Pinacoteca | Professor aposentado do Instituto de Artes, Paulo Gomes comenta uma série de imagens produzidas pelo artista italiano que retratam o balneário de Atlântida na década de 1950
*Foto: Angelo Guido, Paisagem de Atlântida, c. 1950. Reprodução: Acervo artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.
Pintor, crítico de arte, historiador, agente cultural e professor, Angelo Guido (Cremona, Itália, 1893 – Pelotas, RS, 1969), como é conhecido, nasceu na Itália, de onde seus pais emigraram para o Brasil em 1895. Espírito aventureiro, viajou pelo Brasil, atuando em São Paulo, Bahia e no Pará, radicando-se, em 1925, no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre iniciou suas atividades como crítico de arte em jornais. Em 1936 fez o concurso para professor catedrático em História da Arte, no Instituto de Belas Artes, sendo contratado a partir de então e atuando até sua aposentadoria em 1964.
Guido foi um intelectual e agente cultural de alto nível, desenvolvendo múltiplas atividades: como crítico de arte, o primeiro com perfil profissional no Estado; como artista, principalmente paisagista, participando de exposições coletivas de referência; como historiador da arte, área na qual foi um dos precursores na escrita de uma história da arte do Rio Grande do Sul; como agente cultural, atuando em prol do patrimônio cultural do Estado e, finalmente, como professor no Instituto de Belas Artes, formando artistas e um amplo público, por meio de suas críticas em jornais, palestras e conferências, que proferiu ao longo de sua prolífica carreira.

A importância de Guido para o campo artístico local é imensurável e percorre mais de quatro décadas de atividades ininterruptas. Como crítico de arte, esclareceu e orientou o gosto estético do grande público, promovendo um debate fundamentado em sólido conhecimento da área, avançando muito além das crônicas de arte do período. Como teórico e historiador, sua ação foi marcada pela defesa e publicação de sua tese de Cátedra, intitulada “Forma e Expressão na História da Arte” (1938), a que se seguiram ensaios monográficos sobre os artistas Pedro Weingärtner (1956) e Manuel de Araújo Porto Alegre (1957).
Angelo Guido foi um pintor e desenhista de grandes qualidades. Principalmente um paisagista, se mantendo fiel aos princípios da figuração, elaborando telas de refinada composição, muitas das quais inovadoras pelo ponto de vista dos ângulos inusitados, tributários do olhar fotográfico sobre o motivo. Se sua pintura ainda obedece aos cânones estruturais da arte acadêmica, ela tem, entretanto, uma abordagem solta e luminosa, com uma modulação cromática requintada e harmoniosa, o que o caracterizava como um pintor modernista de destaque na sua geração.
Agora, em 2025, no ano em que se comemoram os 100 anos de sua chegada ao Estado, o Instituto de Artes festeja essa data de modo excepcional, disponibilizando aos pesquisadores e estudiosos o Acervo Angelo Guido, doado para o Arquivo do Instituto de Artes da UFRGS com uma documentação excepcional, de inestimável importância para a história das Artes Visuais no Brasil.

Essa pequena paisagem, apesar de não estar datada, integra, pelo tema e pelo tratamento formal, a série de imagens produzidas pelo artista na década de 1950. O caráter fotográfico da vista de Atlântida, balneário do norte do Rio Grande do Sul, é tributário da posição do artista, que se colocou de frente para o Morro Alto, deixando o mar invisível atrás do observador.
Devemos considerar que, à época da pintura, a praia de Atlântida era um balneário remoto, muito longe da metrópole dos dias de hoje. O que está registrado é a imagem de uma região pouco habitada à margem da lagoa que dá origem ao Rio Tramandaí.
No primeiro plano vemos uma grande área verde, com vegetação vibrante e uma pequena construção. É notável a luminosidade intensa que se espraia livremente, intensificando os variados verdes da vegetação, com alguns pequenos toques de tons terrosos que culminam, na metade da tela, com a perspectiva aérea de suave lilás do Morro Alto, que se integra harmonicamente ao azul descorado do céu.
Por afinidade formal, podemos situar essa obra no expressivo conjunto de trabalhos nos quais ele apreendeu os aspectos da paisagem em imagens rápidas. São paisagens luminosas, numa linguagem moderna, nas quais ele se vale de cores claras, aplicadas quase puras, dando forma aos elementos da paisagem sem recorrer ao desenho rigoroso e descritivo.
Paulo Gomes é professor aposentado do departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS. Desenvolve pesquisas em História da Arte, com ênfases no século XIX e primeira metade do século XX, com destaque à História da Arte no Rio Grande do Sul e seus artistas.
Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.




