Pinacoteca | Esther Jaeger discorre sobre o amplo simbolismo da obra, aberta a interpretações tanto práticas quanto poéticas
Alice Soares (Uruguaiana/RS, 1917 – Porto Alegre/RS, 2005) foi uma artista pioneira. Ela fez parte da primeira geração de mulheres artistas que se dedicaram profissionalmente ao exercício da arte no Rio Grande do Sul. Seu berço, assim como o de tantas outras, foi o Instituto de Belas Artes de Porto Alegre (IBA), onde Alice estudou principalmente pintura e escultura. Local de alta efervescência cultural nos anos 1940, o IBA, atual Instituto de Artes da UFRGS, foi, sobretudo, um lugar de intensas trocas artísticas entre alunos e professores, que cultivavam, muitas vezes, relações de amizade, companheirismo e, acima de tudo, admiração. É justamente essa a temática escolhida por Soares para o óleo sobre tela Corona e suas alunas (ca. 1946).

Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.
Reprodução: Acervo artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo
Na pintura, entre cinco jovens mulheres, notamos um único homem, Fernando Corona (Santander, Espanha, 1895 – Porto Alegre/RS, 1979), que ministrava, à época, o Curso de Escultura no IBA. Além dele, apenas alunas aparecem na cena, e somente uma delas encara diretamente o observador: a própria Alice Soares, que se autorretrata, discretamente, no canto superior direito da tela. As demais colegas são Theresa Gomes Gruber (1922 – 1999), no canto inferior direito; Christina Balbão (Porto Alegre/RS, 1917 – 2007), no canto inferior esquerdo, também segurando uma escultura, Leda Flores (Porto Alegre/RS, 1917 – 2016), atrás; e, bem ao fundo, Dorothea Vergara (Porto Alegre/RS, 1923 – 2021).
A obra é de amplo simbolismo, aberta a interpretações tanto práticas quanto poéticas. Poderia se tratar de uma simples representação de ateliê e de sala de aula, de uma homenagem a um professor querido ou, ainda, de um exercício de pintura, observando suas amigas e companheiras. Todas essas são interpretações justas. As escolhas compositivas empregadas por Soares, porém, fazem dessa obra mais do que uma ilustração de uma recorrência cotidiana. Trata-se de um empoderamento e da valorização da figura da mulher artista — isso nos anos 1940!
A artista põe a si e a suas colegas em um nível semelhante ao de seu estimado professor. Todos vestem a mesma roupa, um possível uniforme de trabalho, um avental ou guarda-pó branco, e possuem expressões faciais muito semelhantes de tranquilidade e conforto. Mesmo que estabelecendo tal posição de coleguismo e companheirismo em relação a Corona, Soares mostra que a opinião dele permanece relevante, ao pintar Teresa Gruber e Christina Balbão, ao que parece, mostrando suas produções ao mestre.
Em relação à composição, Corona ocupa, de fato, posição central na obra. Apesar disso, a figura que recebe maior destaque aos meus olhos — provavelmente por sua cor, tamanho e forma curiosa — é a escultura Medusa (1946), de Dorothea Vergara, que aparece, por sua vez, observando-a, próxima à janela. Essa obra também se encontra no Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo e desenvolve um interessante diálogo com a obra de Alice.
Algo que não se pode deixar de pontuar é que durante os 20 primeiros anos do Curso de Escultura do IBA, de 1938 a 1957, não havia homens matriculados nessa especialização. Sabe-se dessa informação através de documentos reunidos pelo próprio professor Corona que mostravam, por meio de fotografias, a produção de seus alunos.

A pintura de Soares é, portanto, além de uma importante reafirmação da ocupação feminina de um espaço artístico, o retrato da produção escultórica do IBA no período de sua fatura, que era concentrada, fugindo à regra, nas mãos de mulheres. Apesar de poucas destas terem conseguido continuar na carreira artística — especialmente na produção tridimensional, julgada masculina —, Soares, coincidentemente, retrata em sua tela as colegas Vergara e Balbão, artistas que, efetivamente, alcançaram imenso destaque na área.
Assim, em Corona e suas alunas, Alice Soares não só representa uma cena de ateliê ou uma possível homenagem a seu professor: ela dá, acima de tudo, destaque à figura da artista mulher no cenário artístico do Rio Grande do Sul à época, contrariando várias expectativas e pressões sexistas a elas impostas ao ocuparem, com força e constância, um lugar que não era tido como seu.
Esther Jaeger é bacharelanda em História da Arte na UFRGS. Atuou por dois anos como bolsista do Acervo Artístico da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Atualmente integra a equipe do Núcleo de Curadoria e Programa Público do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS).
Quinzenalmente, estudantes e pesquisadores apresentam obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo a partir de diferentes aspectos. A seção tem curadoria de Camila Monteiro Schenkel e Gabriela Motta.





