Pesquisa investiga os impactos do trabalho remoto em servidores da UFRGS no contexto da pandemia

Saúde | Estudo identifica os fatores que atravessaram a experiência dos técnicos da universidade nessa modalidade de trabalho e reforça a importância do apoio da instituição

*Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O trabalho remoto tem ganhado destaque nos últimos anos, tornando-se uma escolha para muitas organizações. Há quem compare os benefícios e entenda que esse modelo é melhor que o presencial. Mas em um contexto de pandemia, em que todos foram levados ao home office de forma repentina e em grande escala, é preciso considerar as necessidades individuais de cada grupo de trabalhadores e, também, a realidade de cada organização.

Com isso em mente, e pensando no impacto do home office na saúde e no trabalho de servidores da UFRGS, Jéferson Silveira desenvolveu sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade.

Apesar de o trabalho remoto oferecer uma série de vantagens para o trabalhador, como flexibilidade e maior qualidade de vida, há outros aspectos a serem levados em consideração. Durante as entrevistas que delinearam sua investigação, Jéferson percebeu que os servidores precisavam de amparo, já que muitos deles não estavam conseguindo conciliar a vida pessoal e profissional no mesmo ambiente. Inicialmente temporário, o trabalho remoto em função da pandemia se estendeu na UFRGS até maio de 2022, trazendo diversos desafios para a saúde física e mental dos técnicos e, ainda, para a própria organização das atividades.

Negligência como justificativa

De acordo com o pesquisador, a ideia para o tema surgiu logo no começo do mestrado, na pandemia, período que transformou o mundo e as rotinas de trabalho de forma significativa. “Eu, como servidor técnico da UFRGS, também experimentei essas mudanças de perto”, relata Jéferson, que atua no Instituto de Psicologia, Serviço Social, Saúde e Comunicação Humana da Universidade. Ele justifica sua escolha de tema ao considerar que os técnicos administrativos são um grupo pouco abordado em pesquisas acadêmicas, sendo “frequentemente negligenciados”.

O pesquisador percebeu uma lacuna na literatura acadêmica quanto aos impactos do trabalho remoto, principalmente nos servidores da educação. Identificou, então, a necessidade de se abordar essa temática, salientando que os técnicos são “a parte essencial do funcionamento das universidades: esses trabalhadores mantêm toda a infraestrutura administrativa e acadêmica”.

Visão abrangente do cotidiano do servidor

Inicialmente, foi realizado um questionário sociodemográfico com o objetivo de reunir informações sobre gênero, formação educacional, nível de classificação do cargo e tempo de contribuição na função, além do tempo de trabalho em home office e questões relacionadas à saúde dos trabalhadores. Foram recolhidas 76 respostas de servidores de diversas cidades do Rio Grande do Sul, incluindo Porto Alegre e a região metropolitana. Segundo Jéferson, esse caminho permitiu “uma visão abrangente dos impactos do trabalho remoto na saúde e na configuração do trabalho desses servidores durante e depois da pandemia”. Posteriormente, os respondentes foram entrevistados sobre temas do seu cotidiano, incluindo aspectos pessoais e organizacionais.

O tempo definido para a investigação não se limitou ao período da pandemia, embora esse tenha sido um ponto central de análise. O estudo também considerou o período posterior ao fim da calamidade pública, decretada pelos órgãos oficiais, a fim de comparar as condições de trabalho pré e pós-crise sanitária. Essa abordagem, afirma Jéferson, permitiu uma compreensão maior das transformações ocorridas e dos desafios enfrentados ao longo do tempo da pandemia até o momento atual.

Amparo da instituição é essencial

Os resultados do estudo mostraram que, enquanto alguns servidores se beneficiaram com a flexibilidade de horário e a redução do estresse e tempo de deslocamento, outros enfrentaram dificuldades significativas, como a falta de limites claros entre trabalho e vida pessoal, o sentimento de isolamento social, o aumento do estresse e ansiedade, o ganho de peso, entre outros.

Nesse aspecto, o pesquisador identificou a necessidade de suporte por parte da universidade, incluindo equipamentos de trabalho adequados, capacitações para gestão do trabalho remoto tanto para as equipes quanto para os gestores e também apoio psicológico para os servidores e servidoras que trabalham nessa modalidade. Para Jéferson, a pesquisa também fornece informações importantes que podem ajudar a criar um ambiente de trabalho mais saudável.

Mesmo que o trabalho remoto em função da pandemia tenha encerrado na UFRGS em 2022, hoje a Universidade possui o Programa de Gestão e Desempenho (PGD), que permite que servidores técnicos desempenhem atividades laborais remotamente. Assim, os resultados da pesquisa de Jéferson podem ser utilizados para promover a saúde e melhores condições de trabalho para os servidores que aderiram ao PGD.

Próximos passos

A dissertação também abre espaço para futuras pesquisas, pensando na ampliação do escopo para diferentes instituições e categorias profissionais e considerando variáveis demográficas como idade e gênero. Jéferson diz que pretende continuar estudando nessa linha de pesquisa no doutorado. Segundo ele, a investigação trouxe múltiplos resultados que merecem um aprofundamento. Uma das ideias é explorar detalhadamente aspectos específicos, como o impacto de longo prazo do home office na saúde mental e física dos servidores após o fim da pandemia, incluindo questões de assédio nessa modalidade.

Outro ponto ainda em aberto é investigar como variáveis demográficas (como idade, gênero e condições socioeconômicas) influenciam a experiência do trabalho remoto. “Além desses aspectos, foi sugerida a expansão da pesquisa para outras áreas relacionadas à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores em diferentes contextos”, relata. Ele defende algumas possibilidades de pesquisa, como a análise do impacto de novas tecnologias no ambiente de trabalho, a investigação de práticas de gestão que promovam a saúde mental e física, e a exploração de políticas de trabalho flexíveis que possam ser adotadas em diferentes setores.

A dissertação está disponível no Lume – Repositório Digital da UFRGS – por enquanto, de maneira parcial, já que parte do conteúdo do trabalho está em vias de publicação em periódicos científicos.