Cultura | Estudantes de graduação da UFRGS que trabalharam como mediadores no evento relatam os desafios e rendimentos que esse trabalho lhes proporcionou e refletem sobre o acolhimento a quem se interessa em conhecer mais sobre uma obra de arte no espaço tipicamente restrito dos museus
*Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU 19 nov 2022
A Praça da Alfândega – onde, nos fins do século XVIII, se situava o antigo porto fluvial de Porto Alegre – há muito tempo deixou de ser um lugar restrito a comerciantes e quitandeiros para se tornar um ponto turístico e cultural da capital. Às margens da praça ficam, por exemplo, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o Memorial do Rio Grande do Sul e o Farol Santander, três dos dez espaços em que a 13.ª Bienal do Mercosul, cujo tema é “Trauma, Sonho e Fuga”, promove a confluência de artes e culturas de maneira harmônica e educativa. Naquelas verdadeiras salas de aula onde se entra com uma cabeça e se sai com mil consciências, encontra-se uma ponte entre dois ou mais mundos, uma mão que conduz aquele que salta rumo ao que pode ser distante e desconhecido: o mediador.
Estudante de Museologia na UFRGS e graduada em Turismo pela PUCRS, Gabriela Mattia não esperava integrar o educativo da Bienal como supervisora quando se inscreveu para o curso de mediadores promovido pela instituição a dois meses do início do evento. Natural de Santa Rosa, avessa a filmes de terror e visitante de museus por paixão e profissão, enquanto supervisora, Gabriela lida com assuntos tais como a organização das equipes de mediadores, as folgas e demais questões que necessitem de consulta às diretorias, o que não a impossibilita de receber os públicos e garantir, quando necessário ou requisitado, que estes se situem em relação ao que veem.
O contato de Gabriela com a arte começou ainda na escola, quando excursões permitiam aos alunos que fossem para além das dependências acadêmicas aprender sobre arte e cultura, o que não aconteceria da mesma forma na sala de aula. Ao reconhecer a importância da Bienal para a disseminação da arte, a graduanda em Museologia se admira com a quantidade de pessoas que visitam as exposições no Memorial do Rio Grande do Sul. “Esses dias nós batemos quatro mil visitantes só no Memorial. É estrondosamente louco [observar] a quantidade de pessoas que vem para a Bienal, que quer ver arte tanto para gostar ou não gostar quanto para refletir”, relata.
“Tem mudado de pouco em pouco essa noção de que a arte tem de ser algo bonito – isso para o público em geral, porque para a academia já faz tempo. Tem mudado para que as pessoas consigam ver o processo dos artistas e tentem encontrar a pergunta para a qual essas obras estão dando respostas ou não”
Gabriela Mattia

Os impactos e a sensibilidade da mediação
A professora do Departamento de Artes Visuais da UFRGS Camila Monteiro Schenkel teve sua primeira experiência com mediação quando atuou na 8.ª Bienal do Mercosul, antes de coordenar, ao lado de sua colega Aline Nunes, o Arestas, projeto de extensão em formato de grupo de estudos em arte e mediação. “O estudante enquanto mediador vai ter contato com muitas dimensões relacionadas a obras de arte, produção, exibição e recepção. O mediador se aproxima mais da visão do artista, acompanha a montagem e tem um convívio prolongado com as obras, o que é diferente de visitar um museu por uma ou duas horas”, diz a docente. Estar em contato ora com um grupo de estudantes ou de trabalhadores, ora com um colecionador de arte influencia pontos de vista diferentes e uma saída da bolha especializada.
Rafaela Zwierzynski, estudante de Teatro na UFRGS, não perde a oportunidade de ler Literatura Fantástica e os romances de Clarice Lispector e Sally Rooney quando pode, assim como não perdeu a oportunidade de participar do processo seletivo de mediadores desta Bienal depois de ter sido introduzida à Arte e Educação como integrante do educativo da Fundação Iberê Camargo. “Eu me interessei muito [pela mediação] porque tem uma questão de diálogo tanto com as pessoas quanto com a arte de uma maneira muito sensível, que é diferente da ideia de só observar uma obra de arte e esperar uma grande revelação”, explica Rafaela.
Mediadora no Farol Santander, Rafaela comenta que, para além do impacto artístico e cultural, a Bienal traz também impactos socioeconômicos. “Muitas pessoas conseguem se inserir no mercado de trabalho com a Bienal. A gente vem de uma pandemia e de um momento muito forte de desemprego, então é muito interessante ver tantos jovens podendo trabalhar com arte”, ressalta. Além disso, Rafaela também conta que o espaço do Farol é voltado a obras que de alguma forma interagem diretamente com os espectadores, destacando a sensibilidade por trás desses trabalhos, como é o caso da obra interativa Pulse Topology, de Rafael Lozano-Hemmer, que consiste em três mil lâmpadas suspensas por cabos no ar e que se acendem conforme o ritmo dos batimentos cardíacos do espectador.
“Às vezes uma pintura que fica na parede é muito distante, e às vezes ela não consegue ser entendida. Quando a pessoa vê a própria pulsação fazendo brilhar três mil lâmpadas, ouvindo o próprio coração, ela se relaciona com a obra de maneira diferente. Então eu acho que a Bienal e eventos culturais assim têm uma importância de aproximação para que as pessoas se enxerguem como sujeitos”
Rafaela Zwierzynski
Estudante de Jornalismo na UFRGS, Gabriela Sardi deixou-se levar pela influência dos tempos de infância, época em que começou a visitar a Bienal e a se encantar com as obras, e mergulhou de cabeça na experiência da mediação quando decidiu participar do processo seletivo de mediadores. “Quando eu tinha onze anos, resolvi que, quando eu crescesse, seria uma das pessoas de colete da Bienal. Essas pessoas de colete tornavam tudo mais interessante, instigavam reflexões e traziam curiosidades sobre as obras”, recorda. Resolução feita, ação realizada: o colete de mediador agora lhe serve como uma luva.
Para Gabriela, que atua no MARGS, o trabalho de mediação é mais sobre fazer os públicos, principalmente os periféricos, se sentirem à vontade dentro do museu, que já é intimidador por conta de toda a sua pompa e proeminência arquitetônica. “É importante que todos os públicos se sintam à vontade aqui dentro e se relacionem com a obra de alguma forma. [É fundamental] relacionar a obra com o cotidiano das pessoas, com as vivências delas”, reflete.


A construção de um ambiente de disponibilidade
Gabriela Mattia soma as experiências de seus cursos e, através de uma equação dotada de empatia, chega a um resultado capaz de transformar maneiras rígidas pelas quais o meio educacional por vezes é gerido. “A mediação é, como a gente diz no Turismo, uma hospitalidade. Na Museologia, a gente fala de acessibilidade, que acessibilidade não é só para pessoa com deficiência; falamos de uma acessibilidade universal e total: todos os corpos se sentirem à vontade, o que é muito difícil”, conta.
Reforçando a seriedade do trabalho do mediador e a desconsideração que por vezes enfrentam, Rafaela pontua: “Tem-se a ideia de que temos que acolher tudo, mas tem um limite para isso; não temos que ser tolerantes com intolerância”. No último sábado (19), o educativo da Bienal se viu diante disso: o curador da 13.ª Bienal, Marcello Dantas, sem saber que os mediadores haviam acordado, antes do início do evento, que não executariam uma obra imaterial de um artista alemão – trabalho que fariam sem remuneração –, classificou tal atitude como “ato de rebelião” e xenofobia. “Antes da estreia da Bienal, nós [mediadores] lemos um manifesto no curso informando que não iríamos executar a obra”, conta Gabriela Sardi.
Rafaela repreende a qualificação do curador e considera que a equipe do educativo se viu precarizada nesta edição da Bienal, sendo que “é através do educativo que você se conecta com as pessoas de muitas maneiras, que podem, inclusive, transcender o espaço do museu”. Para Gabriela Mattia, “os recentes acontecimentos demonstram o desinteresse do curador pela ação educativa, o que acaba por ressoar na precarização do trabalho”. A reportagem entrou em contato com Marcello Dantas para obter um posicionamento sobre o conflito, mas não obteve retorno até a publicação do texto.
No entendimento de Gabriela Sardi, a práxis do mediador da Bienal é justamente realizar um acolhimento, compreender quem está se propondo a realizar o salto em direção às mil consciências. Com as crianças das turmas de escolas que recebe, suas proposições de mediação buscam trazer o lugar de diversão para o aspecto sóbrio do MARGS.
“O MARGS tem esse tom de ‘A gente tem que falar baixinho, não pode correr, não pode tocar nas obras’; é muito esse lugar de ‘Não dá, não dá’. Então eu gosto que as turmas entendam que dá pra sentar no chão, dá pra fazer uma brincadeira, dá pra falar mais alto. Explorar essas coisas divertidas, que podemos dar risadas, que [a visitação] não precisa ser monótona e entediante”
Gabriela Sardi


Camila não se esquece de que a realidade que predomina é a de que há uma distância entre o público e a arte contemporânea. Mas ela também ressalta que a Bienal do Mercosul atrai públicos que não costumam frequentar exposições e ajudou, ao longo dos anos, a ampliar o interesse pela arte.
“Eu gosto de pensar que, mais importante que a mediação que trabalha com conteúdo, é a mediação que trabalha para a construção de um ambiente de disponibilidade, interesse e discussão em relação ao que está sendo mostrado. Não se trata de explicar por que o trabalho de determinado artista é considerado bom ou importante, mas de construir, junto com os públicos, formas de nos relacionarmos com ele”
Camila Monteiro Schenkel
Gabriela Mattia, Rafaela Zwierzynski e Gabriela Sardi estão em total consonância quando ressaltam em primeiro lugar o que mais aprenderam como mediadoras na 13.ª Bienal do Mercosul: trabalhar em equipe. “[A mediação] é um trabalho que não se faz sozinho. Acho que é um trabalho de sensibilidade muito forte porque você tem que ter uma abertura [para as pessoas], e isso é muito valioso”, ressalta Rafaela. A respeito do que levarão dessa experiência para suas respectivas graduações e vidas, a estudante de Teatro carregará a experiência e a sensibilidade da arte educativa. A aluna de Museologia guardará consigo o contato profundo com os museus e a vontade de trabalhar novamente com realizações como essa. Já a graduanda em Jornalismo diz que ganhou um olhar mais atento e receptivo a respeito das pessoas que podem, com suas maneiras e opiniões, render mais do que se espera delas, e com esse novo olhar pretende investir em pautas que de início podem parecer ter nada ou pouco a oferecer.
Se em 1997, a 1.ª edição da Bienal deixou para Porto Alegre o Jardim das Esculturas no Parque Marinha do Brasil e em 2005, da 5.ª edição, ficou o Mirante Olhos Atentos na orla do Guaíba, neste ano o evento se encerra deixando outras heranças para a cidade: a garantia do envolvimento de jovens no trabalho com as artes, o avanço da propagação da arte contemporânea entre diferentes públicos e culturas e o desenvolvimento da educação no meio artístico com a colaboração do aumento da acessibilidade nesses espaços.












