Artigo | Para Bianca da Silva Doza e Nestor André Kaercher, da Geografia, os percursos que realizamos revelam muito sobre nossa forma de viver e se relacionar com o mundo
*Por Bianca da Silva Doza e Nestor André Kaercher
*Ilustração: Erika Nunes/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Neste artigo, convido o leitor a viajar comigo até a Comunidade Nossa Senhora de Fátima, onde estou desenvolvendo uma pesquisa de mestrado em Geografia. Meu ponto de partida é o Porto Flutuante Marina do Davi, localizado no bairro Ponto Negra, zona oeste de Manaus.

Uma vez no local, aguardo a lancha. Seu ritmo é influenciado pela dinâmica de cheia-vazante do rio, bem como o fluxo de turista. O primeiro se refere à subida do rio entre outubro e março, contrastando com a redução dos níveis das águas entre abril e setembro.
Na cheia, a navegação da lancha é mais rápida. Além do curso principal, é possível pegar atalhos pelos furos sem temer os bancos de areia. O ritmo das viagens, contudo, não é conduzido somente pela natureza, mas também pelos grupos de turistas que buscam contemplá-las.
No segundo caso, um maior fluxo de turistas garante viagens mais frequentes. Essa rapidez diante da demanda do turismo beneficiou-me entre junho e julho. No final de julho e início de agosto, com o rio secando, dei-me conta da demora.
No dia 25 de julho, por exemplo, cheguei ao porto 11h50min com a tranquilidade de quem pegaria a lancha de 12h. Olho para o pequeno quadro branco que informa o horário seguinte: 12:42. Assusto-me com tamanha demora aparentemente misteriosa.
A resposta, no entanto, apareceu aos poucos. Cinco minutos depois de chegar, um grupo de turistas se aproxima e pergunta: “a de meio-dia já saiu?”. Internamente respondo “não!”, mas o automático informa que sim.
Como pode a lancha de 12h sair antes das 11h50min? Um dos passageiros, possivelmente também um turista, explicou o jogo: a lancha sai de 1h em 1h hora, mas, se atingir o limite (entre 49 e 51 passageiros, a depender do modelo), sai antes. Ou seja: a das 12h encheu antes (por volta das 11h40min), e estávamos esperando a das 13h. Como havia entre 15 e 20 pessoas, não seria possível antecipar a partida.
Às 12h32min começamos a embarcar. Dentre os passageiros, é possível observar as diferenças entre turistas e moradores. Os primeiros geralmente mostram parte do traje de banho, levam consigo grandes bolsas de lado, caixa térmica e até aparelhos de som.
Os moradores, por sua vez, carregam diversas sacolas estampadas com as grandes redes de hipermercados da cidade, sacos de juta e caixas de madeira e papelão. Nessas bagagens, levam os mais diversos produtos: flocos de milho (para fazer cuscuz), abacaxi, maxixe, maracujá, cenoura, pepino, tomate, feijão, óleo.
Além dos alimentos, alguns arriscam transportar eletrodomésticos. No dia 30 de julho, um dos passageiros transportou uma televisão de LED cuja dimensão ocupou duas cadeiras da lancha.
Após nos acomodarmos, o barulho do motor e o cheiro de diesel anunciam a partida. O cobrador também inicia seu trabalho, passando nas cadeiras com dinheiro trocado ou o QR Code. Ao fundo, alguém reclamava que a internet estava indo e voltando, uma situação tensa aos que pagam no pix.
O pagamento foi ainda mais confuso para um casal que estava a caminho do Museu do Seringal. Ao serem informados do valor (21 reais), o homem perguntava “é 11 por pessoa? Quanto dá 3?”. “É 21”, anunciava uma voz abafada pelo som do motor. “Uma é 11, mas e três saem quanto?”
Assim ficaram até o passageiro entender que o valor de 21 reais não é para três ou duas pessoas, mas apenas uma, e apenas para ida. Ou seja, para um morador da cidade de Manaus, só o trajeto de lancha para o museu, se feito sozinho, custa 42 reais. Levar a família nem pensar, a menos que o familiar seja um recém-nascido. Isso porque crianças, idosos e estudantes pagam o mesmo valor, conforme as instruções abaixo:

Feito o pagamento, a primeira parada é a Praia da Lua:

Nos primeiros campos, adentrávamos um furo. A partir de julho, porém, esse caminho tornou-se estreito. Devido à redução do nível da água, a lancha navega apenas pelo curso principal. Cerca de 10-15 minutos depois, chegamos à Comunidade Nossa Senhora de Fátima.

Nessa paisagem, quero destacar o Porto Flutuante da Comunidade Nossa Senhora de Fátima:

Nesse local, no dia 25 de julho, estava voltando para casa após uma atividade com os estudantes. Em cerca de 30 minutos de espera, as conversas navegaram por temas diversos, a começar pelo gado.
Na comunidade, afirmaram não dar certo, pois a seca destrói o pasto, e o boi morre de fome. “Tem que plantar cana”, afirmava um idoso com a blusa do David Almeida, naquele momento candidato à reeleição para a prefeitura de Manaus pelo partido Avante.
Em seguida, a conversa se direcionou ao rio. A senhora ao meu lado anunciava sua tristeza devido à seca, relembrando com temor o episódio do ano passado. “Eu achei foi bom, dona Justina”, disse um dos moradores.
Eu olhei para ele incrédula e curiosa. Entretanto, logo me tranquilizei com sua fala seguinte, de uma ironia machadiana que arrancou risos de todos enquanto falava com seriedade e convicção.
“Isso ficou na minha história. Agora, quando eu for velho, eu vou poder falar dessa seca, que aqui [disse ele apontando para o rio] dava para andar de moto. Essas rabetinhas [disse apontando para a canoa motorizada], tinha que descer e empurrar. Foi bom para quem não sabia nadar. Não dava para morrer afogado; atolado dava, mas afogado não.”
Quanta história há nessa geografia do caminho!
Bianca da Silva Doza é mestranda no Programa de Pós-graduação em Geografia (POSGea) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É bolsista pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e está desenvolvendo uma pesquisa de mestrado sobre as escolas ribeirinhas de Manaus. Alguns de seus textos podem ser encontrados em: https://medium.com/@bdoza.
Nestor André Kaercher é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde é professor do Programa de Pós-graduação em Geografia. Tem experiência na área de Geografia, atuando principalmente no ensino, na formação de professores e na prática docente. Seus textos podem ser encontrados no blog: http://geografiadonestor.weebly.com.





