A experiência de recomeçar após as enchentes: pedagogia das águas, escutas e narrativas de estudantes do PPG Educação

Ilustração mostra uma colagem digital. Ao centro, um desenho manual feito em lápis grafite 2B apresenta uma casa de madeira com quatro suportes compridos, uma porta pequena e escura a metade esquerda da casa e duas janelas também pequenas e escuras a metade direita. A esquerda inferior, uma pessoa em amarelo em cima de uma escada de cinco degraus reconstrói um pedaço da casa, encaixando uma peça de quadrado em branco à um buraco no mesmo formato. Na janela mais próxima ao centro da casa há outra pessoa em amarelo carregando um bloco também quadrado. A direita, na parte inferior, outra pessoa amarela reconstrói outro buraco na casa com outro bloco quadrado. Na parte superior direita, no telhado, uma última pessoa amarela utiliza um pano para realizar limpezas. No fundo temos uma fotografia opaca de um céu aberto, azul e repleto de nuvens.

Artigo | Magali Mendes de Menezes, Maria Stephanou e Luciana Gruppelli Loponte, da Faculdade de Educação, refletem sobre o processo de acolhimento realizado junto aos integrantes do PPG

*Por Magali Mendes de Menezes, Maria Stephanou e Luciana Gruppelli Loponte
*Ilustração: Bárbara Lopes Nobre de Souza/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Recomeçar, depois de uma tragédia como a que vivemos em maio de 2024 com as enchentes no Rio Grande do Sul, é movimento sinuoso e complexo. A tragédia não acaba com o fim das chuvas ou com o baixar das águas. Há um tempo mais extenso, que se desdobra com a dor, o medo de uma nova catástrofe a cada chuvarada, os vestígios da destruição, o cheiro que exala nas casas, ruas e bairros inteiros inundados, a tristeza inconsolável diante das perdas materiais, mas também da dissipação das memórias evocadas em objetos perdidos, tudo isso e muito mais continua e continuará repercutindo na vida de muitos e muitas. A experiência dramática da tragédia nos exige perceber o que sobra e o que é possível reconstruir, tendo como princípio o grande ensinamento que o momento nos trouxe: a reconstrução será uma tarefa coletiva.

Muitos e muitas de nós, que fazemos parte da UFRGS, de diferentes formas e distintas intensidades, sofremos os impactos da tragédia. Por vezes, tivemos a possibilidade e acompanhamos, apoiamos ou participamos diretamente de muitas ações de solidariedade, de forma mais ampla, coletiva ou individual, ou como universidade. Paradoxalmente, em meio a tantas impossibilidades e incapacidades de reagir aos colapsos de toda ordem, tivemos a experiência de retomar o próprio sentido de sermos e nos percebermos como uma comunidade, a UFRGS.

O Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEdu), como coletivo, acompanhou desde o primeiro dia os desdobramentos da enchente, articulou redes de informações para apoiar os mais atingidos e prestar-lhes os apoios necessários. Os movimentos de escuta e cuidado estenderam-se ao momento em que o coletivo do Programa sondou as possibilidades para a retomada de suas atividades. Foi preciso pensar e formular recomeços plurais, sensíveis aos desafios até então sem precedentes, como a retomada do Curso para estudantes que perderam suas casas e tudo o mais, ou aqueles/as impossibilitados/as de circular e deslocar-se, atingidos pelos medos, sofrimentos emocionais e ansiedades que paralisavam as vidas. Esses movimentos possibilitaram compreender o sentido da educação, o educativo tecido no cuidado com o outro e consigo. 

Nos primeiros dias de junho, foi instaurado um grupo de trabalho – GT de Propostas para Enfrentamento dos impactos da enchente. O GT, composto de forma paritária (Magali Mendes de Menezes, Maria Stephanou, Máximo Lamela Adó, Luciana Gruppelli Loponte, Ricardo Thofehrn Coelho, Gabriel Tamanchieviz Argenton, Aida Cunha Batista e Edson Mendes), teve o objetivo de realizar um levantamento de dados sobre a situação dos estudantes do PPGEDU em relação à tragédia climática vivida no Rio Grande do Sul e formular propostas à retomada das atividades.

O GT engajou-se em uma busca atenta para que pudesse alcançar, escutar e acolher o maior número possível de estudantes vinculados ao PPGEdu. Foi preciso constituir uma rede de comunicação ativa, e a participação de todos os integrantes do coletivo do Programa foi fundamental: coordenação, orientadores/as, representantes e colegas discentes, grupos de mídias sociais, redes de pesquisa. Em um curto espaço de tempo, pôde computar 231 estudantes respondentes ao instrumento que buscou acolher as narrativas e os sentimentos, listar os impactos e as repercussões, fazer perceber o interesse da universidade pela situação e condição vivida pelos estudantes no contexto da enchente. Em um período de doze dias, 105 mestrandos e 126 doutorandos enviaram suas respostas e reflexões.

As respostas ultrapassaram qualquer caráter burocrático. Muitos/as insistiram em dizer que não existe o “ser afetado/a indiretamente”, não há curva para a dor. A quase impossibilidade de estar indiferente ao sofrimento de tantos e tantas foi expressa em cada resposta.

Assim, as narrativas textuais ou visuais sensibilizaram de tal modo que nos pusemos a sonhar com um re-começo, repleto de reconhecimento, aquele que se funda no conhecer novamente quem são nossos estudantes e como vivem. Reconhecemos, assim, estudantes que vivem em situações dramáticas do ponto vista social, aqueles/as cuja bolsa de estudos (cada vez mais escassa em nosso Programa) foi a única fonte de renda da família durante a enchente. Estudantes ou famílias cujo trabalho precarizado foi suspenso durante a tragédia que atingiu, de forma intensa, a população mais vulnerável.

Também tivemos a oportunidade de reconhecer um grupo muito expressivo de estudantes que se engajaram em ações solidárias diversas (contabilizamos 52 espaços de inserção social e educativa testemunhadas pelos estudantes). As respostas, contudo, apontam que a empatia e o voluntariado diante da dramaticidade do momento não podem substituir o poder público e sua (ir)responsabilidade em cuidar das pessoas e proteger a vida em todas as suas formas.

Não é possível ocupar um lugar de mero espectador diante da paisagem, como se fosse atemporal e etérea. Os estudantes afirmam que os tempos vividos também foram de profundos aprendizados. Foi possível nos conhecermos e nos olharmos de perto. Mas qual é o espaço na Universidade para que um Programa de Pós-graduação em Educação possa construir e partilhar seus aprendizados com a escuta daquilo que atingiu a todos e todas?

A experiência de atenção ao que nossos estudantes têm a dizer sobre o vivido nos mostrou que sem escuta não produziremos novos modos de ser-estar no mundo e na universidade. A pedagogia das águas nos ensinou que se nós, como coletivo, não formos capazes de criar espaços para acolher, cuidar, escutar, continuaremos a normalizar as tragédias e a interromper e retomar nossos calendários como se a vida em suspensão fosse um mero episódio acidental.


Magali Mendes de Menezes é professora da Faculdade de Educação (UFRGS).
Maria Stephanou é professora da Faculdade de Educação (UFRGS).
Luciana Gruppelli Loponte é professora da Faculdade de Educação (UFRGS).