Wagner Machado em busca de desafios

Perfil | Produtor cultural na Faced relata o longo caminho que percorreu de Guaíba até o doutorado em Comunicação, sempre atento à questão das relações étnico-raciais

*Foto: Marcelo Pires/JU

Sentado junto à ponta de uma longa mesa numa sala situada no nono andar da Faculdade de Educação (Faced), escuto atentamente enquanto Wagner Machado vai traçando por caminhos erráticos os percursos de sua vida. Me limito a breves intervenções enquanto ele costura associações livremente. Vez por outra, despontam insights desconhecidos para ele mesmo, e é como se a cadeira em que está recostado fosse se alongando até o formato de um divã.

Em mais de uma oportunidade se sente transportado para o ambiente da terapia – experiência com a qual se presenteou recentemente ao completar 40 anos. Decidiu, pela primeira vez ir a um psicólogo porque, segundo ele, as pessoas com quem convive que fazem terapia se tornam pessoas melhores. “Espero chegar nesse patamar!”

Essa relativa tranquilidade para se permitir refletir sobre a própria vida vem apenas após se tornar produtor cultural na Faced, cargo que ocupa desde junho de 2016. “Eu sou muito feliz por estar aqui, por não estar no dia a dia de uma redação, como eu trabalhava antes, por ter descanso, por ter estabilidade e estrutura”, desabafa. Antes da UFRGS, trabalhou como jornalista na redação do Correio do Povo, Rádio Guaíba, Zero Hora, O Estado de São Paulo e como assessor de imprensa no Colégio Israelita.

Ele diz que se encantou com o ambiente na faculdade e não se vê em outro lugar na UFRGS, porque tem autonomia e liberdade, é reconhecido e valorizado e tem uma boa equipe. 

“Aqui na Faced, a gente construiu uma história de valorização, nos consultam, a gente também opina, decide, e o nosso saber técnico é muito reconhecido”

Wagner Machado

O ingresso na carreira pública contribuiu, de acordo com Wagner, para a tranquilidade e um ganho de autoestima que colaboraram para o ingresso, ainda em 2016, no mestrado em Comunicação na PUCRS após inúmeras tentativas.

Caminho para o ensino superior

Também de percurso longo foi sua chegada na graduação em Jornalismo, tempo em que se opera a descoberta da questão das relações étnico-raciais. Isso foi aos 23 anos, quando ingressou na PUCRS por meio do ProUni.

Quando terminou o ensino médio não estava no horizonte ir para a universidade em Porto Alegre, ainda que tenha feito um vestibular para Ciências Sociais. Na Escola Gomes Jardim, em Guaíba, onde estudava, não se falava dessa possibilidade. “Ou meu olhar não estava para isso. Eu já trabalhava”, observa.

Seu primeiro emprego de carteira assinada foi na escola onde estudava, no xerox. Ao concluir o ensino médio, ingressou no técnico em Administração “para continuar estudando, porque era uma forma de manter o vínculo – não sei exatamente porque eu fazia”. Como já trabalhava na escola, só ficava para as aulas no turno da noite, mas não gostava.

Posteriormente trabalhou como fotocopiador na empresa Thyssen-Krupp elevadores. Na época passava no cinema O homem que copiava. “Eu me identificava muito, porque ele fazia fotocópia e era em Porto Alegre”, relata. Não por acaso, anos mais tarde, o objeto de estudo da dissertação foi um programa televisivo de Lázaro Ramos, o protagonista no longa de Jorge Furtado.

O trabalho seguinte foi numa empresa em Porto Alegre, onde a maioria dos funcionários era de engenheiros. A convivência com essas pessoas – que carregavam experiências e aspirações diferentes das que encontrava no bairro em que morava – tornou-se um grande motivador para fazer uma faculdade.

No grupo de jovens da igreja católica que frequentava, tinha uma amiga que havia cursado um técnico em Publicidade em Porto Alegre. “Ela falou que as inscrições estavam abertas. Eu me inscrevi, passei e gostei.” Trabalhava de dia e estudava de noite. Lá teve uma professora, a Claudinha, que havia se formado na PUCRS – “Ela falava com uma paixão sobre a Famecos!” Por ironia do destino, anos mais tarde foi sua colega durante o mestrado.

Apesar de ter entrado em seu radar, a Famecos ainda era inacessível a ele. Alternativamente, inscreveu-se numa disciplina na Unisinos na esperança de se aproximar e conseguir uma bolsa filantropia. 

Em 2004 fez o Enem e concorreu ao ProUni. A essa altura, já vinha trabalhando na Gazeta Centro-Sul, de Guaíba, às sextas à noite, como estagiário na editoria de polícia. Além disso, era estagiário na área de Comunicação da Secretaria Estadual da Fazenda, todas as manhãs. “Era o máximo, porque eu trabalhava no meio dos grandões e tinha coletiva de imprensa toda vez que saía o calendário do IPVA. Iam lá o Jonas Campos e um monte de gente famosa. Eu gostava daquilo!”

Quando começaram as aulas na PUC, que eram no turno da manhã, foi trabalhar na Secretaria Municipal de Educação, à tarde.

“Eu fui lá, comecei a fazer faculdade e desde o primeiro dia amei fazer Jornalismo, porque tinha um professor que falava, todo mundo falava: ‘Ah, é a melhor profissão do mundo, é linda’ – mas ninguém falava do salário…”

Wagner Machado

Wagner foi a primeira pessoa da família a se formar no nível superior. A mãe e o pai têm o fundamental. As irmãs não chegaram a concluir o ensino médio.

Wagner no prédio da Faculdade de Educação (Faced), onde é servidor desde 2016 (Foto: Marcelo Pires/JU)
Dilema da saída

“Ao sair da bolha, tive mais oportunidades”, constata. Ele acredita que se tivesse ficado restrito ao ambiente das relações que tinha em Guaíba – “E não tá errado quem opta por ficar nessa mesma realidade”, ressalva – limitaria seu olhar para o mundo e não teria trilhado os caminhos que se abriram. “Claro que tem o efeito contrário também: tu sai, não quer voltar e não reconhece as raízes. Espero que eu não seja essa pessoa!”

“Permanecer é ficar sujeito ao ciclo que se fecha em si mesmo. Abrir mão disso, por mais doloroso que seja, permite ir além e buscar outros caminhos. Salvo engano, não conheço alguma pessoa que tenha conseguido caminhar para frente e puxar os seus. Não me vejo voltando para Guaíba, mas queria que minha família viesse comigo. Só que isso não acontece”

Wagner Machado

Ao mesmo tempo, a saída e ascensão levam ao choque com uma sociedade em que sua racialidade não se vê representada. Vão se acumulando camadas de sofrimento em que o racismo representa uma fatia ampla. Em seu círculo de amigos hoje há poucas pessoas negras. Na trajetória universitária não teve nenhum professor negro – no máximo chegou a ter aulas ministradas por uma pós-doutoranda negra. “Essa ausência me incomodava bastante, porque é isto: um sentimento de identificação, de pertencimento, de representatividade”, assegura.

O processo de tornar-se negro se intensifica com a entrada na faculdade e o olhar do segurança do câmpus que o segue. “E aí tu começa a perceber que tem algo diferente; eu talvez já soubesse, mas não tinha associado ou feito a conexão de que tinha algo maior do que eu imaginava, tanto que, dos 60 alunos que se formaram comigo em Jornalismo, quatro eram pessoas negras”, aponta.

Em relação à maioria dos colegas, sentia um contraste muito grande. Eles tinham uma estrutura garantida, podiam facilmente viajar. Já Wagner estava sempre saindo para o trabalho – na Smed à tarde e no jornal O Sul, de noite – e se sentia cansado. “O slogan da PUC era Viva esse mundo, mas eu não conseguia viver esse mundo, porque eu tava sempre correndo.” Vivenciar a universidade, usufruir mesmo, só foi acontecer recentemente no doutorado.

Na tese, fez um levantamento sobre a presença dos negros na pós-graduação em Comunicação na PUCRS, na Unisinos, na UFSM e na UFRGS. Entre os professores, havia só dois. Acredita muito na importância de haver pessoas pretas e pardas em lugares de poder, para que mudanças ocorram. “Elas não ocorrem por vontade própria, mas por tensões.”

Crê nisso a tal ponto que recentemente passou a desejar a docência como perspectiva de carreira, para ser mais um professor negro e inspirar outros a segui-lo.

“Eu queria ser professor de iniciativa privada para conciliar como técnico, porque eu gosto do que eu faço, eu consigo ter liberdade, só que aí, como eu gosto de sair da zona do conforto, eu já almejo ser professor numa universidade pública, porque eu acho que falta algo ainda pra eu galgar, e eu gosto dessa relação com o aluno e de me colocar em desafio”

Wagner Machado

Foi um desejo um tanto súbito, assim como se operou em relação à paternidade. Até os 35 anos não queria ter filhos, não tinha interesse nenhum em ser pai. “Já me relacionava com a minha esposa havia 15 anos, mas não era um desejo meu, só que aí a vida mudou, não sei justificar. E agora não me vejo não sendo pai, não consigo ver minha vida sem a minha filha, a Laís, porque é um sentimento que a gente não consegue nomear, mas que me completa. Acho que na profissão, eu sou feliz no que eu faço, mas eu quero já outro degrau, quero algo mais”, conclui.