Ciências Agrárias | Gustavo Pesini, João Pedro Moro Flores e Tales Tiecher analisam o impacto ambiental e as vantagens da pecuária nos campos nativos, bioma típico do sul do Brasil
*Por Gustavo Pesini, João Pedro Moro Flores e Tales Tiecher
*Foto: Marcelo Pires/JU
Nesta edição, o JU apresenta uma série de artigos com relatos de pesquisas premiadas no último Salão de Iniciação Científica (SIC). Dessa forma, destacamos a pluralidade do conhecimento produzido na Universidade e a importância da formação de jovens pesquisadores para o desenvolvimento e a qualificação da ciência brasileira. Clique aqui para acessar todos os artigos.
O bioma Pampa se estende por mais de 750 mil quilômetros quadrados, abrangendo partes do Uruguai, da Argentina, do Paraguai e do sul do Brasil. Esse ecossistema, também conhecido como campos nativos, ocupa 13,7 milhões de hectares, o que representa 2% do território brasileiro. A região do Pampa é única em termos de biodiversidade, contendo cerca de 2.200 espécies de plantas temperadas e subtropicais que são exclusivas desse local. Nesse cenário, diferentes espécies da flora se relacionam de maneira complexa com diferentes classes de solo, resultando em diferentes fitofisionomias de pastagens nativas.
Vários estudos mostram que pastagens nativas do bioma Pampa asseguram serviços ambientais importantes, como a conservação dos recursos hídricos e a disponibilidade de polinizadores e de recursos genéticos. Além disso, se caracteriza por ser um dos únicos biomas brasileiros que permite conciliar produtividade pecuária com preservação da vegetação nativa e com grande potencial de sequestro de carbono.
A produção pecuária tradicional predomina nesses ambientes, que por mais de 300 anos se sustentam com o uso insignificante de entradas externas de insumos (ex.: fertilizantes, calcários). Essa forma de manejo tradicional, sem o aporte de tecnologias e insumos no sistema de produção, afeta negativamente a produção animal ao longo do tempo. Esse é um dos principais motivos pelos quais a área de pastagens naturais do sul do Brasil tem sofrido drástica redução desde os anos 1970, dando espaço a atividades momentaneamente mais rentáveis, como lavouras de grãos, pastagens cultivadas e florestas plantadas.
A justificativa da conversão de sistemas naturais para outras formas de produção é puramente econômica. Nos últimos anos, a pecuária tradicional tem gerado uma receita líquida de aproximadamente 500 reais por hectare por ano, enquanto o cultivo de soja pode entregar cerca de 4 mil reais por hectare/ano. Nesse cenário, a pecuária tradicional em regime extensivo de produção com base em pastagem nativa não consegue competir financeiramente com as atividades agrícolas que empregam maior tecnologia e escala de produção.
Para evitar a degradação do ecossistema, existem alternativas para aumentar a produção pecuária, preservando a base forrageira de pastagens naturais. Destaca-se a intensificação sustentável do sistema de produção, visando aumentar a produção pecuária e preservar o bioma. Isso é possível por meio da adoção de estratégias de manejo, como a fertilização e a sobressemeadura de pastagens naturais, que permitem manter as espécies nativas do bioma e apresentam resultados econômicos semelhantes ou superiores aos dos cultivos anuais.
Nesse contexto, o Interdisciplinary Research Group on Environmental Biogeochemistry (IRGEB-UFRGS), do Departamento de Solos da Faculdade de Agronomia da UFRGS, juntamente com o Programa de Pós-graduação em Ciência do Solo, tem estudado estratégias de manejo de pastagens nativas que incrementam a produção de forragem e os estoques de carbono e nitrogênio no solo, temas importantes em um cenário de mudanças climáticas globais. Esse estudo está em andamento e será parte de uma tese de doutorado iniciada em 2021.
Nossos resultados demonstram que a utilização dessas práticas aumenta a produção de forragem, independentemente do tempo de adoção, que nos locais estudados variou de 2 a 14 anos. Isso, além de ser economicamente benéfico aos produtores, visto que a maior capacidade de suporte animal também permite um maior sequestro de carbono atmosférico, contribui positivamente para amenizar os impactos das mudanças climáticas globais.
Observamos um maior estoque de carbono e nitrogênio no solo em ambientes que foram fertilizados e sobressemeados quando comparados a ambientes sem essas práticas. Maiores quantidades de carbono no solo melhoram suas propriedades químicas, físicas e biológicas, aumentando sua qualidade e resiliência, fatores fundamentais para a promoção de uma pecuária mais sustentável.
O próximo passo da pesquisa é avaliar o efeito da fertilização e sobressemeadura de espécies sobre a composição botânica e as propriedades químicas do solo.
Por fim, os autores deixam seus sinceros agradecimentos à UFRGS, às agências de fomento CNPq e Capes e a todos os colaboradores do trabalho.
Gustavo Pesini é graduando em Agronomia e bolsista de Iniciação Científica vinculado ao Departamento de Solos.
João Pedro Moro Flores é engenheiro agrônomo, mestre e doutorando no PPG em Ciência do Solo.
Tales Tiecher é professor do Departamento de Solos da Faculdade de Agronomia e coordenador do PPG em Ciência do Solo.

Ensaio
As imagens dos artigos desta edição compõem o ensaio fotográfico Entrelinhas, produzido por Marcelo Pires, estudante de Jornalismo da UFRGS e bolsista de Fotografia do JU. Confira o ensaio completo.
“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”
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