O tempo da paisagem na fotografia “Gnomes”, de Luiz Carlos Felizardo

Pinacoteca | Marco Antonio Filho reflete sobre a produção contemplativa do fotógrafo porto-alegrense

*Foto: Gnomes,1984 (Luiz Carlos Felizardo)

Se existe um divisor de águas na biografia de Luiz Carlos Felizardo (1949), este, sem dúvida, é o período entre 1984 e 1985. Foi nesse ínterim que, contemplado com a Bolsa Capes/Fullbright, o fotógrafo porto-alegrense morou na cidade de Prescott, na região sudoeste dos Estados Unidos, e lá trabalhou sob a tutela do renomado artista Frederick Sommer (1905-1999).

Felizardo havia começado a fotografar no final da década de 1960, quando cursava Arquitetura na UFRGS. E foi exatamente por conta da fotografia que o jovem estudante abandonou o curso em 1972, transformando o que era uma atividade paralela em ofício de tempo integral. 

Após um período inicial de experimentação com diferentes técnicas e estéticas fotográficas, em meados dos anos 1970 Felizardo já havia estabelecido as bases pelas quais sua fotografia viria a ser reconhecida nas décadas seguintes. A saber: paisagens capturadas em ricas tonalidades de cinza e composições ao mesmo tempo sóbrias e sofisticadas. 

Para tanto, em 1971, o fotógrafo encontrou aquela que seria sua principal ferramenta de trabalho: a câmera de grande formato. Facilmente reconhecível pelo corpo que se estrutura a partir de um fole e por exigir que o fotógrafo cubra a cabeça com um pano para que possa enxergar em detalhes a imagem que se projeta no visor, tal câmera exige um cuidadoso manuseio, fazendo com que o ato fotográfico requeira máxima concentração. Seu porte avantajado, somado ao cuidado e à atenção exigidos pelos controles manuais, fazem com que o uso do tripé, mesmo em condições ideais de luz, seja imprescindível.

Luiz Carlos Felizardo com sua câmera de grande formato 4×5 polegadas, 1987.
Crédito: Funarte

O que pode ser uma adversidade para fotógrafos ansiosos (ou simplesmente para aqueles que trabalham com assuntos dinâmicos) é para Felizardo parte fundamental de seu processo de trabalho. Em vez de serem limitadoras, as exigências do equipamento fazem parte de um procedimento em que o fotógrafo experimenta um diferente tempo de ação, mais lento, menos imediatista: o tempo da paisagem.

Em Prescott, com a liberdade que uma bolsa de estudos oferece, Felizardo pôde aprofundar e aprimorar sua metodologia de trabalho com a câmera de grande formato. A fotografia intitulada Gnomes é ao mesmo tempo resultado e testemunho desse período de imersão na paisagem do sudoeste dos EUA. 

Como o próprio fotógrafo narra em seu livro O percurso de um olhar (2019), Gnomes foi realizada no trajeto que ele fazia diariamente até a casa de Frederick Sommer. Caminhando com sua câmera 4×5 polegadas em um tripé apoiado no ombro, Felizardo só notou a cena após ser interpelado por um dos moradores da região que passava pela pequena estrada. Em seu relato, o artista dá uma pista do que chamou sua atenção: 

“Algumas árvores secas (já era novembro) e outras com milhares de folhinhas cinza delimitando um grupo de rochas que parece distribuído cuidadosamente para formar um desenho complexo em torno de uma forma central, quase humana, destacada pela luz”

Luiz Carlos Felizardo (Porto Alegre, RS, 1949), Gnomes, 1984. 
Fotografia, 33 x 40,5 cm. Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre.
Imagem: Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.

Para um fotógrafo apressado, essa cena seria somente um espaço vazio em que não há nada interessante a ser fotografado. Mas Felizardo nunca foi um fotógrafo em busca de “grandes temas”. Pelo contrário: seu olhar busca contemplar – com um misto de rigor e reverência – as situações mais corriqueiras, por vezes até banais.

Ao priorizar a câmera de grande formato, o artista buscou não apenas um instrumento à altura de sua obstinação técnica, mas também uma forma mais contemplativa de produção – um processo em que as características e limitações próprias do equipamento fazem com que, em certa medida, o tempo da imagem se amalgame com o próprio tempo da paisagem.

Seja em seu período de formação nos EUA ou nas inúmeras incursões realizadas pelo interior do Rio Grande do Sul, Felizardo parece nunca perder de vista a indagação retórica formulada pelo fotógrafo estadunidense Robert Adams no livro Why people photograph (2005): “Como, afinal de contas, podemos olhar uma árvore, uma pedra ou o claro céu do norte se não adotarmos um pouco de seu modo de vida, um pouco do seu tempo?”.

Luiz Carlos Felizardo (Porto Alegre, RS, 1949), Barba-de-pau e bosque, 1987. 
Fotografia, 33 x 40 cm. Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, Porto Alegre.
Imagem: Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.

Marco Antonio Filho é artista visual, professor e pesquisador. Doutor e mestre em Poéticas Visuais pelo PPGAV/UFRGS. Realizou curadoria da exposição Desenho: Fotografias de Luiz Carlos Felizardo (Pinacoteca Ruben Berta, 2023).
Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel.