(In)equidade de gênero nas instituições federais de ensino superior gaúchas

Administração | Emília Adams Hilgert e Fernanda Maciel Reichert refletem sobre as políticas e práticas que buscam promover a diversidade em universidades e institutos federais

*Por: Emília Adams Hilgert e Fernanda Maciel Reichert
*Foto: Ana Terra Firmino/ JU – Ensaio Fotográfico UFRGS 88 anos

Por muito tempo, houve a crença na existência de diferenças cognitivas entre homens e mulheres e, por isso, a educação era determinada pelo gênero. Assim, muitas mulheres foram afastadas dos estudos e da ciência, que historicamente são vistas como atividades realizadas por homens, por seu caráter racional e objetivo. Hoje as mulheres são a maioria dos ingressantes em universidades brasileiras. Segundo dados de agências internacionais, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), mulheres têm 34% mais chances de concluir um curso de ensino superior e recebem 54% dos títulos de doutorado. Apesar dessa aparente vantagem na sua formação, mulheres sofrem vieses e têm sobrecarga dentro e fora do ambiente de trabalho acadêmico, especialmente com relação à maternidade, o que resulta em menores chances de entrar e manter-se na carreira, bem como de alcançar os maiores cargos hierárquicos das suas instituições.

Foi justamente com o intuito promover a diversidade de gênero e a igualdade no ensino superior que, em 2005, a Advance HE, instituição britânica de terceiro setor, estabeleceu o Athena Scientific Women’s Academic Network (SWAN) Charter. O Athena Swan Charter é fundamentado em dez princípios-chave, e as instituições devem comprometer-se em adotá-los em suas políticas, práticas, planos de ação e cultura organizacional. Os princípios-chave podem ser agrupados nos seguintes tópicos: igualdade; paridade; representação; incentivo; e mudanças estruturais e culturais sustentáveis. A implementação de políticas e práticas como as instituídas pelo Athena Swan Charter tem colaborado para a promoção da igualdade de gênero nas universidades europeias.

Para identificar se há situação semelhante nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) do Rio Grande do Sul, mapeamos a existência de políticas e práticas institucionais de equidade de gênero, tendo como base os dez princípios-chave do Athena Swan Charter. O estado tem 72 câmpus universitários de 10 universidades e institutos federais, que somam mais de 150.000 docentes, técnicos e alunos. As mulheres são maioria dentre os grupos de servidores técnico-administrativos e estudantes, enquanto os homens ocupam a maioria dos cargos docentes e de gestão universitária.

*Foto: Ana Terra Firmino/ JU – Ensaio Fotográfico UFRGS 88 anos

Há políticas e/ou práticas de equidade em todas as IFES, em maior ou menor número. Identificamos equivalência com oito dos dez princípios-chave do Athena Swan Charter – não foram encontradas ações sobre os princípios relativos ao combate às disparidades salariais e à eliminação dos contratos de curto prazo. A discrepância entre os números de políticas e práticas chama a atenção: 84% são práticas e apenas 16% são políticas. Foram julgadas como “políticas” de equidade de gênero aquelas iniciativas e ações tomadas no âmbito institucional pelas Reitorias, Administrações Superiores ou Conselhos Superiores das IFES. Como “práticas” de equidade de gênero, foram consideradas as ações e as atividades de caráter não institucional e efêmero, com ocorrência pontual, como eventos acadêmicos ou sociais, notícias e divulgações.

As políticas e práticas implementadas nas IFES do RS versam sobre igualdade de gênero na academia, obstáculos na progressão da carreira, tratamento discriminatório a LGBTQIAP+ e comprometimento dos cargos sêniores com as mudanças estruturais e culturais sustentáveis. As principais políticas presentes nas IFES gaúchas versam sobre mulheres na gestão; compensação à licença-maternidade; apoio às alunas gestantes ou mães; uso de nome social; reserva de vagas para pessoas trans; promoção de dignidade menstrual; espaço de acolhimento contra violência; campanhas educativas; posicionamento das reitorias; ações afirmativas; acesso a indígenas e quilombolas. Já as principais práticas envolvem aulas magnas, palestras, lives e seminários; celebrações de conquistas e datas comemorativas; cursos e disciplinas; encontros, eventos, exposições, mostras culturais e festas; grupos de pesquisa; notícias, mensagens, postagens em redes sociais; reuniões; sessões e sugestões culturais.

Espera-se um maior comprometimento das IFES com a equidade de gênero, independentemente de uma associação ao Athena Swan Charter. As IFES promovem algumas ações de equidade de gênero, mas se observa um baixo comprometimento com elas ou com novas iniciativas, especialmente de longo prazo. A maioria das práticas acabam sendo de responsabilidade de grupos organizados dentro das IFES.  Para a aplicação do Athena Swan Charter nas Instituições de Ensino Superior brasileiras, no entanto, há a necessidade de adequações dos princípios-chave ao ambiente socioeconômico do país.

É urgente inserir os temas raça, classe social, homotransfobia, deficiências, entre outros. Também é de suma importância a transparência dos dados, tanto sobre as populações das IFES e a sua distribuição por gênero como sobre as ações e práticas em prol da equidade de gênero e outras ações que assegurem a plena diversidade nos câmpus.

Por fim, deixamos um questionamento aos homens e às mulheres discentes, em cargos acadêmicos, profissionais e de apoio dessas instituições: vocês consideram que a implementação de políticas e práticas realmente promove a equidade de gênero no seu ambiente acadêmico?


Emília Adams Hilgert é bacharela em Comunicação Social – Habilitação Relações Públicas (UFRGS), especialista em Comunicação e Marketing Estratégico, graduanda em Administração e bolsista de Iniciação Científica do grupo Mulheres e Inovação.
Fernanda Maciel Reichert é professora no Departamento de Ciências Administrativas da Escola de Administração (EA) e do Programa de Pós-graduação em Administração (PPGA) na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na área de Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade. Pesquisadora nos grupos de pesquisa Núcleo de Estudo em Inovação (NITEC/UFRGS) e Parent in Science e coordenadora do projeto Mulheres e Inovação.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”



Premiados SIC 2022

Nesta edição comemorativa ao aniversário de 88 anos da UFRGS, o JU apresenta uma série de artigos com relatos de pesquisas premiadas no último Salão de Iniciação Científica (SIC). Dessa forma, destacamos a pluralidade do conhecimento produzido na Universidade e a importância da formação de jovens pesquisadores para o desenvolvimento e a qualificação da ciência brasileira. Clique aqui para acessar todos os artigos.

As imagens dos artigos compõem um ensaio fotográfico alusivo ao aniversário da UFRGS, produzido por Ana Terra Firmino (bolsista de Fotojornalismo), sob supervisão de Flávio Dutra (fotógrafo do JU).