Artigo | Aline de Oliveira Galvan Venceslau e Janice Zarpellon Mazo, do PPG em Ciências do Movimento Humano, narram, na forma de um diálogo, memórias do futebol feminino no interior do RS
*Por Aline de Oliveira Galvan Venceslau e Janice Zarpellon Mazo
*Ilustração: Luísa Guazzelli Sirangelo/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
– A gente se reunia fim da tarde, durante a semana, que era quando a maioria das gurias podia. Às vezes rolava também no sábado ou domingo. Naquele tempo não tinha celular pra combinar, era só no “boca a boca”. Quando a gente se encontrava pelas ruas do bairro, já marcava a hora, e as gurias iam se avisando. Era o auge da nossa semana, o nosso momento. Bah, era bom demais! Futebol de campo, na grama, no salão, na areia, era onde dava, sabe?
– O futebol foi criado no século XVII, na Inglaterra, e é o esporte mais praticado no mundo.
– É, mas na década de 1990, no tempo em que eu jogava com as gurias, o futebol feminino não era muito falado, não!
– O futebol já foi proibido para as mulheres no Brasil por 40 anos, por ser considerado incompatível com as condições da natureza feminina, e apenas em 1979 teve a proibição revogada.
– Sim, sim. A gente ainda sentia na pele o preconceito de quem passava por nós: “vão lavar uma louça”, “perna de pau”, eram coisas que os “boca aberta” diziam sem nem mesmo ver o nosso jogo. A Valdirene, que era meio esquentadinha, às vezes partia pro bate-boca com a gurizada. Mas ninguém ficava muito “atucanada”, não, ignorávamos e focávamos no jogo; a gente gostava muito! Era futebol de várzea, mesmo assim estávamos jogando “tri bem”. Depois de algum tempo, conseguimos inclusive um treinador. O Jairo adorava futebol e quis treinar a gente. Até conseguiu algumas camisetas dos guris emprestadas pra nós. E quando os guris não estavam jogando, também podíamos usar o campo! Jairo confiava e dizia que tínhamos futuro. Depois dos treinos, ficávamos em roda, tomando nosso “chimas” e sonhando… Será que poderíamos ser jogadoras profissionais? Quem sabe um dia estaríamos na seleção brasileira de futebol feminino?!
– A primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino ocorreu oficialmente em 1991 na China.
– Tchê, esse evento foi inspirador pra nós! Sabíamos que jogar em uma copa era um sonho difícil de se realizar, mas nós começamos a competir em pequenos torneios. Íamos de Kombi em várias cidades no Rio Grande do Sul mesmo. Competimos em Canoas, Porto Alegre, Maquiné, Tramandaí, Osório, Capão, Morro Alto, e também aqui mesmo, em Santo Antônio da Patrulha. Depois da Copa de Futebol Feminino, começou uma “febre”, quase todo fim de semana tinha algum torneio. A gente jogava sério, e sempre ansiosas porque nos jogos poderia ter olheiros, vai que nos convidavam pra fazer um “peneirão”? Nas segundas-feiras estavam todas “esgualepadas”, quebradas, engessadas e mancas. Mas sempre valia a pena, ganhamos muitos campeonatos de futebol feminino.
– A premiação no Campeonato de Futebol Brasileiro Feminino em 2024 teve valor recorde, sendo entregue à equipe vencedora o valor de um milhão e meio de reais.
– As nossas premiações não eram em dinheiro não, tchê! A gente ganhava ovos, engradados de cerveja, salame, queijos, galinhas, porco, e uma vez ganhamos até uma ovelha. Tivemos que voltar pra buscar depois da competição porque não coube na Kombi junto com todas as gurias. Nesse dia o radialista nos chamou pra falar na rádio da cidade. Fomos a Sônia e eu – achamos o máximo!
– Desculpe, não posso ajudar, não sei nada sobre isso.
– Bah, Alexa, bem capaz que tu ias saber, mas tá bom, já vi que hoje tu tá de poucas palavras. Outro dia eu te conto um pouco mais sobre as nossas aventuras e do nosso futebol de várzea. Agora toca uma música bem animada enquanto eu faço um chimarrão, que fiquei empolgada ao lembrar dos velhos tempos.
– (…) Tocando “Eu sou do Sul”…
Aline de Oliveira Galvan Venceslau é mestranda do Programa de Pós-graduação em Ciências do Movimento Humano da UFRGS.
Janice Zarpellon Mazo é professora titular da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid) e do Programa de Pós-graduação em Ciências do Movimento Humano da UFRGS.
“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”
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