Saúde | Com a proposta de serem aliados aos tratamentos médicos contemporâneos, recursos como acupuntura e auriculoterapia são oferecidos pelo SUS desde 2006
*Foto: Flávio Dutra/JU
Há oito anos, a ex-promotora de vendas Rosângela Mello sofreu uma queda grave que lhe resultou na fratura de três vértebras. Em virtude do acidente, ela precisou passar por uma cirurgia para a inserção de pinos, pediu afastamento do trabalho e iniciou sua luta contra as dores. Na época, a sugestão do ortopedista foi que ela buscasse na acupuntura, uma terapia feita com agulhas colocadas em pontos específicos do corpo, uma forma complementar ao tratamento medicamentoso e fisioterápico.
“Eu cheguei a partir da indicação do meu médico. Após a cirurgia, eu passei a sentir muita dor, e com a acupuntura comecei a melhorar. Eu não conseguia colocar o tênis no pé. Depois das sessões, nem parecia estar na mesma forma que cheguei”, relata Rosângela.
A técnica, oriunda da medicina tradicional chinesa, faz parte do rol de abordagens de cuidados conhecido como Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). As PICS são recursos terapêuticos baseados em saberes tradicionais e populares que buscam auxiliar na prevenção de doenças, na promoção e na recuperação da saúde.
A partir do incentivo da Organização Mundial da Saúde (OMS) aos países membros, desde 2006 o Sistema Único de Saúde (SUS) institucionaliza tais técnicas por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). Atualmente, 29 terapias são oferecidas no sistema público brasileiro: medicina tradicional chinesa, medicina antroposófica, homeopatia, plantas medicinais e fitoterapia, termalismo, arteterapia, ayurveda, biodança, dança circular, meditação, musicoterapia, naturopatia, osteopatia, quiropraxia, reflexoterapia, reiki, shantala, terapia comunitária integrativa, yoga, apiterapia, aromaterapia, bioenergética, constelação familiar, cromoterapia, geoterapia, hipnoterapia, imposição de mãos, ozonioterapia e terapia de florais.
Por anos, tais práticas eram denominadas “alternativas”. De acordo com Daniela Dallegrave, professora da Escola de Enfermagem da UFRGS, o termo, no entanto, é equivocado. “A ideia é de que elas não sejam alternativas, que não se deixe de fazer o que se tem do cuidado biomédico. Todos os exames, os medicamentos, tudo é recomendado que seja mantido. As PICS são complementares, elas se somam ao tratamento. É uma coisa mais a outra, e não uma coisa ou a outra”, explica. A partir disso, segundo Daniela, qualquer enfermidade pode ser tratada aliada às PICS. “Algumas vão estar mais relacionadas à prevenção, outras à reabilitação”, complementa.
Dados da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul apontam que, dos 497 municípios gaúchos, 394 registraram atendimentos de PICS em 2022, nos quais as principais práticas realizadas foram auriculoterapia, acupuntura, fitoterapia, sessões de reiki e aromaterapia. Na atenção primária de Porto Alegre, 16 das 29 práticas presentes no SUS são oferecidas. Das 132 unidades básicas de saúde da capital, 76 oferecem pelo menos uma das terapias. Apesar de não possuir uma política municipal específica para as PICS, a cidade se alinha à política nacional do Ministério da Saúde.
Conforme Márcia Jacobsen, responsável pela Área Técnica das Políticas Públicas em Saúde das PICS da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, as práticas integrativas são transversais a outras políticas do SUS. Ou seja, elas passam por programas de saúde como do idoso, da população LGBTQIAP+, do imigrante, do indígena, dentre outros. “É uma prática mais natural, de pouca intervenção e mais econômica”, defende.
Os atendimentos podem ocorrer por livre demanda nas unidades de saúde com atendimento em PICS ou por encaminhamento de médicos, enfermeiros ou agentes comunitários que identifiquem que o paciente possa se beneficiar dos recursos terapêuticos. Embora em menor quantidade, as práticas também podem estar presentes em hospitais e na atenção especializada.
Promoção global da saúde
Os principais encaminhamentos são destinados a tratamento de dores, problemas do sono e para o cuidado em saúde mental. No caso de Rosângela, além do desgaste físico, o acidente culminou no desenvolvimento de depressão, o que a fez buscar, junto ao atendimento psiquiátrico, um auxílio complementar. A meditação passou a fazer parte da sua rotina, como também o reiki, técnica que consiste na imposição de mãos para transferência de energia, e a auriculoterapia, método da medicina tradicional chinesa que utiliza pequenas sementes para estimular pontos estratégicos do pavilhão auricular e tratar desequilíbrios do corpo. Hoje, ela conta 8 sementes coladas em sua orelha, posicionadas para lhe auxiliar no alívio das dores lombares e dos sintomas emocionais.
“A gente começa a sentir na continuidade. É como um remédio para um tratamento, tem que ir tomando para fazer efeito”
Rosângela Mello
O relaxamento, a diminuição das dores e do sofrimento mental e o aumento da autoestima e do autoconhecimento estão entre os principais benefícios observados pela ex-promotora de vendas. “É uma forma de me conectar comigo mesma”, afirma. As indicações das PICS levam em consideração o indivíduo como um todo, considerando-o em seus aspectos físico, psíquico, emocional, social e comunitário. Dessa forma, sua aplicação visa uma promoção global do cuidado.
A enfermeira Aline Torres trabalha com as práticas na atenção primária de Porto Alegre e, em seus atendimentos, observa a ampliação da autonomia dos pacientes a partir da possibilidade de escolha de inserir a integralidade no tratamento. “É um processo de ampliação de consciência sobre o seu processo de saúde e doença, não tanto focado na patologia pela qual a pessoa vem buscar o atendimento, mas, sim, nesse equilíbrio de bem-estar”, pontua a profissional.
O mesmo percebe a enfermeira Patrícia Zvirtes, que atua na atenção especializada em um Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSI), onde, muitas vezes, os pacientes chegam com transtornos mentais agravados. Entre os métodos que a profissional desenvolve estão a yoga, as técnicas de acupuntura e a ayurveda, medicina milenar indiana. “À medida que o usuário tem que mudar suas rotinas, isso vai trazendo um processo de autonomia, uma ação frente ao tratamento. Isso o tira dessa ‘inércia’, que seria o profissional sempre agindo sobre o paciente. Então, inverte um pouco essa ordem”, acrescenta a enfermeira.




Diferentes formas de cuidado
Adolescente transexual, Iory Barres está em processo de hormonização para o estímulo de mudanças corporais. Diante dos efeitos colaterais de irritabilidade e ansiedade provocados pela intervenção, o estudante começou a realizar sessões de auriculoterapia. “A hormonização causa muito desequilíbrio emocional, e a auriculoterapia está me auxiliando demais em conseguir controlar os sentimentos causados pela testosterona”, relata. De acordo com Iory, o recurso terapêutico também está auxiliando no tratamento das dores nas costas causadas por uma escoliose.
A terapia é oferecida no Ambulatório Trans, de Porto Alegre. Segundo Sophie Nouveau, ativista trans e enfermeira da equipe, as PICS apresentam-se como uma potência para trazer possibilidades de intervenção para o manejo da dor e da ansiedade. “Temos que entender que algumas estratégias de cuidado ainda estão em processo de construção e não foram totalmente elucidadas, especialmente se pensarmos nas especificidades em saúde da população trans. Temos protocolos e estudos, mas cada corpo é um corpo e vai reagir de uma maneira. Pensamos nas PICS como mais uma estratégia, além dos medicamentos para dor, para que possamos pensar nesse manejo”, diz.
Com as propostas de promover uma escuta acolhedora, desenvolver um vínculo terapêutico e produzir saberes de forma compartilhada, as PICS apresentam outros sistemas de cuidado e de percepção do corpo. Nesse sentido, Daniela Dallegrave cita o conceito de “racionalidades médicas”, criado pela pesquisadora Madel Luz, que propõe pensar e promover estudos sobre os sistemas médicos complexos que coexitem com a medicina moderna. A perspectiva abre espaço para discutir a existência de mais de um modelo, contrariando a ideia de que somente as práticas medicinais contemporâneas são portadoras de racionalidade científica.
“São jeitos diferentes de perceber o corpo, de perceber o adoecimento e de classificar esse adoecimento”
Daniela Dallegrave
Com isso, a partir das delimitações estabelecidas pelo conceito, as medicinas homeopática, antroposófica, tradicional chinesa e ayurvédica, assim como as práticas integrativas de que delas derivam, também podem ser consideradas portadoras de razão. “Unir os saberes tradicionais com o que há de evidências pode nos ajudar a pensar diferente, pode nos ajudar a produzir conhecimento, pode nos ajudar a chegar em outras respostas”. Com base nesse aspecto, a professora reforça a importância da consolidação das evidências científicas sobre o tema e da qualificação da formação profissional.
A enfermeira Aline Torres observa que a interação das PICS com os tratamentos médicos contemporâneos leva a um modelo de cuidado para além daquilo que o paciente foi buscar na unidade de saúde, mas entende que nem todos desejam incorporar as práticas. “Poder oferecer um atendimento integral é o que existe de ponta. Nem todo mundo está num momento adequado ou tem interesse em fazer, mas a pessoa tem que poder escolher”, defende.





