Perfil | Para a graduanda em Licenciatura em Dança, a arte desempenhou um papel fundamental na superação dos obstáculos da vida
*Foto: A graduanda Caroline Garcia mostra um dos passos da dança cigana (Crédito: Mírian Barradas/JU)
Caroline Garcia sempre foi ligada à arte. Quando era criança em Viamão, sua cidade natal, gostava mais de brincar de cantora do que com bonecas. Montou um grupo de teatro na escola: escrevia roteiro, ensaiava com os colegas e se apresentava, com apoio de uma professora de Português.
O que Caroline nunca imaginou é que, anos mais tarde, a arte lhe daria força para reconstruir a vida e a autoestima após um relacionamento violento.
Na adolescência, queria ser professora e foi cursar o Magistério na escola Paulo da Gama, em Porto Alegre. Aprendeu sobre alfabetização a partir do corpo e abraçou o teatro pedagógico. Começou a levar técnicas de teatro para as práticas de sala de aula. “Eu preferia muito mais entrar numa sala de aula contando uma história, fazendo uma gincana, fazendo alguma atividade artística do que indo lá no quadro escrever”, conta. Ou seja, se afastou do teatro “formal, mas não informalmente”.
Já adulta, começou a trabalhar em grupos de teatro em Viamão. Casou-se com um colega de teatro e teve dois filhos, Gustav e Jaliska. Foi um período difícil, de necessidade, com poucos recursos para criar os filhos pequenos. Caroline vendia lanches na rua, para auxiliar no sustento da família. Além das dificuldades financeiras, o relacionamento com o companheiro era abusivo e violento.
Para conseguir a separação, Caroline montou uma estratégia: sair da área artística. Em 2007, conseguiu uma bolsa do Programa Universidade para Todos (ProUni) para estudar Jornalismo, com ênfase em Gestão da Comunicação, no Centro Universitário Metodista IPA.
Um dos clientes que comprava os lanches de Caroline trabalhava no Diário de Viamão. Ao saber que ela cursava Jornalismo, conseguiu uma vaga para ela no departamento comercial do jornal, onde ficou por um ano. Trabalhou também na Revista Viamão e como assessora de imprensa na Câmara de Vereadores da cidade. Formou-se em Jornalismo, mas, nesse meio tempo, não deixou o teatro totalmente de lado: integrou o elenco de uma montagem de Alice no País das Maravilhas, a convite de um diretor com quem havia trabalhado. “Então eu tava ali no teatro, só que não adiantava e não me dava condições de sair de casa. Ainda tava com o meu ex-companheiro junto e toda aquela situação tensa”, relata.
Foi trabalhar no Jornal Correio do Povo como atendente de serviços. Ao longo de quase dez anos no veículo, trabalhou com estratégias de mercado leitor, organização de eventos e educação corporativa. “Eu passei a dar treinamento para os funcionários. E aí eu usava as técnicas de teatro pra trabalhar com os vendedores, profissionais de retenção… No fim, eu nunca me afastei do teatro e da arte”, diz.
Caroline tinha finalmente conseguido se separar do ex-companheiro e a vida estava indo adiante. Conheceu o atual marido, irmão de uma colega do Correio do Povo. Com o apoio dele, decidiu que era a hora de fazer o caminho de volta pra arte. Como estava formalmente longe do teatro há muito tempo, investiu em cursos de atualização.

Mas como a dança chegou na vida de Caroline? “Aí já é outra história”, diverte-se. “Sempre quis dançar flamenco, mas existia aquela noção de que para fazer flamenco tu tem que estar com o joelho saudável – depois eu aprendi que não era bem assim. Só que, nessa época, eu tava com obesidade grau III, pesava 140kg, tinha problema de coluna. Aí fui no médico, ele me orientou a dançar.”
Um colega sugeriu que ela experimentasse dança cigana. E lá foi Caroline. Era 2015, ela conheceu Zíngara Ponce, cigana e professora de dança cigana, e se encantou com a modalidade.
“A dança cigana pegou tudo que foi pedaço meu que tava no chão e foi colando, sabe? Eu não consigo descrever de outra forma. Parece que ela foi realmente me remontando, conseguindo trabalhar em mim essas questões de eu poder me olhar no espelho e me encarar como mulher, como pessoa corajosa que tava ali galgando seu espaço”
Caroline Garcia
Fascinada pela dança cigana e atuando no teatro, Caroline saiu do Correio do Povo. Ficou cinco anos fazendo aula com Zíngara, “até que ela me mandou embora e disse: ‘Agora tu que vai dar aula'”, diverte-se.
Resolveu abrir o próprio negócio, um estúdio de dança. No começo de 2020, pouco antes da pandemia começar, quase assinou o contrato de locação de uma sala em um shopping de Porto Alegre. Alguma coisa, que ela não sabe o que é, fez com que não assinasse. Ainda bem: em poucas semanas, chegariam a pandemia e o distanciamento social.
Caroline começou a dar aulas de dança cigana online. Foi aí que a pizzica salentina, uma modalidade pouco conhecida de dança cigana, entrou na vida dela. Viu por acaso um vídeo da modalidade nas redes sociais, começou a pesquisar e se encantou. “A principal característica da pizzica salentina é ser uma dança de alto impacto. Tem muita suspensão, muito cruzamento de passo”.
Nesse meio tempo, ela já tinha feito cirurgia bariátrica e perdido 55 kg. O corpo reagia de outra forma. “Hoje eu entendo que poderia ter feito flamenco, mas alguma coisa me levou pra dança cigana”, reflete. “A gente vê a dança cigana artística muito atrelada à rumba, à cumbia e a outros ritmos latinos. Geralmente as pessoas fazem movimentos que parecem leves, fluidos, só que, na verdade, o corpo está fazendo uma força imensa, como em qualquer outra dança. Então eu descobri uma resistência física em mim que ainda não tinha identificado.”


Em 2022, abriu o próprio negócio no Centro Histórico da cidade, que começou como um estúdio de dança e livraria (hoje, a livraria não existe mais). Decidiu também voltar para a sala de aula: além de cursar Licenciatura em Dança pela UFRGS, é graduanda em Licenciatura em Teatro na Uniasselvi.
Voltar à graduação tem sido uma experiência muito enriquecedora. Ela destaca a pluralidade e a diversidade do curso de Dança.
“Tu consegue encontrar ali gente da dança clássica, das danças populares, de tudo, porque a dança é isso. A dança é plural. Então a gente tem que viver ela de forma plural”
Caroline Garcia
Caroline é muito aberta e honesta sobre sua trajetória e as dificuldades pelas quais passou. Inclusive sobre seu primeiro casamento. Em 2020, inscreveu uma coreografia em uma mostra de dança. A sinopse dizia: “Essa coreografia é uma celebração aos 10 anos do meu divórcio”.
Ela defende que o tema dos relacionamentos abusivos precisa ser discutido. “Falar sobre isso mostra para outras mulheres que elas têm saída. A violência não é só física, existem outras tantas. E é muito comum, mais comum do que a gente pensa”, conclui.





