A presença feminina na CEU

Mulheres e homens se preparando, em frente à CEU, para a “invasão” feminina. 29 de abril de 1980 (Foto: Acervo Pessoal Luiz Eduardo Robinson Achutti )

A Casa do Estudante Universitário (CEU) foi oficialmente inaugurada pela administração da UFRGS em 27 de julho de 1971. O pomposo festejo contou com a presença do então presidente da República, Emílio Médici, que estava em Porto Alegre por conta do encerramento dos Jogos Universitários Brasileiros. A moradia, que fora pensada, no final dos anos de 1950, para abrigar um bloco feminino, começou a funcionar sem qualquer vestígio da presença de mulheres e, mais do que isso, proibindo por regimento a sua presença nas dependências internas do local – entre os itens que figuravam no regulamento para uma convivência salutar entre os jovens, estava o de número 18, cuja redação informava que era vedada a entrada de pessoas do sexo feminino nos andares residenciais da CEU.

Casa do Estudante Universitário sendo construída na década de 1960. (Foto: Museu da UFRGS)

Nos primeiros anos de sua existência, não foram poucos os conflitos que se travaram entre estudantes e gestores. Um dos principais embates era pelas vagas do Conselho, cuja função seria gerenciar o cotidiano dos moradores. Esse órgão era responsável pelos casos de indisciplina, cabendo-lhe julgar e aplicar as devidas penalidades. Dentre as infrações que vinham sendo contestadas estava a presença feminina. A vigilância em relação às mulheres era tanta que houve o caso de uma mãe impedida de visitar o filho no quarto quando este quebrou o pé e ficou impossibilitado de caminhar.

A ocorrência desse episódio fez com que os moradores aumentassem a pressão junto à reitoria pelo livre acesso feminino. No entanto, o diálogo entre as partes envolvidas não acontecia, e a Universidade mantinha as ordens expressas de proibição. Em minha dissertação de mestrado, apresentada junto ao Programa de Pós-graduação em Educação, constatei que, mesmo diante de uma estrutura severa, os moradores criaram brechas que possibilitaram o acesso de mulheres. No final de 1979, uma jovem mudou-se para o local com sua filha para morar com o namorado, permanecendo por cerca de seis meses. A denúncia de que havia uma pessoa do sexo feminino efetivamente habitando a Casa ocorreu no início do ano seguinte. A ameaça de expulsão mobilizou os moradores a se articularem para uma entrada coletiva das mulheres nas dependências da CEU.

Depois de uma grande assembleia estudantil, realizada em 17 de abril de 1980, ficou decidido que elas teriam livre acesso, independentemente das ordens da reitoria. Organizou-se, então, uma “invasão feminina” para o dia 29 de abril como forma de contestar as normas. Em resposta às decisões tomadas no ato, os estudantes tiveram suas bolsas cortadas pela Universidade, que não cedia às exigências, num visível ato de represália. O reitor emitiu uma nota oficial, publicada no jornal Correio do Povo, esclarecendo a comunidade acadêmica e o público geral de que o regimento interno não permitia o ingresso feminino e que a UFRGS deveria “zelar pelo cumprimento dos dispositivos legais”. Ao perceber que os estudantes não se desmobilizavam, outra nota foi publicada, dessa vez convidando as mulheres para, nos dias 29 e 30 de abril de 1980, entrarem e conhecerem o ambiente da CEU.

Cartaz de Osmar Rodigheri elaborado para a “invasão”  em 29 de abril de 1980. (Foto: Arquivo da CEU)

A atitude de fazer um “convite” e “autorizar” a entrada por apenas dois dias foi interpretada como uma tentativa de esvaziamento do ato. Houve então uma mobilização liderada tanto pelos moradores como pelo grupo feminista Liberta para arregimentar o maior número possível de pessoas para o dia da “invasão”.

Ao meio-dia de 29 de abril, os manifestantes compareceram em massa nas imediações do prédio da antiga Escola de Engenharia, quase em frente à Casa do Estudante Universitário, onde, a postos com megafones, chamavam o público. No frontispício do prédio foram colocadas faixas com os dizeres: “Abram as grades dessa prisão” e “Sejam bem-vindas mulheres”. Na rua, os estudantes empunhavam cartazes como “Entrada feminina na CEU” e entoavam a canção “Mulher não é boneca, mulher não é feijão, mulher luta contra a repressão”. Das janelas, uma chuva de papeis picados era o convite para que elas entrassem. A polícia militar cercou toda a área da avenida João Pessoa, mas a manifestação ocorreu sem confrontos. As mulheres, num ato transgressor, entraram na CEU e caminharam pelos corredores. Do terraço, manifestantes discursavam sobre a importância da moradia mista e do atraso da Universidade em manter um espaço segregado. No dia do ato foram organizados diversos debates na Casa. Os temas variavam entre papel da mulher na sociedade, homossexualidade, prostituição e família.

Papeis picados sendo jogados pelas mulheres no dia da “invasão”. 29 de abril de 1980. (Foto: Acervo Pessoal Luiz Eduardo Robinson Achutti)

 Mesmo com toda a ressonância que a “invasão” provocou, as normas institucionais não foram modificadas, e a presença delas seguiu sendo um tabu. Um ano após a entrada coletiva, a reitoria não tinha chegado a uma deliberação sobre o assunto e continuava impedindo a moradia mista. Ainda assim, as regras continuavam sendo descumpridas e forçavam cada vez mais uma mudança de atitude. Muitas mulheres ingressaram na Casa “ilegalmente” e passaram a habitá-la cotidianamente. Estas eram identificadas pelos funcionários da Universidade como “as clandestinas”. Em meados de 1982, um relatório do administrador da CEU dava conta de mais de 20 mulheres morando de forma permanente e quatro de forma eventual.

O movimento para a presença feminina na CEU não tinha mais como retroceder e, ao dar-se conta, a Universidade finalmente cedeu. Em novembro de 1982, foi apresentada uma proposição da Pró-reitoria à Associação dos Moradores para que as mulheres moradoras da CEU fossem devidamente identificadas, sendo que as com vínculo estudantil teriam o direito de permanecer; as demais deveriam ser afastadas. Nesse documento é feita uma proposta de alteração do regimento que inclui como moradores da CEU todos os alunos de graduação e pós-graduação, sendo entendido por todos, estudantes do sexo masculino e feminino.

Ainda que as mulheres tenham sido autorizadas a permanecer na Casa, o trâmite burocrático para a aprovação do Regimento Interno levou meses, tendo sido aprovado tão somente em abril de 1983. Três anos após a “invasão feminina”, as mulheres, enfim, passaram a ter o direito legal de morar na Casa do Estudante Universitário da UFRGS.