Acolhimento | Universidade se mobiliza rapidamente para receber mais de 500 pessoas desabrigadas pelas inundações e coordenar o grande fluxo de voluntários e doações
*Foto: Flávio Dutra/JU
No sábado, 4 de maio, a Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid) da UFRGS teve seu espaço adaptado para receber mais de 500 pessoas desabrigadas em função da tragédia climática que assola a região metropolitana. O avanço das águas na madrugada de sábado foi veloz em Canoas e em importantes avenidas e bairros da zona norte e central de Porto Alegre, como a Avenida Farrapos, além da região das ilhas, que já submergia.
Os trabalhos na Esefid começaram sábado cedo da manhã. Pela tarde, muitas pessoas já circulavam pelo Câmpus Olímpico: voluntários e pessoas em busca de abrigo. A impressão é de que, em momentos assim, primeiro se faz, depois se organiza. É o que a urgência permite.
No final da tarde de domingo, estavam contabilizadas 176 famílias, sendo 404 adultos e 177 crianças, num total de 581 pessoas.
A urgência do presente e a apreensão com o futuro
A tarde era de organização. Na entrada, pessoas que queriam se voluntariar eram dispensadas, o espaço estava com excedente de voluntários naquele momento.
Mariana Xavier realizava a triagem médica das pessoas que chegavam à Esefid em busca de abrigo e comentou: “Vai ser mais difícil depois, quando a ficha dessas pessoas cair”. A professora de Enfermagem, que vestia um jaleco da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), faz uma comparação com o luto: “Quando algum familiar morre, a gente se preocupa em se juntar pra comprar o caixão, organizar o velório… só quando a gente chega em casa, depois de tudo isso, que a ficha cai”.
Força tarefa
Na entrada do câmpus era passada uma lista com o excedente de voluntários para que se colocassem disponíveis no turno da noite e nos próximos dias, quando poderia haver uma queda na força tarefa.
Um casal jovem que mora pela região deixou o nome e o contato, estavam por casa e resolveram se mobilizar. Duas amigas, estudantes da PUCRS, andavam pela cidade em busca de abrigos que precisassem de ajuda com animais de estimação atingidos pela enchente. Uma criança andava pelo bairro de bicicleta com um rádio comunicador em que perguntava aos voluntários da Esefid que tipo de doação estavam precisando e comunicou à mãe e à irmã, que se dirigiram ao câmpus com sapatos infantis.
Fernanda Cabral Pires, que está no grupo que coordena a mobilização, explica que no momento estão com 300 voluntários cadastrados, que se organizam por meio de enquetes para montar a escala de turnos. Egressa da Esefid, ela é moradora da região do Câmpus Olímpico e se engajou desde o início dos trabalhos.
Saúde em tempos de guerra
Igor Malcom tem 23 anos e preside o Diretório Acadêmico da Escola de Enfermagem da UFRGS (DAEE). O estudante entrou em contato pelo sábado de manhã com a professora que coordena o Núcleo em Emergência, Urgência e Trauma (NEUT) a fim de mobilizar um grupo para atendimentos na Esefid.
No sábado era o Hospital de Clínicas que realizava a triagem, mas Igor comenta que a partir de domingo os estudantes da UFRGS assumiriam essa função para além do acolhimento. Os casos mais frequentes observados pelos estudantes eram os psiquiátricos e os de pessoas dependentes de drogas. A principal demanda das crianças era a bronquiolite. A preocupação era de que os casos de dengue, gripe e leptospirose aumentassem. Estavam em uma busca ativa dos doentes crônicos, que não conseguiram trazer suas medicações de casa.
Respiro
No domingo, o cenário do acolhimento ainda era de grandes esforços para mobilizar e organizar a estrutura que foi possível estabelecer. A energia das crianças e dos jovens jogando bola nas quadras e gramados aliviava um pouco a tensão e o ar de cansaço. Para os menores também já estava disponível uma sala com jogos e atividades lúdicas. Cadeiras com braço colocadas em roda tinham papel, tinta e pincéis.
A liberdade de poder circular fora do ginásio onde as famílias estão acomodadas, um espaço cheio de vegetação, e se engajar em brincadeiras visivelmente trazia um alento para quem teve que deixar tudo para trás.
Também garantia um mínimo de alívio a possibilidade de solicitar roupas limpas, toalhas e itens de higiene pessoal para tomar banho, fazer refeições preparadas pela equipe de nutricionistas no Restaurante Universitário, receber curativos e primeiros socorros, além de ter acompanhamento de saúde, tanto física como mental, feito por meio da triagem montada ao lado do ginásio. E quem trouxe seus animais de estimação pôde deixá-los bem atendidos num espaço montado especialmente para isso.





