América do Sul não está preparada para adotar uma moeda comum 

Sociais | As grandes disparidades entre as economias e a pouca integração comercial na região impedem a adoção dessa medida de curto prazo, aponta pesquisa

*Foto: Flávio Dutra/JU

A possibilidade de a América do Sul implementar uma moeda comum é discutida por economistas há mais de 20 anos, desde o momento em que a União Europeia adotou o euro, em 1999. Em teoria, essa medida fortaleceria as economias por meio da redução de barreiras tarifárias, da menor dependência do dólar e da maior estabilidade financeira dos países envolvidos. 

No entanto, a moeda comum exige um alinhamento político e econômico que não é facilmente alcançado. Se os países têm níveis muito diferentes de produtividade, inflação, dívida pública e competitividade, esse desnível tende a aumentar as desigualdades entre eles ou gerar crises econômicas.

Uma pesquisa do Programa de Pós-graduação em Economia da UFRGS aponta que, como a América do Sul é marcada por muitas divergências econômicas e políticas, a implementação de uma moeda única não seria vantajosa em curto ou médio prazo. Para o economista Deivis Kappes, autor do estudo, o nível de trocas intrarregionais, a assimetria de poder e a dependência do comércio com outros países são as principais limitações atuais.

“Existe um grande entusiasmo em alguns setores do espectro [político], porque eles veem a América Latina unida, forte. E eu concordo com isso. Não estou dizendo que é impossível adotar uma moeda única, mas eu acho que ela iria suprimir muito das especificidades de cada país”, ressalta o mestre em Economia.

Um dos poucos indicadores da convergência na região é o ciclo de negócios, identificado pelas flutuações no Produto Interno Bruto (PIB) Soma de todos os bens e serviços finais produzidos por um país, estado ou cidade, geralmente em um ano. . Nas últimas duas décadas, houve um aumento na sincronicidade entre Argentina, Colômbia, Chile e Brasil, isto é, suas recessões e expansões estavam sincronizadas, indicando uma interdependência econômica.

Por outro lado, os outros parâmetros analisados, como as respostas a choques externos, a participação no comércio intrarregional, o comportamento inflacionário e o volume das reservas, indicam o quanto a moeda comum seria uma decisão inadequada hoje em dia.

“Quando um país é muito instável, com inflação alta e instabilidade cambial e externa, esse seria o país mais beneficiado no caso da adoção de uma moeda comum”, explica o pesquisador.

O Brasil, por exemplo, mostrou-se uma âncora de estabilidade externa. Em 2023, ele detinha 60% das reservas anuais da América do Sul, enquanto o Peru — ocupando o segundo lugar naquele ano — tinha 10% das reservas. 

Gráfico elaborado por Deivis Kappes a partir de dados do Fundo Monetário Internacional mostra a participação de Brasil, Argentina, Chile e Peru nas reservas internacionais do continente sul-americano

A volatilidade (isto é, a instabilidade da economia) da Argentina e da Venezuela são verdadeiros obstáculos para uma maior integração, assim como o crescimento acelerado da Guiana, que tem lucrado muito com as suas reservas de petróleo. Essas divergências podem intensificar a assimetria de poder na região, fazendo com que uma economia dominante exerça poder desproporcional sobre as outras.

“A Argentina é a maior devedora do FMI da história. E, por exemplo, se o Brasil usasse suas reservas para resgatar a Argentina, isso seria muito arriscado. Até porque não tem vontade política para isso”, comenta Deivis.

Comércio intrarregional e a disparidade econômica

Entre 1997 e 2022, a participação do comércio intrarregional caiu de 26,3% para 17%, enquanto os níveis da União Europeia no mesmo período oscilaram entre 60% e 65%. Isso significa que, em 2022, 83% das trocas comerciais da América do Sul foram com países de fora da região, tanto para importar quanto para exportar produtos.

Fonte: Deivis Kappes, a partir de dados do World Integrated Trade Solution

Além disso, em 2023, atingiu-se o maior nível de disparidade (ou gap) entre o PIB per capita Soma de todos os bens produzidos em país em um determinado ano dividido pelo seu número de habitantes. dos países. O valor correspondente à economia mais forte era 6 vezes maior que o da economia mais fraca da região. 

Com essa análise, o pesquisador notou que a tendência de convergência entre as economias ocorre de forma pouco expressiva, e a redução das disparidades tem sido insuficiente nas últimas décadas.

Uruguai tem o maior PIB per capita do continente, seguido de Guiana e Chile (Fonte: Deivis Kappes, a partir de dados do Banco Mundial)
Falta de interesse político

“A moeda não está alheia a questões políticas e a questões de poder”, comenta o professor Andrés Ferrari, do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da UFRGS. Para ele, adotar ou não uma moeda comum depende, antes, da vontade política dos representantes de um governo. Depois da simetria econômica.

“Se não há políticas (num sentido amplo, de todas as áreas) de visões similares, é muito difícil pensar algo”, exemplifica o professor.

Para Deivis, há uma falta de vontade política evidente entre os países da região. Isso condiciona muito o sucesso da integração econômica na América do Sul, mas esse cenário pode mudar nas próximas eleições. 

“Nem a própria União Europeia, que é a região mais integrada comercialmente, atingia esses pré-requisitos”, relembra o economista, referindo-se à integração comercial e a convergência nos indicadores econômicos analisados. “Ali foi muito mais uma questão de vontade política entre os Estados-membros”, completa.

Foto: Flávio Dutra/JU

Dissertação: Há espaço para avançar na integração monetária da América do Sul?
Autor: Deivis Kappes
Orientador: André Moreira Cunha
Programa/ Unidade: Programa de Pós-graduação em Economia – Faculdade de Ciências Econômicas