Educação | No Brasil, número de estudantes de graduação com mais de 60 anos tem aumentado nos últimos anos, de acordo com o Censo da Educação Superior. Hoje, mais de 40 mil idosos cursam o ensino superior no país
*Foto: Flávio Dutra/JU
Hélio Vicente Fontana, 70 anos, não esconde a empolgação ao falar da graduação. Calouro de 2020, o estudante do curso de Educação do Campo – Ciências da Natureza, no Câmpus Litoral Norte, diz, sem medo, que “nunca é tarde para buscar a felicidade estudando”. Vera Lúcia Pereira dos Santos – ou Verinha, como é chamada pelos colegas – tem 68 anos e é formada em Letras, Administração de Empresas e Administração Pública e Social, todos pela UFRGS. Depois de um tempo afastada, decidiu voltar à Universidade e se matriculou no curso de Bacharelado em Teatro, com ênfase em Escrita Dramatúrgica. “Quem não quer mais aprender se aposentou da vida”, afirma.
Hélio e Vera são dois dos 250 estudantes com mais de 60 anos matriculados na UFRGS no segundo semestre de 2021, de acordo com levantamento feito pelo Jornal da Universidade. O número está em ascensão. Em 2012, eram 50 os alunos idosos na UFRGS. Em 2015, o número passou para 87. No ano de 2021, os estudantes com mais de 60 anos dentro da Universidade eram 250, um aumento percentual de 400% em comparação a 2012.
O cenário da UFRGS acompanha os números brasileiros. Conforme o último Censo da Educação Superior, de 2021, 43.722 idosos estão regularmente matriculados em um curso superior no Brasil. O número representa um aumento de 55% em relação ao Censo de 2012, quando 28.041 pessoas com 60 anos ou mais estavam matriculadas no Ensino Superior.
Quantidade de alunos idosos matriculados por semestre letivo na UFRGS (2012 a 2021) e percentual em relação ao total de alunos matriculados

Fonte: Painel de dados UFRGS
Alunos idosos matriculados na UFRGS por curso de graduação em 2021/2

Para Johannes Doll, professor titular da Faculdade de Educação (Faced) da UFRGS e especialista em gerontologia, o aumento na expectativa de vida da população é um dos fatores-chaves para compreender a entrada de pessoas idosas na universidade. “As pessoas envelhecem com mais disposição do que antigamente, tanto física quanto cognitivamente”, explica. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, em 2010, a expectativa de vida média do brasileiro era de 73,9 anos. Em 2018, a média subiu para os 76,6 anos.
Em busca de sonhos antigos
“Parecia que eu tinha entrado no jardim de infância.” É assim que Hélio Fontana descreve a sensação de entrar na universidade pela primeira vez. O morador de Nova Tramandaí estudou até o 2.º ano do ginásio (atual Ensino Fundamental II), quando, pelas condições financeiras e falta de incentivo, teve que deixar a escola. Em 2018, finalizou o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) e já em 2019 fez o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Em 2020, em meio à pandemia de covid-19, iniciou sua primeira graduação. “Tudo representa uma grandeza estando na idade que eu estou e tendo passado tanto tempo sem os cotovelos em uma classe escolar”, diz sobre o retorno às salas de aula.
Clésio de Nadal, 72 anos, graduou-se em Medicina Veterinária em 1974. Em 2016, reingressou na UFRGS, onde havia concluído sua primeira graduação. Dessa vez, para o curso de Direito. “Eu sempre tive curiosidade pelo Direito, mas não tinha condições de tempo, além de outras condições familiares que me impediram”, conta. O estudante já finalizou o curso e, agora, aguarda a diplomação.
Em 2016, aos 60 anos, Vera Lúcia Pereira dos Santos decidiu que era hora de voltar para a universidade. Após a aposentadoria, aos 58 anos, começou a se sentir incomodada com o tempo ocioso. “Comecei a me sentir inútil. Estou aposentada e dando aulas de inglês, o que eu faço da minha vida? Eu tenho que preencher esse tempo”, relata. “De brincadeira, um dia minha filha estava aqui [na minha casa], e eu falei ‘eu queria voltar para a UFRGS’. Foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida, só não é melhor que o nascimento dos meus filhos!”, descreve.
“Eu estou muito feliz, porque eu estou aprendendo. A gente não deve parar de buscar aprender”
Vera Lúcia Pereira dos Santos

Envelhecimento saudável
Para Matheus Roriz, neurogeriatra e professor adjunto da Faculdade de Medicina da UFRGS, são cinco os pilares para um envelhecimento saudável: alimentação equilibrada, peso saudável, atividade física, propósito de vida e relações sociais. “Está evidenciado em estudos sobre a longevidade no mundo inteiro a importância de se manter um propósito de vida. Um propósito familiar, ajudar a criar os netos, voltar para a universidade, fazer um curso longo, um propósito religioso, até o propósito de conhecer países”, destaca.
Para Johannes Doll, estar em contato com novos desafios e estímulos intelectuais pode auxiliar na conservação das atividades cerebrais. “Nosso cérebro é como nosso corpo: o que nós não treinamos, a gente perde. E isso vale para a parte de cognição. Na medida em que eu vou enfrentar novos desafios, que eu vou me submeter a novas exigências, meu cérebro também vai continuar se flexibilizando, se adaptando”, complementa.
Intergeracionalidade
Apesar de ainda serem poucos dentro da universidade – afinal, na UFRGS, de acordo com os dados mais recentes, são 0,8% do total de alunos –, os estudantes com mais de 60 anos contribuem para a diversidade da sala de aula. Sobre o processo de socialização com a turma, Clésio de Nadal relembra sua entrada no curso. “Não tive nenhum problema. Claro que eu me sentia um alienígena, mas tudo bem, tinham outros dois alienígenas”, diz. Os outros dois “alienígenas” eram seus amigos da mesma idade e que entraram no curso junto com o médico veterinário.
Para os especialistas consultados pela reportagem, a convivência entre estudantes de diferentes gerações é positiva para todos. “O contato entre os alunos de diferentes gerações é uma troca de experiência enriquecedora para os alunos, para o professor e para a universidade”, aponta Matheus Roriz. “Os benefícios do convívio intergeracional são muitos. Primeiro, é estimulante. É bom trabalhar com jovens, exige pensamentos diferentes, o que exige uma elasticidade cerebral. Como um treinamento cognitivo. Os contatos sociais também ajudam”, destaca Doll. “E para os mais jovens também é positivo. Primeiro para relativizar as trajetórias, entender que o tempo é mais longo do que eles imaginam. Segundo, para não ficar na sua bolha e se confrontar com outras situações de vida.”
“O ser humano é, essencialmente, um ser social. E um dos problemas do envelhecimento é que, em geral, as redes sociais diminuem. A tendência é diminuir essas relações, então as pessoas que conseguem manter uma convivência intergeracional conseguem manter uma rede maior, mais estimulante e mais positiva”
Johannes Doll

Expansão
Apesar do aumento registrado nos últimos anos, o número de idosos na universidade ainda é pequeno. Uma das razões é o baixo nível de escolaridade entre as pessoas com mais de 60 anos. Dados divulgados em 2019 pelo IBGE indicam que o analfabetismo nesse grupo é de 18%. A desigualdade racial, no entanto, chama a atenção. Entre a população branca, 9,5% são analfabetos. Esse número, contudo, triplica entre pretos e pardos, atingindo a marca de 27,1%.
“Seria interessante ter uma abertura para grupos que nunca tenham frequentado a universidade, que não tenham memórias construídas aqui dentro”, aponta Johannes Doll.





