Artigo | Nathan Weiler Nunes e Mario Leal Lahorgue, da Geografia, apresentam um manifesto que defende como indispensáveis, nos processos de retomada do estado, profissionais que garantam um olhar sistêmico e integrado
*Por Nathan Weiler Nunes e Mario Leal Lahorgue
*Ilustração: Mariana Lemmertz/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Antes de tudo, cabe prestarmos aqui nossa solidariedade a todos os cidadãos gaúchos que foram atingidos direta ou indiretamente pela crise que vivenciamos. Haverá daqui em diante um antes e um depois do mais grave evento climático em nosso estado até agora. A tragédia que presenciamos com as enchentes no Rio Grande do Sul é um momento de ruptura. Conforme o nível da água baixa em diversas localidades, muitos se deparam com os escombros do que restou e mais ainda se perguntam sobre como será a vida daqui em diante.
Infelizmente, o que já sabemos é que esse não será um evento isolado. É chegada a hora de encarar a realidade que os pesquisadores – nossos e de todo o mundo – já alertam há anos: não estamos preparados para os efeitos catastróficos das mudanças climáticas. Considerando que tais fenômenos se tornarão cada vez mais frequentes, temos agora uma oportunidade para pensarmos e planejarmos um futuro mais justo, social e ambientalmente adequado para todos. O Rio Grande do Sul, depois da enchente, jamais será igual ao anterior, e não o pode ser.
O momento de reconstrução que se aproxima requer a solidariedade de todos, mas urgem também profissionais capacitados para atuar de forma multidisciplinar nos projetos que virão a seguir, como os bacharéis em Geografia. Não bastará um olhar isolado, que analise apenas os impactos sociais, apenas os impactos ambientais ou apenas os impactos econômicos. Será necessário um olhar sistêmico, integrado, capaz de entender as dinâmicas territoriais com um olhar atento ao funcionamento do clima, dos cursos d’água, da população, da economia, da geomorfologia, em suma, da Geografia de todas as regiões afetadas.
Nesse sentido, mais do que nunca, é hora de prezar pela segurança e pela vida das pessoas, bem como das gerações futuras.
O que o Rio Grande do Sul precisa não são soluções mirabolantes, mas planos de prevenção a desastres, estudos de impacto ambiental, planejamento urbano e territorial efetivos, mapeamento preciso e ações organizadas. Na união das ferramentas proporcionadas pelas Geociências com a compreensão das dinâmicas socioeconômicas, está a importância do bacharel Geógrafo enquanto profissional.
Isso, aliás, está refletido na Lei 6.664/1979, que disciplina a profissão de Geógrafo e que infelizmente muitos ainda desconhecem. Algumas atividades e funções que aparecem no Art. 3.º da lei, sobre a competência do Geógrafo, serão extremamente necessárias no período de reconstrução do estado:
- o equacionamento e a solução, em escala nacional, regional ou local, de problemas atinentes aos recursos naturais do país;
- a interpretação das condições hidrológicas das bacias fluviais;
- a política de povoamento, migração interna, imigração e colonização de regiões novas ou de revalorização de regiões de velho povoamento;
- o aproveitamento, o desenvolvimento e a preservação de recursos naturais;
- o levantamento e o mapeamento destinados à solução de problemas regionais.
A pergunta que está posta para respondermos é ‘qual Rio Grande do Sul queremos a partir de agora?’. Mais uma vez, reafirmamos que o estado a ser reconstruído não poderá ser igual ao anterior, precisaremos repensar nosso território e criar novos espaços capazes de enfrentar as crises climáticas. Para isso, certamente serão necessários profissionais de diversas áreas em constante comunicação, que equacionem diferentes conhecimentos em prol de um projeto comum – em novas secretarias, contratações emergenciais, parcerias público-privadas ou outras ações do Estado, o bacharel geógrafo deve estar nessas equipes.
Para a preparação, mitigação e construção de alternativas aos urgentes problemas que estamos enfrentando, será absolutamente necessária a reconstrução do papel do Estado como condutor de programas para o enfrentamento dos novos desafios. Da mesma forma, é absolutamente urgente apostar na educação e na formação de professores, como os de Geografia, que são plenamente capacitados para que as crianças e a sociedade como um todo entendam, reflitam e possam agir de acordo com o conturbado mundo atual.
Temos agora, enquanto gaúchos e gaúchas, a responsabilidade de traçar um novo caminho, um caminho que concilie as ciências da Terra com as ciências Humanas e que permita nos adaptarmos às mudanças impostas pela natureza. Por isso afirmamos: a reconstrução do estado após as enchentes precisa de Geógrafos e precisa da Geografia.
Nathan Weiler Nunes é graduando em Geografia pela UFRGS e atualmente Secretário Financeiro do Diretório Acadêmico da Geografia (DAGE/UFRGS).
Mario Leal Lahorgue é professor no Departamento de Geografia da UFRGS e pesquisador do Observatório das Metrópoles, núcleo Porto Alegre.
“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”





