Perfil | Diretor aposentado do Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da UFRGS relata sua história de luta pela valorização das práticas extensionistas na Universidade
*Foto: Arquivo pessoal
Ao chegar ao Bar do Antônio, no câmpus central da UFRGS, Edni Oscar Schroeder se surpreende. Aposentado da carreira na Universidade desde 1998, o lugar que foi palco de incontáveis reuniões e pausas rápidas para um café não lhe é mais familiar. “Mudou muito isso aqui”, avalia. “Tá bem sofisticado.”
A transformação da lanchonete famosa entre os frequentadores do câmpus, no entanto, não foi a única que Edni testemunhou de perto desde sua chegada à Universidade, há 50 anos. Graduado em Química após chegar a Porto Alegre vindo de Cachoeira do Sul, onde nasceu e cresceu, a carreira de Edni na UFRGS teve início em 1974, quando foi aprovado em um concurso para ser professor do Instituto de Química (IQ) da Universidade. Seu trabalho na área, entretanto, começou anos antes, logo após a formatura, lecionando para estudantes do ensino básico de escolas públicas e privadas da capital.
Envolvido em movimentos estudantis desde sua graduação, que coincidiu com os anos turbulentos e repressivos da ditadura civil-militar brasileira, a trajetória de Edni na UFRGS se confunde com a história de luta por uma Universidade menos segregada da sociedade externa. Com o tempo, a área da Química, na época focada em melhorias e avanços industriais, começou a parecer-lhe restritiva e alheia aos interesses da comunidade que cerceava a Universidade. “As pesquisas eram voltadas pra polos petroquímicos, pra indústria, e não tinham nada a ver com a realidade da população”, explica.
Por isso, quando foi um dos primeiros professores do Instituto de Química a realizar uma pesquisa de mestrado, este na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, em 1977, Edni optou por um aprofundamento na área da educação, onde consolidou sua afinidade com os assuntos relacionados à pedagogia e à troca de conhecimentos entre academia e sociedade.
Foi ao retornar à UFRGS e ser alocado na Pró-Reitoria de Extensão (Prorext) – após uma passagem de três anos pela direção do Departamento de Consultoria em Registros Discentes (Decordi) – que Edni percebeu que mais pessoas compartilhavam do seu incômodo e sentiam falta do aspecto integrador do ambiente acadêmico, em especial os estudantes. “Muitas pessoas estavam insatisfeitas porque não encontravam um campo pra fazer da universidade um local de interrelação entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento popular”, conta. “A universidade trabalhava muito dentro dela própria.”
E foi essa paixão incorrigível pelo que havia a se aprender e ensinar além dos muros da Universidade a responsável por Edni ser convidado a assumir, em 1992, a direção do Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da UFRGS (DEDS), vinculado à Prorext. Na época, o órgão recém-fundado era chamado apenas de Departamento de Desenvolvimento Social — a parte da educação foi adicionada ao nome por insistência sua. “Nós queríamos discutir questões sociais, mas na perspectiva da educação”, explica. Edni tomou para si o desafio de demonstrar a importância das práticas extensionistas para uma comunidade acadêmica que, à época, desconfiava do valor deste campo do conhecimento.
“Depois que o mestrado e o doutorado começaram a ser mais valorizados, a extensão acabou ficando de lado, porque não valia muito pra ascensão profissional”
Edni Oscar Schroeder
No comando do DEDS, Edni teve a oportunidade de pôr em prática seu modelo ideal de extensão universitária: aquele que visava um trabalho longitudinal com comunidades geograficamente próximas à Universidade. Apesar da incerteza de alguns docentes, sob a liderança de Edni e com a empolgação dos estudantes, o DEDS deu início ao Programa Convivências, que no início pretendia ser uma alternativa própria da UFRGS ao Projeto Rondon, do Governo Federal, que, na percepção do Departamento e dos estudantes, sugeria atividades demasiadamente dirigidas. “O Rondon oferecia um kit estruturado aos estudantes e pedia que eles desenvolvessem trabalhos em uma comunidade a partir daquele kit, mas os alunos não queriam isso”, explica.
Além disso, a curta duração do projeto e o distanciamento geográfico das comunidades atendidas dificultavam a manutenção do trabalho realizado a longo prazo. “Nós queríamos trabalhar com as mesmas comunidades e alunos por uns dois ou três anos”, conta.
Nas primeiras edições do Projeto Convivências, sob a supervisão de Edni, alunos, docentes e técnicos da UFRGS realizaram projetos com comunidades assentadas do interior do Rio Grande do Sul, focando principalmente na otimização da produção de alimentos através da agricultura. Nos anos que se seguiram, considerados por ele o auge do projeto, Edni contabiliza mais de 1.200 pessoas envolvidas na realização do Convivências. “Nós ajudamos comunidades assentadas a trabalhar com a produção de arroz orgânico, milho etc.”, conta. “Eles queriam que nós traduzíssemos o conhecimento da Universidade pra eles. Eles tinham a ideia de que, se a Universidade fazia, devia ser importante”, explica.
“Quem paga a universidade pública é a população. Tem que dar retorno para a população”
Edni Oscar Schroeder
Durante toda sua jornada na Universidade, apesar de seu importante papel em tantos projetos, Edni destaca que nada do que fez foi de sua autoria exclusiva. “O princípio é que a gente não faz nada sozinho. A gente faz junto com outras pessoas que também assumem essa responsabilidade”, afirma. Sua crença se traduz na longevidade do Projeto Convivências, que segue atuando em comunidades urbanas e rurais até hoje sob nova direção.
Além do Convivências, Edni atuou em tantas frentes, dentro e fora da Universidade, que é quase impossível catalogar todas — é difícil identificar a ordem cronológica dos acontecimentos que ele costura como uma colcha de retalhos para ilustrar sua história de dedicação às causas em que acredita. Foi precursor de projetos pedagógicos no ensino de química para alunos do nível básico junto de outros professores do IQ, participou de iniciativas de combate à fome e, após sua aposentadoria da UFRGS, ainda foi secretário interino de Educação do Rio Grande do Sul durante o governo de Olívio Dutra (PT). Nesse meio tempo, foi pai de três filhos e avô de oito netos.
Alguns dos desafios que assumiu deram mais certo que outros, mas todos serviram de aprendizado. Hoje, aos 79 anos, após tanto tempo traduzindo o conhecimento acadêmico e recebendo valiosos saberes populares em troca, reconhece que o tempo é a melhor escola. “Eu aprendi com os fracassos. Eu me vanglorio, às vezes, de ter fracassado em algumas coisas. Muita coisa a gente só aprende com o tempo.”





