A UFRGS, o PROF-FILO e a Educação Básica

Artigo | Estudante do Mestrado Profissional em Filosofia, Jaques Guimarães Schaefer apresenta o desenvolvimento do programa e relata sua participação no curso

*Por Jaques Guimarães Schaefer
*Ilustração: Maria Eduarda Pacheco Fernandes/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Em 2015, nasceram os primeiros núcleos do Mestrado Profissional em Filosofia no país, chamados de PROF-FILO. Isso aconteceu, inicialmente, na Universidade Federal do Paraná. Enquanto muitas pós-graduações de outros cursos de humanidades ainda construíam suas propostas de mestrados profissionais para apresentação ao governo federal de então, a Filosofia se antecipou e produziu a sua proposta. Depois disso, vários núcleos do PROF-FILO começaram a aparecer em outras universidades do país, chegando à UFRGS no início de 2023.

A iniciativa aqui no Rio Grande do Sul veio na esteira de uma reformulação da Licenciatura em Filosofia. Anteriormente, a graduação em Filosofia admitia um único ingresso via vestibular e se dividia em duas ênfases: o Bacharelado e a Licenciatura. A opção pela Licenciatura se dava após a metade do curso, quando o aluno e a aluna cursariam, então, algumas poucas disciplinas pedagógicas na Faculdade de Educação, ligadas diretamente à prática de ensino de Filosofia. A partir de 2010, a Licenciatura em Filosofia passou a ser feita em um curso separado do Bacharelado. Então o aluno e a aluna deveriam optar, já ao fazer o vestibular, pela Licenciatura como um curso completo e independente. Além disso, uma mudança curricular em 2019 criou uma série de disciplinas ligadas diretamente à didática da Filosofia, dando maior atenção aos desafios e necessidades que fazem parte da docência na área.

O Mestrado Profissional em Filosofia na UFRGS aparece dentro desse contexto institucional e acaba fazendo parte de um momento em que se parece buscar uma maior valorização da Educação Básica no nosso país. Voltado a professores e professoras que atuam com Filosofia em escolas do setor privado e público da Educação Básica, profissionais que trabalham com crianças, adolescentes e jovens, este mestrado torna-se mais uma maneira de investir na Educação Básica, abrindo perspectivas para que esses professores e professoras deem continuidade a seus estudos e pesquisas, potencializando e ressignificando seus aprendizados e experiências em sala de aula, dentro de suas práxis pedagógicas e dentro de suas atividades constantes enquanto educadores e educadoras.

Ao nos inscrevermos no PROF-FILO, meus colegas e eu, também professores, tínhamos as melhores expectativas e concordávamos que era extraordinário poder prosseguir nossos estudos, buscando uma qualificação a mais em nossas vivências e em nossas aulas. 

Então, em cada disciplina que cursamos, vimos como que entrarem nas nossas salas, trazidos pelos professores do mestrado, como revividos em seus pensamentos, filósofos e educadores da História do Ensino de Filosofia no Brasil, junto com outros professores atuais que falavam sobre o filosofar e seu ensino. Vimos Paulo Arantes, da USP, no seu livro Um departamento Francês de Ultramar, falar-nos da importância de um estudo estrutural dos textos, ao mesmo tempo que depois admitia que o Filosofar era mais importante do que a História da Filosofia e que isso deveria ser feito no ensino das Universidades de todo o país.

Vimos Deleuze e Guattari ao lado de Silvio Gallo trazerem uma proposta didática para a Filosofia no Ensino Médio; surpreendemo-nos com pensadores de grande valor como Renato Nogueira e Patrícia Ketzer, brasileiros natos, junto a outros filósofos consagrados e engajados, trabalhando para “mudar o mundo, mudando a educação”, apontando as possibilidades da Filosofia e a importância dessa disciplina para todos os estudantes.

Com esses filósofos, vieram junto pedagogos como Anísio Teixeira e Paulo Freire, entre outros. Em cada aula, em cada estudo, colocávamos a eles nossas dificuldades, nossas dores, nossas dúvidas; desnudamos nossas práticas pedagógicas, nós, professores efetivos de escolas básicas, e eles como que nos aconselhavam com o que sabiam, com suas ideias e seus apontamentos, sussurravam-nos “pedagogias da esperança” transformadoras, trazidas, discutidas e investigadas em conjunto, todas elas, por nossos professores da UFRGS atuais, em nossos estudos semanais. 

Dada essa intensa vivência de estudo e prática pedagógica concomitante, ficou claro para todos nós, estudantes do curso, que investir na Educação Básica é investir também numa transformação efetiva em nosso país, é investir na mudança semeada em nossas crianças, adolescentes e jovens; é investir também em um novo capítulo para o ensino de Filosofia no Brasil. 

No dizer de Eduardo Barra, coordenador nacional do PROF-FILO, devemos não só buscar que a “Filosofia esteja na escola”, mas também procurar encontrar a “escola na Filosofia”, onde professores e professoras da escola básica possam participar do processo de construção dialógica de conhecimentos como protagonistas, como intelectuais engajados e cotransformadores da sociedade, junto a seus estudantes da escola básica. 

Em um relatório recente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), o Brasil está entre os três últimos colocados no que diz respeito aos investimentos feitos em Educação Básica, na frente apenas do México e da África do Sul, gastando um terço do que a média dos países investe por estudante anualmente. É certo que os mestrados profissionais são também uma forma de investir na Educação Básica, pois seus programas, como vimos, são voltados para professoras e professores que trabalham nesse nível escolar. 

Atualmente, considerando as guerras que assolam o mundo, lembramos de Gerson A. Gastaldi, em seu livro Cascata de versos, no fim de seu poema “Não precisamos de armas”: 

O mundo não precisa de loucos,
que só tramam insanidade brutal
para incitar o ódio e a dissolução.

O mundo precisa, sim, de doutos,
que nos reflitam sua luz e razão,
para que vivamos a paz mundial!

No IV Encontro Nacional do Mestrado Profissional em Filosofia (IV ENPROF-FILO-2023), que aconteceu em agosto deste ano, em Campo Grande/MT, com a presença dos representantes discentes, coordenadores e docentes de cada núcleo do PROF-FILO no Brasil, tivemos a presença de Suzana dos Santos Gomes, atual diretora de Educação a Distância da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que demonstrou clara intenção e compromisso em expandir a concessão de bolsas de estudo a professores da Educação Básica cursistas dos Mestrados Profissionais. Além disso, apoiou as iniciativas que pretendem desenvolver novos cursos não só do Mestrado Profissional, mas também do Doutorado Profissional em Filosofia e em outras áreas.

Todas essas iniciativas e investimentos são características de um governo que parece buscar reverter a condição infeliz em que outros projetos políticos reacionários acabaram por colocar a Educação Básica e o Ensino de Filosofia. Todas essas propostas são uma clara tentativa de retomar o tempo perdido em busca de novos tempos.


Jaques Guimarães Schaefer é professor de Filosofia do município de Porto Alegre e mestrando do PROF-FILO, núcleo UFRGS.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”