Saúde | Milton Humberto Schanes dos Santos, da Divisão de Promoção da Saúde, pondera sobre as situações em que há indicação de uso de medicação para evitar o desenvolvimento da doença
*Foto: Flávio Dutra/JU
Considerando as fortes chuvas e consequentes enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul recentemente, emerge o questionamento sobre o uso de antibiótico na prevenção da leptospirose, infecção bacteriana adquirida no contato com solo ou água contaminados pela urina de animais infectados. A publicidade e as notícias sobre o assunto nas redes sociais têm conteúdo, muitas vezes, duvidoso e/ou contraditório.
Conforme revisão de literatura realizada neste ano, NÃO há indicação de rotina para o uso de antibiótico como forma de prevenir a leptospirose. Entretanto, quando se analisam revisões e guias mais antigos, encontra-se benefício neste tipo de uso em situações de alto risco, como exposição contínua ou prolongada a águas contaminadas ou alagadiços, com ou sem lesões de pele, ou, ainda, ingesta de água contaminada.
Mas, afinal, o que poderíamos definir como exposição prolongada nesta situação? As definições não são uniformes quanto ao número de horas ou dias de exposição que definiriam tempo prolongado. O que se tem certeza é que a exposição repetida ou sem o uso de equipamento de proteção individual aumenta o risco de contrair a doença. Da mesma forma, estar exposto à água parada ou lama (cenário pós-enchente) carrega maior chance de se desenvolver a doença, pelo menor volume de diluição da bactéria quando se compara à água corrente.
Assim, antibiótico preventivo para leptospirose PODE SER INDICADO para alguns subgrupos, como os socorristas de resgate e voluntários com exposição repetida e prolongada (embora sem definição uniforme desta), para as vítimas que tiveram a cabeça submersa ou quase afogamento, as que ingeriram água potencialmente contaminada ou também as que sofreram lesões de pele. Nas demais situações, NÃO há benefício consistente do USO PREVENTIVO de antibiótico para evitar a leptospirose, situação que agrava o risco de desabastecimento àqueles que realmente necessitam de terapia antimicrobiana.
Para encerrar, vale lembrar que este artigo fez referência unicamente à prevenção desta doença e não ao seu tratamento, situação em que a indicação desta classe de medicamentos se impõe. Obviamente, como em todos os tratamentos preventivos, quanto mais precoce o início do medicamento, maior o benefício. Por outro lado, também é preciso ter em mente que não se extingue o risco de se desenvolver a infecção.
Milton Humberto Schanes dos Santos é médico clínico, servidor da Divisão de Promoção da Saúde (DPS/DAS/Sugesp/UFRGS) e professor da Faculdade de Medicina da Unisinos.
Quinzenalmente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre nutrição, saúde, cotidiano e outros temas ligados a bem-estar. A seção tem curadoria de Fabiana Tanabe e Stéfani Schneider.
:: Posts relacionados

Ecoansiedade revela como a crise climática afeta a saúde mental dos jovens gaúchos no pós-enchente

Ferramenta inédita auxilia na gestão de saneamento em desastres climáticos

Porto Alegre realiza novo censo da população em situação de rua após 10 anos


