudo, a visão de que a gestão ambiental está sob a responsabilidade de uma determinada área sobre a qual incide o peso da busca de soluções inovadoras. Tal constatação restringe o potencial do hospital na aplicação da IOS nesse aspecto.

No campo social, e por que não econômico também, a aquisição de produtos de agricultores familiares para o preparo das refeições servidas pelo hospital a pacientes e funcionários é um exemplo da adoção de novas práticas com impacto positivo para a sociedade. Observa-se também nesse exemplo um estímulo extra à aquisição de produtos orgânicos como uma prática ambientalmente sustentável.

Esses e outros exemplos são detalhados no artigo Inovação orientada à sustentabilidade no ambiente hospitalar, publicado recentemente e que demonstra que, no HCPA, a sustentabilidade exerce uma influência positiva na promoção da inovação. A sustentabilidade impulsiona a inovação nas organizações, estabelecendo também condições para que ela ocorra, principalmente, inserindo-a na gestão, em seu estágio mais desenvolvido.

Na gestão, a inovação a partir de preceitos sustentáveis ainda é um aspecto a ser desenvolvido no contexto do HCPA, com potencial de expansão e geração de resultados positivos. Ainda que o aspecto econômico esteja presente no processo de gestão, as dimensões social e ambiental têm um caminho a percorrer, o que denota o estágio mais inicial de adoção da IOS em que o hospital se encontra.

Outro aspecto interessante do estudo diz respeito à contribuição do cliente e da necessidade de incluí-lo no processo de adoção da inovação orientada à sustentabilidade, em especial no segmento de serviços. Na pesquisa realizada, as práticas encontradas no HCPA não iniciam da difusão da inovação a partir da perspectiva do usuário, e sim da prestação de serviços na área da saúde, na qual prevalece uma visão prescritiva, algo típico da área da saúde, em detrimento de uma visão colaborativa com o cliente que, no estudo em questão, são os pacientes e, como empresa pública, a sociedade.

O estudo também identificou algumas barreiras ao desenvolvimento da IOS no HCPA: o financiamento, que é a necessidade de recursos financeiros para iniciar ou desenvolver algo; a segurança, traduzida como a forma como a empresa enfrenta o grau de incerteza; e, por fim, o custo/preço, que diz respeito ao custo ou ônus econômico ao longo das etapas de desenvolvimento do novo modelo de negócios sustentável. Essas barreiras estão diretamente vinculadas à realidade do HCPA, que enfrenta desafios e limitações decorrentes do seu contexto.

Por fim, um convite à reflexão: a sustentabilidade impulsiona a inovação em outras empresas que você conhece? E a Universidade usufrui desse potencial no desenvolvimento e na produção de inovações. As respostas a e o debate sobre essas perguntas ficam como ponto de partida para futuros diálogos e pesquisas.


Marisol Silveira de Oliveira é chefe do Serviço de Remuneração do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA/UFRGS).
Cristiane Froehlich é professora no Programa de Pós-graduação em Administração da Universidade Feevale.
Cristine Hermann Nodari é professora no Programa de Pós-graduação em Administração da Universidade Feevale.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”