Bukola, da Nigéria para o Brasil

Perfil | Estudante e pesquisadora nigeriana do PPG de Genética e Biologia Molecular da UFRGS apresenta suas impressões sobre o que tem vivido no Brasil

*Foto: Flávio Dutra/JU

“Uau! Isto é o Brasil? Ok!”. Este foi o pensamento que a nigeriana Farodoye Oluwabukola Mary, 27 anos, teve ao chegar ao país, em 27 de março deste ano. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular (PPGBM) conta que, na Nigéria – país onde nasceu e passou toda a vida –, o estereótipo criado sobre o Brasil era aquele já conhecido: tráfico de drogas, turismo e Cristo Redentor. Contudo, Bukola – como é chamada – conta, sorrindo, que teve suas expectativas quebradas logo de cara.

Em seu país natal, Bukola estudava na Universidade de Illorin e traçava planos de conseguir bolsas de estudo em países como Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido ou Canadá. No mestrado, sob a orientação de Amos Abolaji, que havia feito pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ela pensou, pela primeira vez, na hipótese de estudar no Brasil. As boas recomendações do orientador foram somadas ao fato de o curso de doutorado ser extremamente caro na Nigéria, o que fez com que Bukola entendesse que o intercâmbio era o salto que suas pesquisas precisavam.

Ela seguiu, então, os passos do orientador e passou a acompanhar os editais da UFSM para a sua área. Enquanto esperava por uma oportunidade em Santa Maria, Bukola foi notificada de que o PPG de Genética e Biologia Molecular da UFRGS estava com vagas abertas. Candidatou-se, foi aprovada e finalmente aterrissou no Brasil, país em que jamais havia estado e cuja língua desconhecia (a entrevista para esta reportagem foi feita em inglês).

Ainda assim, Bukola mal passou por Porto Alegre. Os únicos lugares que conhece da cidade são o aeroporto e a rodoviária, de onde partiu para Santa Maria. Ela tem realizado suas pesquisas no interior, sob supervisão do professor Élgion Loreto, que também integra o corpo docente do PPGBM. A previsão é de que Bukola passe a pesquisar em Porto Alegre a partir do próximo semestre.

Bukola ficou impressionada com a infraestrutura disponível na Universidade, ainda mais porque sua pesquisa requer equipamentos modernos que lhe permitem um aprofundamento maior do que era possível na Nigéria. No Brasil, a nigeriana pesquisa a relação entre câncer e transposons, genes que “saltam” de um lugar para outro dentro do genoma de seres vivos. Em seres eucariontes – como é o caso dos humanos –, os transposons estão muitas vezes relacionados ao aparecimento de mutações, e Bukola tenta entender como esse fenômeno se relaciona com agentes cancerígenos.

“Eu fiquei surpresa. De onde eu venho, nós não fazemos trabalho molecular. Eles têm muitos equipamentos”

Farodoye Oluwabukola Mary
Impressões sobre o Brasil e saudades da família

A pesquisadora não teve nenhum tipo de suporte financeiro em sua empreitada. Tudo foi arcado pelo próprio bolso, desde a viagem até as despesas diárias. Por isso, quando chegou ao Brasil e descobriu os sistemas de saúde e educação públicos, ficou admirada. Também lhe chamou a atenção que quase tudo o que encontra nos supermercados é produzido dentro do próprio país. Para ela, esta é uma amostra do quão forte é a economia local.

Ela conta, com seu inglês apressado, que logo que desembarcou no país, sentiu-se bem-vinda. Em seus dois primeiros meses no país, ela confessa que ainda não percebeu as marcas do racismo, o que credita à forte relação cultural entre Brasil e África – relação que, crê, tem facilitado sua adaptação, assim como a interação com outros estudantes nigerianos em Santa Maria. Estar acompanhada por colegas na mesma situação é primordial neste processo: uma das colegas de laboratório, inclusive, é compatriota de Bukola.

Quem olha de longe e percebe a felicidade da pesquisadora em estar no Brasil não imagina a saudade que ela sente da família. Debaixo de seu jeito falante e de sua animação característica, ela esconde inseguranças de estar longe de sua casa, já que a primeira vez que passa tanto tempo longe de sua família.

Bukola conta que também sente falta do barulho. Para ela, os lugares que frequenta no Brasil são muito quietos, enquanto os sons que ouvia na Nigéria lhe eram familiares e agradáveis. Nessa mesma linha, Bukola sente falta de alguém que converse com ela em iorubá, grupo étnico-linguístico ao qual pertence. Na Nigéria, a cultura iorubá está presente em todos os aspectos da sua vida, até mesmo em seu nome, Oluwabukola, que, em uma tradução livre, pode ser entendido como alguém cuja riqueza foi abençoada por Deus.

As comidas brasileiras também lhe geram certa estranheza. Ainda assim, com sua curiosidade sempre presente, ela diz estar disposta a experimentar o que a culinária local tem a oferecer, da mesma forma como tem interesse em explorar a língua e os estados brasileiros. Bukola tem uma meta: até o fim de sua estadia no Brasil, ela quer conhecer pelo menos cinco estados. Santa Catarina, de onde tem contato com outros estudantes nigerianos, Rio de Janeiro e Amazonas – por causa da Floresta Amazônica – encabeçam a lista.


Especial África

As imagens desta edição foram feitas por Vic Macedo. A partir de um capítulo trágico da história do continente africano, Vic aborda os atos de suicídios dos cativos durante o período do tráfico negreiro— não como sinal de fraqueza, mas como ato de insubmissão e resistência ao trabalho escravo.

Vitória Macedo (Porto Alegre, 1994) é artista visual e graduada em Fotografia pela Unisinos. Clique aqui e confira o ensaio completo que ilustra o Especial África do JU.