Bem-estar | A enfermeira Camila Preve reforça a importância das brincadeiras e do lúdico para as vítimas da catástrofe ambiental no RS
*Foto: Jürgen Mayrhofer/Governo do Estado
Em fevereiro de 2024, iniciei um voluntariado em uma ONG de doutores palhaços que atua em instituições de saúde de Porto Alegre e região metropolitana. Na minha mentalidade, sempre tive a ideia de que sou uma pessoa privilegiada. Tenho saúde, uma condição financeira confortável, um teto para chamar de meu e comida na minha mesa todos os dias. E, como sou uma pessoa com privilégios, posso fazer algo por quem não tem a mesma vantagem e qualidade de vida que eu tenho.
Para integrar a ONG e me tornar uma “doutora palhaça”, precisei passar por um treinamento de três meses em que aprendi (entre muitas outras coisas) a arte da palhaçaria, noções de psicologia e controle de infecções, como nos portarmos diante de situações críticas e, principalmente, adentrei numa jornada de autoconhecimento e de resgate da minha criança interior. Apenas após essa preparação, podemos então, dar início a nossas ações nas instituições de saúde. Para Oliveira e Oliveira (2008) “os palhaços atuam como agentes facilitadores, atentando para o fato de que brincadeiras e brinquedos constituem recursos que podem/devem ser utilizados no contexto hospitalar, acarretando novos significados ao cuidar”.
Segundo uma publicação de Ribeiro e Sigaud (1996), “as atividades lúdicas são muito úteis quando é necessário que as crianças interajam com situações adversas. Tais atividades proporcionam o alívio de sensações desagradáveis como tensão, ansiedade, raiva e medo”. Essa definição pode servir para entendermos tanto o trabalho realizados pelos doutores palhaços nos hospitais, quanto pelo trabalho desenvolvido com as vítimas dos desastres climáticos dentro de abrigos e instituições de acolhimento.
Nos últimos dias, temos visto voluntários propondo atividades de entretenimento para crianças e adultos afetados diretamente pelas chuvas e que tiveram que abandonar suas casas. Brincadeiras, jogos, sessões de cinema, teatro e leituras coletivas são algumas das atividades propostas nestes locais de acolhimento de vítimas.
Essas interações são importantes para estabelecer um momento de distração e alívio em meio a uma onda de medo, estresse e preocupações.
A Sociedade Gaúcha de Pediatria lançou durante os primeiros dias da tragédia a campanha “Criança tem que brincar”, com o objetivo de arrecadar brinquedos, reforçando a importância do “brincar” para um desenvolvimento infantil saudável em meio ao caos.
Com isso, o intuito deste artigo é enfatizar a importância das brincadeiras e das atividades lúdicas para pessoas em situações críticas. Seja a hospitalização, seja o desastre climático que estamos vivendo. Sabemos que o momento é periclitante para toda a população do RS e que todos, de alguma forma, fomos atingidos. Mas podemos fazer a nossa parte por aqueles que perderam tudo. Caso não possa ser voluntário, doe brinquedos, jogos, livros para os abrigos que necessitam destes insumos. Afinal, o lúdico, o entretenimento e a brincadeira também são ferramentas necessárias para recomeçar.
Fontes:
Ribeiro MO, Sigaud CHS. Relacionamento e comunicação com a criança e sua família. In: Sigaud CHS, Verissimo MR, organizadores. Enfermagem pediátrica: o cuidado de enfermagem à criança e ao adolescente. São Paulo (SP): EPU; 1996.
Oliveira, R. R. D., & Oliveira, I. C. D. S. (2008). Os doutores da alegria na unidade de internação pediátrica: experiências da equipe de enfermagem. Escola Anna Nery, 12, 230-236.
Camila Piuco Preve é enfermeira, doutoranda do PPG em Ciências Médicas (UFRGS) e membro de uma ONG de doutores palhaços de Porto Alegre/RS.





