Artigo | Kelvin dos Santos Menezes de Oliveira e Tânia Marques Strohaecker, da Geografia, analisam os impactos da valorização imobiliária na região, verificando deterioração de bens materiais e intervenção do setor privado
*Por Kelvin dos Santos Menezes de Oliveira e Tânia Marques Strohaecker
*Ilustração: Maria Eduarda Pacheco Fernandes/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
O bairro Floresta faz parte da antiga zona industrial de Porto Alegre, conhecida como 4.° Distrito, juntamente com os bairros São João, São Geraldo, Navegantes e Humaitá. Este artigo destaca os resultados do TCC de Bacharelado em Geografia que examinou a dinâmica urbana e o patrimônio cultural do bairro, utilizando técnicas avançadas de geoprocessamento e observação direta. O recorte temporal compreendeu o levantamento de imagens de satélite de alta resolução no período de 2002 a 2022, a análise da legislação urbanística de Porto Alegre e dos programas de reestruturação do 4.° Distrito, além de observações in loco feitas pelo pesquisador.
O estudo investigou os impactos da valorização imobiliária no bairro Floresta, concentrando-se na análise de possíveis indícios do processo de gentrificação e na perda do patrimônio cultural. O bairro apresenta uma paisagem diversificada, resultante de usos pretéritos, como o residencial, o industrial, o comercial e o de serviços, com notáveis mudanças ao longo dos anos. Diante dessas transformações, é crucial compreender a interação entre a valorização do solo, a preservação patrimonial e a dinâmica urbana, fornecendo subsídios para a gestão municipal.
Com o intuito de atingir os objetivos propostos, adotou-se uma abordagem metodológica abrangente, a partir de uma revisão bibliográfica, explorando conceitos relacionados à gentrificação, à valorização imobiliária e à preservação do patrimônio histórico. Em seguida, foram utilizadas técnicas de análise de dados, como a espacialização da Planta Geral de Valores (PGV), o mapeamento dos bens tombados e inventariados, além da análise da dinâmica dos empreendimentos implantados. A coleta de dados envolveu a compilação de informações históricas, dados imobiliários e registros sobre intervenções urbanas. A espacialização da PGV permitiu uma compreensão visual da distribuição da valorização do solo, enquanto o mapeamento dos bens tombados e inventariados contribuiu para identificar as áreas de relevância patrimonial.
Após uma criteriosa análise espacial dos impactos da valorização imobiliária no bairro Floresta, observou-se uma notável deterioração de bens materiais, demolições para dar lugar a novos empreendimentos e uma marcante intervenção do setor privado. A dinâmica urbana da região foi fortemente influenciada por esses fatores, resultando em uma coexistência complexa entre bens patrimoniais e edificações recentes.
A pesquisa também explorou a dinâmica dos empreendimentos implantados, identificando mudanças na malha urbana durante o período investigado. A interação entre valorização do solo, preservação patrimonial e dinâmica urbana foi evidenciada, apresentando desafios complexos para a mitigação dos impactos da valorização imobiliária.
O bairro Floresta tornou-se alvo do mercado imobiliário nas últimas duas décadas, com impactos significativos na dinâmica socioespacial e cultural. A análise revelou como incentivos fiscais e tributários concedidos pelo poder público municipal ao longo de várias gestões promoveu a valorização imobiliária, evidenciada pela substituição de edificações antigas por novos empreendimentos.
O estudo indicou um processo de gentrificação em andamento no bairro Floresta, destacando a urgência de repensar abordagens em relação à preservação do patrimônio histórico e cultural, reforçando a necessidade de ações coordenadas diante das transformações observadas, lançando um apelo à responsabilidade coletiva. O principal desafio é repensar a relação com o espaço urbano e propor instrumentos para equilibrar o desenvolvimento urbano com a preservação do legado cultural. A sustentabilidade cultural, como compromisso ético, é apresentada como essencial para conectar passado, presente e futuro, promovendo ações dos setores público e privado que considerem também os interesses da comunidade e a identidade do bairro Floresta.
Kelvin dos Santos Menezes de Oliveira é graduando do Bacharelado em Geografia da UFRGS.
Tânia Marques Strohaecker é professora do Departamento de Geografia.
“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”





