Conjuntura | Para Raquel Recuero, da Comunicação, é preciso mais do que estratégias de checagem para lidar com a desinformação nas plataformas de mídia social
*Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU – 30/10/2022
Nos últimos anos, o Brasil viveu um ambiente político marcado pela circulação intensa de desinformação, especialmente em períodos eleitorais. O tema, já conhecido por pesquisadores e jornalistas, ganha novas camadas quando analisado a partir daquilo que foi objeto de checagem por agências especializadas. Um estudo publicado em 2025 na revista E-Compós, conduzido por Raquel Recuero, Camilla Tavares, Taiane Volcan, Martina Pozzebon e Manoela Dutra, oferece pistas importantes sobre como a desinformação se transformou nas eleições presidenciais de 2018 e 2022.
A pesquisa analisou 811 checagens realizadas por três grandes agências brasileiras ao longo dos dois pleitos. O objetivo era entender quais temas apareceram com maior frequência, que tipos de estratégias foram empregadas para desinformar e quais fontes foram utilizadas para dar aparência de credibilidade às mensagens. Ao investigar esse conjunto, as autoras buscaram responder a uma pergunta central: como a desinformação se adapta diante da existência das próprias agências de checagem?
Há diversos trabalhos que já mostraram que os checadores tendem a buscar desmentir os conteúdos problemáticos que mais repercutem. Nesse contexto, o estudo traz alguns achados importantes. Por exemplo, entre os principais resultados da pesquisa está a mudança no formato das mensagens desinformativas. Em 2018, predominavam conteúdos claramente falsos: invenções sem base em nenhum fato, como denúncias infundadas ou boatos fabricados. Já em 2022, observa-se um deslocamento: as mensagens continuam incorretas, mas adotam formas mais sofisticadas, baseadas em distorções, recortes ou meias-verdades.
Ou seja, em vez de depender apenas de invenções fáceis de refutar, os produtores de conteúdo enganoso passaram a apostar em versões ambíguas, que dificultam a verificação imediata e aumentam as chances de circulação nas plataformas de redes sociais. A desinformação, portanto, adapta-se aos modos de combate.
Outro ponto importante destacado pelo estudo está no uso das fontes de informação. Em 2018, era comum que as mensagens circulassem sem qualquer referência confiável, apoiadas apenas em testemunhos anônimos ou “prints” da internet sem comprovação. Em 2022, o cenário muda: muitas das mensagens analisadas citam fontes reais, como documentos oficiais, falas de autoridades ou reportagens jornalísticas. O detalhe, no entanto, está no modo como essas fontes são empregadas. O estudo mostra que elas frequentemente aparecem de forma manipulada, ou seja, fora de contexto, interpretadas de maneira equivocada ou combinadas a informações falsas. Esse movimento torna a desinformação mais convincente e aumenta o desafio para quem busca desmenti-la.
Os resultados desse estudo indicam que a desinformação não permanece estática. Pelo contrário, ela se adapta às condições do sistema das plataformas, respondendo às tentativas de combate. Assim como vírus que evoluem para escapar de vacinas, as narrativas enganosas se ajustam para driblar a checagem. Se antes bastava criar um boato sensacionalista para alcançar grande repercussão, hoje é necessário construir mensagens mais complexas, capazes de resistir ao escrutínio público.
Essa adaptação mostra a resiliência da desinformação e reforça a necessidade de estratégias igualmente dinâmicas para combatê-la. Do mesmo modo, o estudo ressalta a necessidade de estratégias mais amplas e complexas – e não apenas a checagem como forma única – para lidar com a desinformação nas plataformas de mídia social. Além disso, o artigo também aponta que esses conteúdos problemáticos não são apenas sobre fatos isolados, mas sobre narrativas persistentes, que atravessam os anos. As macroestruturas de desinformação – como a ideia de fraude eleitoral ou a deslegitimação de instituições – continuam a reaparecer, ainda que por histórias diferentes.
Raquel Recuero é professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Letras da UFPEL e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFRGS.
Periodicamente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre economia, política, relações internacionais e outros temas relacionados à conjuntura. A seção tem curadoria de Tatiany Lukrafka.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.





