A comunidade surda e o uso de Libras limitados às telas

Acessibilidade | Os desafios impostos às pessoas com deficiência auditiva pela pandemia e os entraves para o aprendizado da Língua Brasileira de Sinais por meio de dispositivos digitais

*Foto de capa: Print screen de tela da Escola Frei Pacífico, com Juliane Emmert explicando sobre Porto Alegre

Em época de interações presenciais restritas, a comunicação foi afetada de diversas formas, mesmo com o uso das tecnologias – que não conseguem suprir todas as necessidades impostas pelo isolamento social. Quando se tem a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua, a problemática se torna ainda mais complexa; afinal, até que ponto uma língua que exige o contato visual consegue ser adaptada a um formato em que a visualização só pode ser feita por meio de telas?

Esse questionamento perpassa diversos âmbitos, mas recai principalmente no aprendizado da língua. Para um adulto que deseja aprender Libras ou uma criança surda que cresce em uma família de ouvintes, há diversos impedimentos, que resultam em uma perda linguística. Priscila Bortoletti, professora das séries iniciais na Escola Especial para Surdos Frei Pacífico, em Porto Alegre, comenta que houve grande preocupação por parte da instituição em fazer com que os alunos mantivessem o contato com a Língua de Sinais. 

“As crianças, como estão na aquisição ainda, acabam misturando muito a questão de sinais e tentam oralizar. Eles ficam na agitação de querer comunicar, mas como comunicar se eu estou com uma limitação linguística de aquisição?”, questiona a professora.

Já Bianca Pontin, que é doutora no Programa de Pós-graduação em Educação e leciona Libras para o Ensino Superior, diz sentir falta de ver os alunos, analisar suas expressões e interagir com eles. Nas aulas teóricas, Bianca faz uso de intérprete e, dessa forma, rapidamente pode identificar dúvidas e ter uma troca maior. “Nas aulas práticas, no ensino da língua em si, eu consigo, de forma presencial, ver se a pessoa está sinalizando de forma correta. Eles sinalizam pros colegas e servem de exemplo, então a gente acompanha mais esse desenvolvimento e os acertos e erros em relação à sinalização”, explica Bianca.

No Ensino Remoto Emergencial (ERE), a doutora percebeu que os alunos apresentam resistência a manter suas câmeras ligadas. Isso limita a interação entre os estudantes e também com a professora. Bianca lamenta essa fragilidade de comunicação. Apesar de responder a todas as questões e fazer uso de vídeos ilustrativos, ela não consegue se certificar de que todos estão acompanhando os conteúdos no mesmo passo. “Parece que estou ensinando pro intérprete, porque só nós que estamos ali com as telas abertas. Eu sinto falta desse contato visual com os alunos.”

Perder a interação presencial é, provavelmente, um dos maiores problemas do ensino remoto.

“Para ser fluente em Língua de Sinais, tu precisa ter contato com outros surdos, com a comunidade surda. No momento da pandemia, é mais difícil manter esse contato.”

Bianca Pontin
O isolamento da criança surda

“Muitas famílias”, pontua Bianca, “não têm condições financeiras para acessar internet ou equipamentos necessários. Então, [os alunos surdos] acabam ficando isolados, e é bastante difícil de os professores conseguirem acompanhá-los de forma remota. Porque cada criança tem diferença no seu processo de aquisição da língua, uma vez que existem níveis linguísticos diferentes.”

A realidade do surdo que ainda está no processo de aquisição linguística durante a pandemia se tornou bastante delicada. Priscila conta que se propôs a ser bastante flexível para ajudar os alunos, estar disponível para videochamadas fora do momento de aula e prestar auxílio às famílias, fortalecendo essa comunicação; afinal, estar em constante contato com a família é essencial para o processo. “Quando a gente estava no presencial, sempre quisemos a família dentro da escola. E, de repente, a gente entra pra dentro da casa deles, e eles na nossa. A gente tem que criar alguns vínculos de confiança, que é pra conseguir romper algumas barreiras”, relata.

Juliane Emmert também é professora na escola Frei Pacífico e leciona a disciplina de Libras. Ela pontua que o ensino remoto trouxe prejuízos para o processo de aprendizado da criança surda. Segundo a professora, os alunos não sanam suas dúvidas como costumavam fazer no presencial. “O presencial é aquele olho no olho que não se tem no remoto”, afirma Juliane, que diz sentir muita falta de seus alunos e demonstra muita preocupação sobre como essas crianças devem estar sentindo as dificuldades de comunicação em suas casas. A comunicação do surdo com surdo é imprescindível e representa trocas muito importantes.

“Eu sou surda e as crianças também são surdas, então é importante pela questão das trocas; essa união é muito importante por que eu sou uma referência e um modelo para eles.”

Juliane Emmert

De todos os motivos que complicam a interação e o processo de aprendizagem, para Priscila, a barreira tecnológica é a maior. A professora comenta que, de todos os seus alunos, apenas dois conseguem participar das aulas via Google Meet. “Tenho alguns alunos que não têm celular ou internet e não conseguem ver os vídeos”, relata Priscila. “Esse é o grande desafio que estamos enfrentando até hoje.” 

A professora da Educação Infantil da Escola Frei Pacífico Juliana Reinheimer também compartilha a mesma preocupação de Priscila e acrescenta que o ensino só seria igualitário caso todos os alunos tivessem acesso pleno às tecnologias, pois, do contrário, sempre haverá um desnivelamento. Quando se trata de ensino de surdos, a professora frisa que a situação se agrava ainda mais. “O ouvinte tem 24 horas de comunicação, ele recebe a informação nesse tempo todo. No ensino remoto, o surdo tem apenas 4 horas por semana junto de alguém que sabe se comunicar com ele e consegue passar as informações para ele.”

Por conta das dificuldades, a escola Frei Pacífico buscou adaptar suas atividades e fazer com que os alunos tirassem o máximo de proveito das aulas e se mantivessem engajados. Priscila conta que houve o desenvolvimento de dinâmicas especialmente para o ensino a distância, com um teor mais lúdico e também que envolvessem o contexto familiar. Juliana e Juliane comentam que passaram a fazer o uso de vídeos sinalizados.

Print screen de tela da Escola Frei Pacífico, com Juliana Reinheimer ensinando a fazer dobraduras.

A sociedade audista

Se os efeitos da pandemia agravaram a situação da comunicação pessoal e o processo de aquisição da Língua de Sinais, vale lembrar que os surdos já vivem em uma sociedade que deliberadamente é guiada pela audição e que dificuldades sempre foram encontradas por essas pessoas.

“A sociedade é audista. Ela tem a audição como prioridade. Há muitos anos os surdos estão informando e dizendo: ‘Não me telefonem, me mandem mensagem’, e até hoje eu recebo ligações no meu celular e fico preocupada. Será que é de um hospital? Será que aconteceu algo com alguém? Isso mexe comigo. Eu sempre informo que meu telefone é somente para mensagem, então isso é ruim.”

Bianca Pontin

Bianca pontua que o uso do português escrito se faz necessário para se viver socialmente. A professora percebe que são poucos os canais de informação que disponibilizam acessibilidade; e os que oferecem, na maioria das vezes, são legendas incorretas e sem revisão. Isso se reflete de forma bastante preocupante no momento atual, em que a disponibilidade de informação aos surdos é bastante reduzida. “Até hoje eu não tenho segurança se precisar de médico. O que eu faço? Vou aonde? Procuro quem? Eu não tenho essa informação de forma clara. Devo chamar uma ambulância em Língua de Sinais ou por mensagem? Eu não sei como eu faria, acho que não existe esse atendimento até hoje”, lamenta Bianca.

Na Escola Frei Pacífico, o ensino da Língua Portuguesa escrita é feito desde os anos iniciais até os finais. Para Priscila, o português escrito tem função social na vida do surdo e facilita sua comunicação com o conjunto da sociedade ouvinte. 

Além de professora, Bianca também é vice-coordenadora de departamento. Ela comenta que ainda não trabalhou na função de forma presencial, porém percebeu que precisa haver mudanças nas atitudes das pessoas para com os surdos. 

“Por exemplo, atitudes de alguns colegas em como lidar com pessoas surdas. Se quer marcar uma reunião, precisa bem antes fazer o agendamento dos intérpretes. Os professores têm o costume de fazer o agendamento das reuniões em cima da hora, mas primeiro se tem de garantir que os intérpretes têm disponibilidade para que eu possa participar.”

Bianca Pontin
Professoras da Escola Frei Pacífico têm enfrentado o desafio de ensinar remotamente, usando Libras. Se problemas tecnológicos têm sido uma das maiores questões nesse modelo de educação, principalmente com populações carentes, a exigência de câmeras no ensino de surdos aumenta as dificuldades (Print screen de tela da Escola Frei Pacífico)
Acessibilidade

Com o advento da pandemia e as escassas informações disponíveis para pessoas surdas, a equipe de intérpretes do Núcleo de Inclusão e Acessibilidade (Incluir) – setor responsável por fazer traduções e interpretações em atividades da Universidade – criou um grupo no Facebook destinado a postar vídeos sinalizados com notícias importantes e precauções necessárias para o combate à covid-19.

“Nós continuamos nossos serviços de acessibilidade de forma remota e nosso projeto de leituras obrigatórias acessíveis. A tradução-interpretação para Libras continua, nós lançamos uma cartilha que dá uma série de dicas em relação à acessibilidade do ensino remoto”, explica Adriana Arioli, coordenadora do núcleo. A cartilha de acessibilidade pode ser acessada aqui. 

Segundo Patrícia Ughi, intérprete do Incluir, o trabalho nunca cessou. Na verdade, desde o dia em que se iniciou a quarentena para alunos e servidores da UFRGS, o fluxo de tarefas até aumentou. Adriana comenta que, com a pandemia e o grande número de lives, houve um crescimento na procura por acessibilidade, tanto de dentro como de fora da Universidade. “Eu acho que uma diferença importante é que os pedidos ultrapassaram muitos limites da sala de aula”, reflete Adriana. 

As dificuldades tecnológicas também foram um empecilho para o Incluir. Os intérpretes tiveram que fazer a aquisição dos equipamentos necessários para o exercício de sua função. Patrícia ressalta que a interpretação por vídeo exige uma série de fatores a se considerar. “Para nós podermos fazer uma interpretação ou uma tradução de qualidade, precisamos de equipamentos mais velozes, com mais memória e softwares que pudessem fazer uma gravação.”

O saldo de mais de um ano sem encontros presenciais para uma comunidade surda que clama pela interação ainda não pode ser precisado. Priscila admite que algumas lacunas para a educação da criança surda irão ficar, mas que, com o retorno ao presencial, devem fazer, na prática, o que estão fazendo na teoria, buscando a perda mínima da língua. Adriana frisa que o presencial é sempre mais eficiente, mas reconhece que foi possível sobreviver em um novo formato, em que muito foi produzido, mesmo quando se pensava que não conseguiriam produzir nada. “Nós vamos voltar um dia, mas voltaremos diferentes”, conclui.