Ana Raquel e Aristóteles, dez anos de relação com a UFRGS

À esquerda, rapaz negro, com bigode, cavanhaque e piercing na sobrancelha, usando moletom dizendo UFRGS Odontologia, abraçado em uma mulher negra, de cabelos crespos, usando camiseta cor de rosa. Ambos sorriem para a foto. Ao fundo, vegetação com árvores e grama.

As caras da UFRGS | Hoje estudantes de graduação, mãe e filho ingressaram na Universidade no mesmo ano, ela na Licenciatura em Física e ele no Colégio de Aplicação

*Foto: O Câmpus do Vale representa união para os dois. Ana Raquel se prepara para finalizar a graduação em Física,
enquanto Aristóteles estudou no Colégio Aplicação e hoje está no segundo semestre de Odontologia (Crédito: Marcelo Pires/JU)

Ana Raquel Soares Flores ingressou na UFRGS pela primeira vez no curso de Engenharia Elétrica. Trancou a graduação alguns semestres depois, pois havia se tornado mãe e perdido o emprego. Ela lembra que, com uns quatro meses de gestação, chegou em uma aula, e o professor falou que a pior coisa que as alunas podiam fazer no curso era engravidar. Rindo, ela conta que pensou: “Eu acho que ele tá falando para mim”. Quando o filho Aristóteles Correa Costa Filho já estava com seis anos, ela concluiu o magistério e, após, começou a dar aulas no estado.

Em 2012, Aristóteles ingressou no sexto ano do ensino fundamental no Colégio de Aplicação (CAp). Inicialmente teve dificuldade de acompanhar as aulas, pois havia saído de uma instituição pública com aula em apenas um turno – o CAp tem turno integral, com professores em sua maioria doutores. Em 2022/2, Aristóteles iniciou a graduação em Odontologia na UFRGS. Ele e a mãe riem, dizendo que não havia opção se não fazer faculdade. “Livre e espontânea imposição”, brinca Ana Raquel. Até a inscrição para o vestibular, ele não tinha certeza sobre qual curso queria – até então falava para a família que faria Psicologia, mas então pensou: “Odonto deve ser legal”, e mudou a escolha.

Na mesma época em que Aristóteles ingressou no Aplicação, Ana Raquel decidiu fazer Licenciatura em Física. Começou o curso no diurno e, após pausas e quase desistências, fez transferência para o noturno. “A dificuldade foi depois. Ingressar não teve nenhum problema.” A estudante, além de cursar Física, é professora na rede estadual – houve semestres em que ela precisou trancar por não ter como conciliar todas as atividades. Ela diz que o curso é difícil e é necessário dedicar um grande tempo fora da sala para estudo e realização de trabalhos.

Quando mudou para o noturno, falou com vários professores a respeito do nível de exigência: alega que não há como cobrar da mesma maneira alunos que apenas estudam e aqueles que estudam e trabalham. Alguns docentes entendem a situação, outros alegam que os estudantes escolheram estar ali e precisam aceitar. De forma geral, a relação de Ana Raquel com a Universidade é de amor e ódio, “mas agora estamos in love de novo. Estamos indo para a reta final, então, tudo certo”.

Mulher negra, de cabelos crespos curtos, usando batom e camiseta de cor de rosa, olhando para cima e à direita, em frente a um pórtico que diz UFRGS Campus Vale
Com seu filho ingressando na faculdade de Odontologia, Ana se prepara para finalizar a graduação em Física (Foto: Marcelo Pires/JU)

Aristóteles tem uma vivência diferente. Às vezes se cansa com a quantidade de disciplinas, mas, como é extrovertido, costuma se entrosar bem com as pessoas. Ana Raquel brinca que para ele é quase tudo festa. A diferença de idade faz com que não se relacionem da mesma maneira com a Universidade. Ana conta que em alguns semestres ficou mais apartada dos colegas, já que há a questão etária e racial – e ainda por cima é uma mulher em um curso composto maioritariamente por homens.

Uma experiência que compartilharam na UFRGS foi a participação em duas fotos coletivas tiradas na celebração do Novembro Negro. Eles ressaltam a importância do movimento e da promoção de atividades antirracismo, e que o Colégio de Aplicação costumava abordar bastante essa questão. “Eu, trabalhando em escola pública, sei o quanto é difícil a gente levantar essas pautas e discuti-las em sala de aula”, diz Ana Raquel. Muitas vezes o debate a respeito do racismo ocorre apenas no mês de novembro e é deixado somente a cargo de professoras negras como ela, outras vezes o debate é apagado até neste mês. “Eu acho que a gente tem que estar discutindo isso o tempo todo”, assevera. Ela acrescenta que, no ensino superior, os debates sobre racismo dificilmente são trazidos para as aulas.

Ana Raquel conta que sua família sempre incentivou o estudo. A avó dizia para ela que o estudo é o que se pode levar para a vida, algo que ninguém nos pode tirar. Ana acrescenta: “Uma coisa pra vida, pra mente, pra te abrir pro mundo, pra entender como que as pessoas são na sua realidade, entender o mundo como ele é”.

A casa de Ana Raquel e Aristóteles é um dos pontos de encontro do amplo círculo familiar – lembram que em alguns natais chegaram a fazer amigo secreto com 60 pessoas . O Carnaval é um dos momentos em que a família se une, pois foi fundada na casa deles a escola de samba Realeza. Aristóteles não se envolve tanto com o Carnaval; costuma apenas assistir, porém Ana Raquel faz parte de todo o processo de organização do desfile.

Embora tenham vivências diferentes na UFRGS e com o Carnaval, mãe e filho gostam de passar tempo juntos vendo séries e filmes. “É uma relação muito boa, eu brigo e ele não ouve”, brinca, enquanto ele argumenta que pra ele não há briga. Ambos riem relatando suas vidas e se complementam constantemente.

Rapaz negro, com bigode, cavanhaque e piercing na sobrancelha, usando moletom e olhando diretamente para a foto, com um leve sorriso.
Os corredores do Colégio Aplicação representam boas memórias para Aristóteles (Foto: Marcelo Pires/JU)