Astronomia | Desde a inauguração, em 1972, Planetário Professor José Baptista Pereira já recebeu mais de um milhão de pessoas. Com a reabertura após a pandemia, equipe projeta atividades que combinem presencial e virtual, aproveitando os aprendizados do período em isolamento
*Foto: Flávio Dutra/JU
Um fio de luz é o que separa o mundo exterior da escuridão do planetário móvel. Um a um, cada visitante ultrapassa esse limite e se depara com as estrelas e planetas projetados. Ao longo da exposição, somos todos levados em um passeio pelo sistema solar, que contempla visitas aos planetas, explicações sobre suas diferentes características e até a sensação de o que é estar no meio de uma chuva de meteoros.
Isso é apenas parte da experiência do Observatório Educacional Itinerante (OEI), um projeto realizado pelo departamento de Astronomia da UFRGS em parceria com o Planetário e que busca expandir o conhecimento sobre astronomia, principalmente entre o público jovem. Levando materiais didáticos e equipamentos de observação, como telescópios e binóculos, o projeto visita escolas da capital e do interior e promove atividades que introduzem os estudantes no mundo da ciência.
As crianças permanecem quase hipnotizadas durante a sessão, podendo deitar e observar o universo em todo o seu redor. Os pequenos apenas desviam o foco para olhar para os pais ou amigos quando algo muito interessante aparece. Essa imersão, junto com a trilha sonora e o narrador, tornam o ambiente ideal para despertar a paixão pela astronomia.
Bolsista do projeto, Carlos Rosa relata que “as crianças veem o planetário inflável como algo de outro mundo” e destaca o entusiasmo delas com a experiência. “A reação das crianças é fantástica, elas ficam encantadas com o céu, a astronomia e as possibilidades”, complementa a coordenadora do OEI, Daniela Pavani, acrescentando que um dos objetivos é introduzir a ciência nos contextos sociais e em conjunto com outras pautas.
“A gente tem procurado trazer muito a perspectiva de que a ciência é uma construção importante da nossa sociedade, nos dá respostas, mas existem outras formas de conhecer, por isso levamos programas que mostram a cultura de povos originários ou a importância da participação das mulheres na ciência. E as crianças e os adolescentes ficam muito impactados”
Daniela Pavani



Passado
O Observatório é um dos projetos do Planetário, espaço que está completando 50 anos em 2022. Mas a história do local começa um pouco antes: em 1970, a UFRGS recebeu o projetor Spacemaster da Zeiss, fabricado na então Alemanha Oriental e doado pelo Ministério da Educação e Cultura. A doação ocorreu devido a um acordo comercial negociado durante a Guerra Fria, no qual o Brasil enviava toneladas de café e recebia em troca telescópios, microscópios e outros aparelhos de alta tecnologia. O projetor é o único equipamento Spacemaster do Brasil e não deixou de funcionar uma vez sequer nos últimos 50 anos.
Na época, governo municipal e Universidade trabalharam em conjunto para a consolidação do projeto, enquanto a Prefeitura de Porto Alegre ficou responsável pela construção do prédio, que era parte de uma série de melhorias projetadas para a cidade. A UFRGS ficou responsável pelo projeto arquitetônico, pela manutenção do equipamento e pelo pessoal docente, técnico e administrativo.

Vale lembrar o contexto da época, quando a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética fazia com que se falasse muito sobre o universo e a ciência. No dia 20 de outubro de 1972, após a conclusão das obras, o Planetário recebeu a visita dos astronautas estadunidenses James Lovell, tripulante do Apolo 13, e Donald Slayton, diretor de tripulação de voo da NASA. A inauguração oficial foi pouco tempo depois, em 11 de novembro do mesmo ano. O espaço foi batizado como Planetário Professor José Baptista Pereira, em homenagem ao professor de engenharia que já ensinava os seus alunos a apreciarem o universo do observatório de sua própria casa, antes mesmo da inauguração do Planetário.
O projeto arquitetônico é de Fernando Gonzales, com a colaboração de Walter Bered, e o propósito é simular uma nave espacial pousada no sol, com jardins, espelho d’água, relógio de sol e uma rosa dos ventos ao seu redor. Diferente e curiosa, a construção chama a atenção de todos que passam.



Presente e futuro
Na data do aniversário, em 11 de novembro, haverá uma cerimônia de inauguração da cúpula com o nome de Ary Niemov, uma homenagem ao servidor que faleceu no ano passado. Ary era considerado por muitos a “alma do Planetário”, de acordo com Alejandra Romero, diretora do espaço. O servidor já fazia parte da equipe antes mesmo da inauguração, ajudando na instalação da cúpula. Foi de bolsista à especialista e vivenciou grande parte da história escrita dentro daquele prédio azul em formato de espaçonave.
Além da homenagem, haverá uma exposição com documentos e relatos coletados ao longo dos últimos 50 anos, uma amostra material sobre meio século de história. É a atração final de uma série de eventos realizados ao longo dos últimos meses, que aconteciam perto do dia 11 de cada mês e antecipavam a celebração de novembro. Dentre esses eventos, houve o Piquenique no Planetário e a participação na Noite dos Museus.
O Planetário é a unidade da Pró-reitoria de Extensão que mais recebe público externo; da inauguração, em 1972, até hoje, já foram mais de um milhão de pessoas. Desde a retomada das atividades após o período de pandemia de covid-19, em julho, durante as férias escolares, os ingressos se esgotam em poucos dias após o anúncio das sessões. Em agosto, voltaram as sessões especiais para escolas.
Quando se trata do futuro, o Planetário tem algo em comum com todos nós, que é a busca por entender essa nova realidade pós-pandemia e retornar gradualmente. Diante disso, a ideia da equipe é utilizar o material produzido durante a pandemia para construir outras atividades, combinando o presencial com o virtual e aproveitando os aprendizados do período em isolamento.
“Queremos continuar interagindo com a comunidade da cidade por meio de parcerias com ONGs ou projetos sociais, assim como colaborar e interagir com todas as unidades da Universidade que quiserem fazer alguma parceria. E, principalmente, queremos continuar oferecendo as sessões na cúpula e as nossas atividades pedagógicas para escolas e público geral”, projeta a diretora Alejandra Romero.









