Adaptação para o ensino remoto deve levar em consideração alunos com deficiência

Inclusão | Profissionais e estudantes elencam alguns requisitos para garantir a acessibilidade em material disponibilizado online

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Para Cássia Antonina Palópolo, a única desvantagem do ensino remoto seria nos casos de não haver acessibilidade. A estudante surda cursa o sétimo semestre de Biblioteconomia e diz que, para que possa acompanhar o conteúdo, é necessário que os vídeos ou as conferências tenham legendas ou interpretação em Libras (Língua Brasileira de Sinais).

Nesse caso, seus professores precisarão disponibilizar o material de aula de forma que o Incluir (Núcleo de Inclusão e Acessibilidade) tenha tempo hábil para produzir as legendas ou gravar a interpretação. “Com acessibilidade, consigo acompanhar 100% as aulas a distância”, revela Cássia.

Adriana Arioli, coordenadora do Incluir, reforça que as questões de acessibilidade devem ser pensadas antes da implementação do Ensino Remoto Emergencial, sendo necessário atentar para alguns requisitos para que a acessibilidade possa acontecer de maneira adequada. “No caso de uma aula síncrona, por exemplo, as sessões têm que ser bem organizadas, uma pessoa só falando por vez, com duas janelas para os intérpretes que se revezam. É uma logística complexa”, ressalta. 

Se houver materiais visuais sem descrição, alerta Adriana, as pessoas cegas ou com baixa visão não terão acesso. É preciso que os professores pensem nessas questões e descrevam os gráficos, por exemplo, se houver algum aluno cego. “Os documentos que vão para o Moodle têm que estar em PDF, não pode ser um arquivo de imagem, senão o software que faz a leitura de tela não consegue decifrar o conteúdo. No caso de livros escaneados, eles igualmente não podem ser salvos como imagem; precisam estar num formato que possa ser extraído em texto. São requisitos mínimos de acessibilidade”, detalha.

Segundo a coordenadora, o Moodle tem alguns recursos de acessibilidade e é compatível com os softwares ledores de tela, garantindo a navegação.

Instrutor de informática no Projeto Rumo Norte – inclusão de pessoas com deficiências (promovido pela organização Irmãs Escolares de Nossa Senhora), Luis Dias de Medeiros enfatiza que o que pode ser um impeditivo no ensino remoto é o nível de conhecimento que as pessoas com deficiência têm em relação à tecnologia.

Além disso, reflete, há o nível de adaptação em que a pessoa se encontra em relação a sua deficiência caso a tenha adquirido no meio da vida. “Por exemplo, para alguém que estava acostumado a utilizar o computador com mouse e teclado, passar a usar um ledor de tela pode ser uma experiência completamente nova.”

Luis relata que nas aulas do projeto a impossibilidade do atendimento presencial trouxe algumas dificuldades – não porque este seja insubstituível, ele ressalva, mas porque foi complicado ter que fazer adaptações no meio do semestre. Sua recomendação é que os professores busquem formação para dominar as ferramentas à disposição.

Outros impactos do ensino remoto para PCDs

Estudante do sexto semestre de História, Evelyn Gonçalves Euclydes tem deficiência física e conta que não ter que se deslocar até os câmpus, e mesmo dentro deles, será uma vantagem. No entanto, lamenta, em casa não tem um ambiente propício ao estudo: “Há vizinhos ouvindo música alta o dia todo, cachorros latindo; às vezes até o helicóptero da polícia”. Além disso, sua conexão à internet não tem boa qualidade, o que a tem impedido de assistir a eventos online. 

No caso de Cássia, o que tem impossibilitado acompanhar as atividades online que lhe interessam é justamente a falta de legendas ou intérprete de libras. Ela registra, por outro lado, que haverá uma vantagem no ensino remoto: nos encontros presenciais não consegue copiar nada no caderno; com as aulas a distância, poderá fazer anotações e rever o conteúdo com calma.

Cássia Antonina Palópolo, estudante do sétimo semestre de Biblioteconomia precisa que as aulas online tenham legendas ou interpretação em Libras para que possa acompanhar o conteúdo. Já a estudante do sexto semestre de História, Evelyn Gonçalves Euclydes revela que o ensino remoto trará a vantagem de não precisar se deslocar até os câmpus, e mesmo dentro deles. Ela conta que a acessibilidade é dificultada para quem, como ela, tem deficiência física (Fotos: Flávio Dutra/JU)

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