Do pré-vestibular à docência em profissão

Artigo | A graduanda do Bacharelado em Letras Maria Aparecida Machado de Deus conta sua experiência pessoal no EducaMed, projeto de educação popular que oferece preparação para o concurso vestibular da UFRGS

*Por Maria Aparecida Machado de Deus
*Ilustração: Jeniru/IA-UFRGS

Não se pode falar de educação sem amor. 

Paulo Freire

Foi com muito amor que minha jornada se iniciou. Com amor à medicina, por ser a profissão com que eu mais me identificava desde o início da adolescência, comecei os estudos pré-vestibular, ainda no ensino médio, visando uma aprovação quase imediata, pois não tinha experiência com as dificuldades de acesso ao ensino superior. Nesse período, conheci o Curso Pré-vestibular EducaMed, um projeto de extensão da UFRGS, pela televisão, em uma reportagem do Jornal do Almoço da RBS TV.

As informações que foram passadas no jornal me chamaram muito a atenção, porque eu sequer sabia que existiam cursinhos populares e não tinha ideia de como funcionava a educação popular. Com isso, depois de procurar nas redes sociais do EducaMed as informações necessárias para a inscrição, selecionei os documentos que precisavam ser entregues à coordenação do projeto, juntamente com a minha carta de motivação, exigida pelo processo seletivo do cursinho. Hoje não me recordo do que havia escrito nela, mas, com certeza, devo ter contado um pouco da minha história de vida e de estudos dentro do meu contexto social e das limitações que me foram impostas, sobretudo pela dificuldade de ascensão dos jovens negros em uma sociedade racista.  

Mais adiante, depois de ter sido selecionada e já estar no EducaMed, continuei sendo bombardeada de amor por todos os lados: tanto pelos estudantes extensionistas, professores incríveis apaixonados pela educação popular, quanto pelos colegas de curso com suas histórias motivadoras de luta. Tudo isso me fez continuar estudando e jamais desistir dos meus sonhos, ainda que houvesse inúmeros empecilhos, como a dificuldade de deslocamento devida ao preço das passagens dos transportes públicos de Porto Alegre ou a dificuldade de trabalhar, a fim de poder custear minhas necessidades básicas, e estudar ao mesmo tempo.

Atualmente, vejo que tudo o que sou hoje se deve ao que vivi e aprendi na época de vestibulanda, pois meu objetivo na docência é ser uma profissional que, com muito amor, dá voz e representatividade às lutas essenciais que salvam o mundo, como as lutas antirracistas, antilgbtfóbicas e a luta das mulheres por sua inserção justa na sociedade. 

Naquela época de vestibulanda, continuei objetivando a medicina, porque me conectava com os conteúdos da disciplina de biologia e tinha como meta principal de futuro ser psiquiatra – profissão com a qual me identifiquei quando tive os meus primeiros contatos com os profissionais da área. No entanto, entre os estudos e a preparação para as provas, percebi que tinha certa inclinação pela área de linguagens, sendo que sempre tive fácil comunicação com as pessoas e, desde pequena, busquei aprender outros idiomas. Contudo, por me deixar levar pelos estigmas da sociedade relacionados à remuneração dos professores, nunca havia dado a devida relevância à minha adoração pela língua portuguesa. 

Após quase três anos no pré-vestibular, entretanto, quando finalmente percebi que tinha futuro no curso de Letras, permiti-me acreditar no meu potencial nessa área. Sendo assim, foi depois dessa mudança de perspectiva, causada pelo meu amadurecimento e, sobretudo, pelo autoconhecimento possibilitado pelas reflexões que me foram provocadas ao longo das aulas do EducaMed, que passei em primeiro lugar, na cota L2, que é designada às pessoas autodeclaradas pretas, pardas e indígenas de baixa renda, no curso que, no início, eu não tinha nenhuma pretensão em me matricular. Hoje, porém, sou apaixonada pelos infinitos caminhos que o Bacharelado em Letras proporciona aos seus alunos. 

Por isso, quando baseio minha trajetória em amor é para poder descrever que ele esteve presente em diversos momentos, dos implícitos aos explícitos, encontrando-o, sobretudo, nas muitas ações das pessoas maravilhosas que o EducaMed me apresentou. Desse jeito, quero dizer que foi pela presença de professores, os quais fizeram questão de me mostrar a capacidade que eu tinha, que acreditaram em mim, que, hoje, sou a graduanda, a estudante de Letras, a professora que sou. 

Hoje, como bolsista no EducaMed, atuando na coordenação do curso, o que mais quero é ser, para os novos alunos, o que os professores e os bolsistas da minha época foram para mim: pessoas que me acolheram e ajudaram a entender que o meu lugar é, sim, dentro da universidade. De forma a esclarecer que existe um contexto social que tenta impedir meu crescimento, mas que existem pessoas, como os meus professores no pré-vestibular, projetos como o EducaMed e políticas públicas, como as alicerçadas sobre a promoção de ações afirmativas, que buscam construir uma verdadeira reparação histórica. Esses mesmos professores também me ajudaram a entender que a vida na universidade é tão árdua como a encontrada em qualquer outro meio que eu escolhesse seguir, por igualmente reproduzir a visão segregacionista da sociedade. 

Atualmente afirmo que o EducaMed é muito mais que o projeto de extensão em que eu atuo e meu antigo curso pré-vestibular, porque ele é, na verdade, o lugar em que a minha carreira se iniciou. Sendo assim, depois de passar na UFRGS e agora dentro da sala de aula, porém como professora de língua portuguesa e de redação, analiso minha trajetória com muito orgulho e agradecimento por ter tido e continuar tendo o privilégio de fazer parte de um projeto extraordinário de educação popular transformadora. Por fim, após três anos dentro do EducaMed, primeiramente como aluna e agora como parte da coordenação e bolsista, entendi que o amor se estabelece, também, nas ações sociais de pessoas empenhadas em mudar o mundo de maneira assertiva.


Maria Aparecida Machado de Deus é graduanda no Bacharelado em Letras – Português e Alemão.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”