A presença da Universidade no cenário cultural

Formação | Relatos de profissionais egressos de diferentes cursos da UFRGS reafirmam a importância da universidade como lugar de ensino e pesquisa das expressões artísticas
Diretor do MARGS e doutor pela UFRGS, Francisco Dalcol posa junto a obras do espaço expositivo do museu (Foto: Flávio Dutra/JU)

Se a literatura se propusesse a “pintar um quadro” da atualidade, poderia usar o trabalho da escritora Yoko Tawada, aposta o professor Gerson Roberto Neumann, do Instituto de Letras da UFRGS. Japonesa radicada na Alemanha, Tawada simboliza um momento histórico de profusão de movimentos migratórios, com obras como Memórias de um Urso Polar. O livro foi traduzido para o português no mestrado da então orientanda do docente, Lúcia Collischonn de Abreu.

Para Gerson, a literatura e as outras artes tentam levar o indivíduo a se compreender e a buscar ser compreendido, assim como quem tenta nova vida em outro país. O docente considera a obra de Tawada como sem moradia fixa, uma literatura que não é tipicamente alemã nem japonesa, porque não é importante saber onde foi escrita. Uma lição imprescindível para um mundo que começa a dar espaço a movimentos que repudiam o encontro com o diferente e se apegam a valores nacionalistas excludentes.

A pesquisa e a tradução da obra reafirmam o papel da Universidade como promotora de cultura. Neste texto, o JU traz o relato de profissionais que têm trajetórias atravessadas pela UFRGS na sua formação como agentes do campo artístico.

Diferença que atrai

Rafael Marques começou sua trajetória musical aos 13 anos no IPDAE – Instituto Popular de Arte e Educação, na Lomba do Pinheiro. Hoje é músico de orquestra, diretor artístico, professor e pesquisador. Entrou na UFRGS em 2013 pelo bacharelado de música com ênfase em flauta transversal e atualmente é aluno do mestrado em práticas interpretativas. Na Universidade, aprendeu e experienciou vários pilares da carreira musical – pesquisa, performance e docência –, além do importante contato com os professores.

Durante sua vivência universitária, Rafael participou de diversos festivais e conquistou prêmios como o Jovens Solistas, ocasião em que se apresentou à frente da Orquestra de Câmara Fundarte. Em 2016, foi considerado o Melhor Jovem Flautista do estado durante o VII Encontro Internacional de Flautistas.

Uma de suas características marcantes é o empenho permanente de aperfeiçoamento. Dessa forma, ele busca estar preparado para trilhar todos os caminhos possíveis na carreira musical – de professor universitário a instrumentista de orquestra. O mestrado na UFRGS, segundo ele, é o ápice de sua carreira em termos técnicos, instrumentais e artísticos.

Rafael considera que, para viver de música, hoje, o músico precisa expandir seus conhecimentos e saber exercer todos os papéis, desde a produção até a performance. Apesar das constantes crises que a produção artística e cultural sofre, para ele, cabe ao artista se reinventar e encontrar outras formas de fazer música. Rafael enxerga cada dificuldade como um desafio: “Pra mim, nunca foi fácil e nunca vai ser fácil, então acho que o desafio é sempre o que vem me movendo até agora”.

O músico reclama da diminuição do público, mas acredita que essa tendência é reversível. Segundo ele, o artista é sempre capaz de criar música que vá ao encontro de outras pessoas. Diretor artístico do Lux Sonora, orquestra de câmara dedicada à música barroca, Rafael acha importante, a fim de conquistar novos públicos, investir na diferença a cada performance, além de criar interações com a audiência e relações com outras formas de arte. Algumas das associações trabalhadas pelo grupo são criar concertos temáticos e vincular poesia e história aos espetáculos.

“Estamos em uma crise, mas a arte ainda prevalece”, crê Rafael. Cauteloso ao definir o conceito de arte, especula que seja “tudo o que vem ao encontro do âmago do ser”. Na sua opinião, a arte é ampla e pode ser qualquer coisa que produza sensações no outro. “Eu defino música como todo e qualquer som que mexe contigo”, reflete, de um ruído ambiente a uma sinfonia. Para ele, a arte leva o indivíduo ao encontro de si.

Trânsito livre entre as artes

Martina Frohlich foi estudante do Instituto de Artes (IA) da UFRGS em um período marcante: era aluna e integrante do Diretório Acadêmico quando da implementação das políticas afirmativas, em 2008, ano que marcava também o centenário do Instituto e o cinquentenário do Departamento de Artes Dramáticas (DAD).

Um período que representou não só a mudança importante no perfil dos ingressantes, mas também a criação de um legado das comemorações das datas históricas: o Grupo Cerco, que tem em Martina uma de suas fundadoras, nasceu do resgate de uma tradição interrompida. Nos anos 1980, costumava-se apresentar um espetáculo teatral aberto a toda comunidade. A direção decidiu retomar essa iniciativa para comemorar o centenário, e a apresentação teve ótima recepção. O grupo montado para a ocasião seguiu trabalhando nela e acabou se estabelecendo como mais do que um grupo reunido pontualmente para um espetáculo.

Em 2016, o Cerco foi escolhido para representar a Universidade em Portugal. À época, os integrantes já não faziam parte da UFRGS, mas ainda ensaiavam no DAD. “Fizemos uma mostra comemorativa dos 10 anos no Teatro São Pedro e agradecemos à ‘nossa mãe UFRGS’. Mas sentimos a necessidade de ter um espaço próprio para podermos viver de arte e sermos cada vez mais profissionais, até porque as instalações do DAD recebiam novos alunos, tinham uma demanda grande”, conta Martina. Depois de muita pesquisa, o grupo cênico conseguiu a concessão do espaço que lhe serve de sede atualmente, no centro de Porto Alegre.

Além de apresentações do grupo, a sede recebe também oficinas e eventos que auxiliam no seu sustento. As atividades muitas vezes transitam entre diferentes expressões artísticas, com uso frequente de linguagens da música e da dança. Uma mistura que não é novidade alguma para Martina: além da atuação em peças teatrais, filmes e séries, também já participou de conjuntos musicais e é uma das fundadoras do Bloco da Laje, um dos mais conhecidos do carnaval de rua de Porto Alegre, que integra música, atuação e folia. “A arte, por definição, é universal, interdisciplinar. Acho que não existe fronteira entre as formas de manifestação artística”, enfatiza.

O intercâmbio e o livre trânsito entre as artes fazem parte da receita de Martina para quem quer viver de arte em 2019. “É preciso criatividade. Até porque moramos em um país que se bipolarizou sobre o projeto de sociedade que queremos e que parece achar que a arte não é importante. O sufocamento moral da cultura é uma forma de sufocar a identidade do Brasil; costumo dizer até que valorizar nossa cultura é questão de soberania nacional. E, pra conseguir desmontar as narrativas mentirosas sobre a nossa arte, é preciso diálogo, paciência e muita criatividade”, conclui.

Bloco da Laje Carnaval 2019

Bloco da Laje Carnaval 2019! Foi apoteótico! Foi quente! A gente deseja um Carnaval lindo pra todos vocês que vibram com a gente! As ruas serão tomadas pelo povo de evoé! Viva o Carnaval de rua!Vídeo gravado por Eduardo Rosa, Antônio Ternura e Martino Piccinini. Edição mágica do Biel Gomes.Deixa o Carnaval passar!Em março estaremos de volta! 09 em Floripa e dia 23 no Baile da Laje na Saldanha. Vem que tem! Evoé!

Publicado por Bloco da Laje em Quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
Quando a arte acontece

Vencedor de uma das maiores premiações literárias do país, o Prêmio São Paulo de Literatura, com o livro A parede no escuro, Altair Martins escreve romances, contos e peças de teatro, além de ser ator e professor. Teve toda a sua formação na rede pública de ensino. É bacharel em Letras com ênfase em tradução (Francês) pela UFRGS, onde cursou também o mestrado e o doutorado, e hoje é aluno do curso de História da Arte.

Apesar de sempre ter desejado ser escritor, considera fundamental sua passagem pelo bacharelado. Por meio da Universidade, teve aprendizados para além do universo das letras e das artes. Para ele, a vivência na UFRGS ensina a compartilhar espaços, proporciona interação com os professores e oportuniza novas experiências.

A escrita, segundo ele, é um ofício com menos glamour do que se imagina. Ao contrário de outras artes, como a música e o teatro, a escrita não costuma ser praticada em conjunto, e por isso Altair a considera um trabalho solitário – por outro lado, o autor afirma que “o livro só acontece se encontra eco no outro”. Para ele, a literatura é um diálogo entre quem escreve e quem lê.

Talvez nunca se tenha lido tanto no Brasil, especula Atair; em contrapartida, em uma sociedade em que tudo é efêmero e tudo é produto, a produção literária é cada vez mais negligenciada. Embora seja difícil competir com mídias audiovisuais, o autor aponta que a literatura é essencial para contestar a ilusão de que existe um mundo neutro e para pautar discussões na sociedade – por menor que seja o público.

Altair é pessimista com relação ao ritmo frenético e consumista da sociedade: acredita que não há como reverter esse processo, mas ainda assim considera essencial continuar produzindo. “A derrota é bem clara, o que existe é a resistência”, resume. Nesse contexto, considera que ler literatura é um ato antissistêmico. Logo, se a literatura e a arte não forem subversivas, na visão do autor, elas perdem o sentido.

A literatura nos reconecta com o que há de essencial em ser humano. O ato de ler exige condições de espaço, tempo e luz; por isso, literatura é
pausa e também é arte. “A arte verdadeira, pra mim, é a que nos leva a sair da pretensa normalidade.” Cada vez mais as barreiras estão sendo rompidas: música, dança, teatro e literatura são algumas das expressões artísticas que se cruzam no trabalho de Altair. Para ele, não cabe discutir “o que” é arte, mas, sim, “quando”, porque qualquer situação do cotidiano, realocada para um contexto artístico, torna-se arte. “A arte é exatamente esse roubo; é o que eu consigo arrancar do pragmatismo da vida comum”, complementa.

“Adorno não gritaria, exatamente como, quando sentiu a dor no peito ao acordar-se, não pôde falar. Um automóvel, e Adorno mal pôde perceber a luz dos faróis nas costas antes de senti-lo. E ele não pôde nem ao menos saber que era branco, que seria rápido.
O branco cresceu, vindo da chuva, um facho de luz. Depois um frio. O dedo do Cristo. E do branco, Adorno fez uma nova mistura em que, gelado pela chuva, um homem desaparecia.”

Altair Martins. A parede no escuro (Record, 2008)
Contemplação e resistência
Atual exposição do MARGS reúne obras de Xico Stockinger (Foto: Flávio Dutra/JU)

Além de um espaço de exposição de objetos, Francisco Dalcol vê o museu como um lugar de saberes e experiências e de mostrar relações entre diferentes campos da produção artística – bem como um espaço de resistência. “Sobretudo no Brasil, onde parece que trabalhar com a cultura e com a arte é algo desfavorável, na contracorrente”, destaca. Professor convidado da UFRGS e diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), ele considera que a arte, hoje, é uma experiência crítica e entende a curadoria como lugar de crítica de arte, porque é um trabalho que demanda reflexão.

Francisco salienta que o sistema de ensino no Brasil não oferece condições para uma formação em arte a grande parte da população, o que “reverte em uma situação de elitização”. A arte participa da construção de cada pessoa, problematiza questões da sociedade e é uma forma de o indivíduo se relacionar consigo e com o mundo. Em sua origem, a arte faz parte dos processos coletivos.

“Ela [a obra] se torna arte na medida em que ela encontra essa dimensão coletiva.”

Francisco Dalcol

Para ele, os professores, que trabalham com a formação não só de artistas, mas de cidadãos, “têm o compromisso de tentar diminuir essas distâncias”.
A Universidade é uma ponte para difundir, entre vários setores da sociedade, a produção cultural. Esta, porém, precisa estar na base da educação e ser acessível por outras instâncias, como escolas e museus.

Arte é uma produção simbólica, uma forma de conhecimento e de experiência. Nas palavras do curador, “a arte é o que a gente quiser que seja”, e quem determina essa definição é a própria sociedade e seus movimentos históricos. Ele cita a definição de Mário Pedrosa de que “a arte é o exercício experimental da liberdade”. Nesse sentido, Francisco explica que tudo o que vai contra a liberdade criativa é censura. Em vários momentos históricos, a arte foi instrumentalizada para intenções contrárias ao seu objetivo. Isso ocorre quando pessoas ou grupos, amparados pelo afastamento das populações do conhecimento artístico, a utilizam para outros fins, e o sentido original da obra é deslocado. De acordo com Dalcol,
tais comportamentos revelam como esses grupos se relacionam com o conteúdo que a arte censurada representa.

A falta de compreensão dos sentidos da arte é agravada pelo ritmo lento, o que contraria a lógica atual da sociedade – um contexto de profusão de imagens, textos e telas. A arte convida à contemplação, que, segundo ele, “é um ato necessário, porque quando você faz isso, você não está seguindo os estímulos externos que lhe são dirigidos” . Ela é, portanto, uma afirmação da singularidade de cada indivíduo e da autonomia sobre o tempo e os estímulos recebidos por cada pessoa. Além disso, é essencialmente política: “É uma forma de dizer não e interromper a lógica dos processos de constante produção”.


Emerson Trindade Acosta e Julia Provenzi

Estudantes de Jornalismo da UFRGS