Artigo | Priscila Bühler e Kelly Lissandra Bruch, do PPG Agronegócios, reforçam o papel da comunidade e das pessoas no processo de recuperação da economia local
*Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU
Falar de empreendedores é falar de pessoas! Porque atrás de cada CNPJ existe um ou vários CPFs reunidos em prol do desenvolvimento, da economia, da geração de emprego, da renda, da vida em sociedade. Pois hoje nossas vidas são em grande parte norteadas pelas trocas que fazemos com as outras pessoas. De trocas de afeto a troca de conhecimento e informação, mas também pelas trocas de bens, serviços e de força de trabalho.
Essa catástrofe climática que o estado do Rio Grande do Sul está vivenciando afetou mais de 463 de 497 municípios, milhões de pessoas e milhares de empresas que foram prejudicadas direta e indiretamente pelas enchentes. Dentre os empresários e empreendedores, muitos perderam tudo ou boa parte de seus negócios, enquanto outros foram afetados indiretamente pela ausência de logística e infraestrutura, comprometendo a cadeia de suprimentos e a continuidade do emprego de muitas pessoas. No meio dessa situação de calamidade aumentou o número de crimes e saques nas empresas alagadas, com prejuízos financeiros.
Apenas no município de Porto Alegre, segundo dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo (SMDET) foram diretamente impactados 45.970 CNPJs em diversos bairros da cidade de Porto Alegre em todos os segmentos. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) contabilizou um prejuízo de mais de R$ 10 bilhões no setor público, privado e de habitação. Os danos humanos resultam em 157 mortos, 88 pessoas desaparecidas e 2,3 milhão de pessoas afetadas.
Alguns incentivos – como prorrogação de prazos de entrega de declarações e pagamentos de tributos – já foram adotados pelos governos estadual e federal e outros ainda serão adotados, mas não são suficientes para reerguer o setor empreendedor. Por isso a pergunta que fica é: o que as pessoas e a sociedade gaúcha podem fazer neste processo de recuperação da economia local?
- Incentivar o retorno às atividades;
- Comprar produtos e contratar serviços locais, valorizando o que é comercializado e produzido na região. Exemplos: Lojas, padarias, salões de beleza, minimercados de bairro, prestadores de serviço do bairro, valorizando o micro e pequeno negócio;
- Divulgar esses serviços e produtos nas redes sociais, criando uma conexão com o mesmo propósito de dar visibilidade aos produtos e serviços gaúchos;
- Comparecer em feiras, festivais, exposições e iniciativas locais;
- Quando as águas baixarem, “turistar” dentro do estado, nas belezas naturais e arquitetônicas, museus, paisagens, na diversidade cultural e nas delícias gastronômicas. Uma diversidade de destinos que gera empregos e promove a cultura local.
Fomentar os produtos e serviços locais é mais do que uma forma de ajudar, é um compromisso social, uma união de esforços entre os consumidores e as empresas para manutenção de emprego, renda e da economia local, incentivando o crescimento das micro, pequenas e médias empresas de cada região. É ainda uma oportunidade de construir uma identidade cultural e territorial dentro da comunidade, fortalecendo o senso de pertencimento e de coletividade.
Além do desenvolvimento da economia, é uma forma de promover práticas sustentáveis, menor emissão de gases de efeito estufa, como o gás carbônico (CO2), decorrente do transporte de mercadorias, produção de menos lixo, diminuindo o desperdício e promovendo um menor impacto ambiental. Como visto, valorizar a produção e serviços locais apresenta benefícios sociais, ambientais e econômicos.
Chegou o momento de a sociedade dar as mãos aos empreendedores locais e valorizar os produtos e serviços que geram tributos, emprego e renda para as localidades atingida pelas cheias. É hora de a economia local circular dentro da cidade e do estado como uma forma de investir no futuro para que as pessoas que vivem no município e no estado possam se reerguer e prosperar. Empreendedorismo não são apenas CNPJs. Empreender é sobre pessoas e sobre comunidade.
Priscila Bühler é doutoranda e mestra em Agonegócios pelo CEPAN/UFRGS. Chefe de Gabinete da JucisRS. Especialista em Direito de Empresa, em Direito Tributário e em Direito e Agronegócio.
Kelly Lissandra Bruch é doutora em Direito pela UFRGS/Université Rennes I, France, com estágio pós doutoral em Agronegócios no CEPAN/UFRGS. Mestra em Agronegócios pelo CEPAN UFRGS. Professora adjunta do Departamento de Direito Econômico e do Trabalho da Faculdade de Direito da UFRGS. Professora do quadro permanecente do PPG (Mestrado e Doutorado) do CEPAN/UFRGS.
“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”





