Crise climática avança mais rápido do que se imaginava

Meio ambiente | Enquanto as nações não atingem uma cooperação mais efetiva, relatório do IPCC alerta para a necessidade de se reduzir drasticamente as emissões dos gases de efeito estufa, o que pode ocorrer com mudanças no padrão de consumo e na matriz energética

*Foto de capa: Flávio Dutra/Arquivo JU 16 jul. 2015

A crise climática pode ser apontada hoje como a maior ameaça existencial à humanidade. Como destacou o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, divulgado no último dia 9, as mudanças em curso estão ocorrendo em uma velocidade maior do que se imaginava e são causadas pela própria ação humana. O Secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, classificou o documento como um código vermelho para a humanidade”.

O IPCC, integrado ao Sistema ONU, é o principal órgão global responsável por divulgar conhecimento científico sobre a crise climática. Em 2007, em função de sua contribuição ao debate sobre as mudanças do clima, o órgão foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz.

Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi um dos sete brasileiros que participou do documento divulgado pelo IPCC. “O relatório é feito por 234 pesquisadores de 66 países. Eu atuei num capítulo chamado Atlas, sendo responsável pela análise da América do Sul. Foram analisados mais de 14 mil artigos científicos, sendo extraídas as informações mais importantes para elaborar as afirmações que direcionam o texto”, explica.

O relatório do IPCC destaca ser “inequívoco” que a ação humana tenha “aquecido a atmosfera, o oceano e a terra”, gerando “mudanças generalizadas e rápidas” no planeta. Afirma ainda que as atuais mudanças climáticas são “sem precedentes” e, em alguns casos, “irreversíveis”.

“O relatório usou uma linguagem mais enfática, pois ficou bem evidente a atribuição da ação humana nas mudanças; concluiu-se que a ação antrópica tem uma contribuição significativa para as mudanças e a velocidade, inesperada, com que vêm ocorrendo”

Lincoln Muniz Alves

A temperatura do planeta já aqueceu cerca de 1,1º Celsius desde meados do século XIX. De acordo com o relatório, parece inevitável chegar ao aquecimento de 1,5ºC nos próximos anos, podendo inclusive igualar ou superar a marca de 2ºC, caso não haja grandes alterações, principalmente nas emissões dos gases de efeito estufa na atmosfera. Esses gases, com destaque para o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, são lançados à atmosfera sobretudo por meio da queima de combustíveis fósseis, sendo os principais responsáveis pelo superaquecimento do planeta.

“A paleoclimatologia comprovou o excepcional aumento dos três principais gases de efeito estufa desde o século XIX, provendo o registro desses gases nos últimos 800 mil anos. Assim, é possível afirmar que nunca, nesse período, a concentração desses gases esteve tão alta”, afirma Jefferson Simões, professor do Centro Polar e Climático da UFRGS.

Outro ponto crítico é o Ártico, que aquece mais rápido do que a média do planeta. “Nos próximos 30 anos, há a chance do derretimento de todo o gelo marinho do Ártico, que é a região da Terra com o aquecimento mais acelerado. Enquanto o mundo aqueceu aproximadamente 1,1ºC desde 1860, o Ártico aqueceu 3ºC”, afirma Jefferson.

Entre as consequências diretas do aumento da temperatura estão os chamados eventos climáticos extremos, como incêndios florestais, ondas de calor, furacões, chuvas torrenciais e enchentes, que aumentarão em intensidade e frequência. Além do grande estrago ambiental e estrutural que esses eventos já vêm provocando, outra consequência é o deslocamento forçado de pessoas, como lembra a professora Verônica Gonçalves, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Relações Internacionais e Meio Ambiente da UFRGS.

“Esses fluxos já estão ocorrendo, e essas pessoas precisam ser recebidas em algum lugar. Dentro das negociações internacionais, ainda há muita resistência para debater esse tema. Quando se fala nas migrações climáticas, não se fala da responsabilidade em razão das emissões que geraram essas mudanças. A realidade se impõe, e com o aumento desses fluxos, essa pauta precisa ser mais debatida”

Verônica Gonçalves
Cooperação internacional

A crise climática é motivo de debates internacionais aprofundados pelo menos desde a Conferência de Estocolmo, em 1972. Na década de 1990, o tema ganhou mais importância, com a Conferência do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, em 1992, e a assinatura do Protocolo de Kyoto, em 1997. Em 2015, ano que marcou 70 anos da ONU, foi celebrado o Acordo de Paris.

“Havia uma disputa entre países ‘desenvolvidos’ e ‘em desenvolvimento’, e em 1992 o termo ‘desenvolvimento sustentável’ aparece pela primeira vez em uma declaração internacional. Em 1997, o Protocolo de Kyoto também foi um marco, mesmo com os Estados Unidos saindo. E em 2015 tenta-se chegar em uma meta comum, principalmente para que o aumento da temperatura não supere o 1,5ºC”, explica a professora Verônica.   

Os Estados Unidos, um dos principais responsáveis pelas emissões dos gases de efeito estufa, acabou saindo também do Acordo de Paris com a postura antimultilateralismo de Donald Trump, eleito presidente em 2016.

“Não faz sentido ter um acordo do clima sem a participação dos maiores emissores, então a postura de Donald Trump atrapalhou muito as negociações do clima. Não adianta a gente fazer um acordo hoje com 190 países se não tiver China e Estados Unidos. E o Brasil também, que adotou uma postura alinhada aos Estados Unidos após 2018, o que também dificultou as negociações do clima, como na COP25”, complementa Verônica.

Em meio à crise climática, o planeta vive outra crise de alcance global, a pandemia. O termo “negacionista”, popularizado nos últimos meses em razão das pessoas que desacreditam a ciência frente ao avanço do coronavírus, já era bastante difundido para caracterizar os que se negam a acreditar nas mudanças climáticas.

“A crise climática atinge a todos, assim como o coronavírus. A pandemia nos trouxe esse exemplo, de que não adianta um país tentar resolver sozinho. Temos que pensar de forma coletiva, assim como na crise do clima”

Lincoln Muniz Alves

Verônica comenta que a pandemia poderia nos fazer repensar nossos meios de relação social, principalmente o consumo. “Mas podemos dizer que não conseguimos, pelo contrário. Nós temos o recrudescimento em determinadas áreas, com países ricos com a grande maioria das vacinas, inclusive descartando doses, enquanto os países mais pobres mal têm acesso.”

“Se a medida para solucionar a crise climática for a pandemia, não é um bom sinal”

Verônica Gonçalves
Risco Amazônia

Outro destaque importante do relatório do IPCC foi a ênfase nas mudanças climáticas regionais. Mostrando o impacto que a crise do clima terá em cada local do planeta, o instrumento contribui para negociações regionais e para o planejamento de políticas domésticas.

“Na América do Sul, entre outros processos, podemos destacar a Amazônia, com o desmatamento, o regime hidrológico que tem mudado, o impacto socioeconômico significativo, não só no Brasil, mas também em países como Peru, Colômbia e Bolívia”, ressalta Lincoln.

Em julho, a revista Nature publicou um estudo liderado por Luciana Gatti, pesquisadora do INPE. A pesquisa, realizada por onze anos, mostra que a Amazônia, degradada por desmatamento e queimadas, hoje é uma fonte de carbono, e não mais um sumidouro.

“Sumidouro é quando absorve mais CO2 do que emite à atmosfera, e fonte é quando emite mais que absorve. Desde 2016 eu já tenho certeza de que a Amazônia é uma fonte de carbono. É uma notícia estarrecedora”, explica a pesquisadora.

As florestas, atuando como sumidouros, possuem papel muito importante no combate à crise climática, retirando CO2 da atmosfera e ajudando a resfriar o planeta. As atividades realizadas na Amazônia nas últimas décadas, contudo, transformaram essa característica.

“A maior correlação que encontramos foi no que se refere às emissões de queimadas. Quando há uma queimada, o monóxido de carbono no mínimo dobra, e as áreas mais desmatadas são as que mais apresentam emissões de carbono”, complementa.

Quanto mais desmatada a área, maior também a mudança nas chuvas e o aumento de temperatura na área. Desmatar é plantar seca”

Luciana Gatti

Esse processo de queimadas e desmatamento, realizado principalmente por produtores agropecuários, também gera outras consequências graves, como a perda do corpo hídrico da região. Um levantamento de 2019 revelou que, desde a década de 1980, foram perdidos, em média, 350 kmde área coberta por ambientes aquáticos a cada ano.

“A natureza está toda interligada, é como uma fila de dominós. Se você derrubar o primeiro, gera uma reação que vai derrubando aos poucos um a um. Quando alguém diz: ‘Vou desmatar um pouco’, cria consequências, diminui a chuva, aumenta a temperatura, e ainda diminui sua própria produtividade. Existe até um termo usado hoje, o ‘agrossuicídio’.  A solução é acabar imediatamente com o desmatamento e as queimadas, principalmente na estação seca, e investir pesado em reflorestamento”, conclui Luciana.

Projeções de futuro

O relatório adverte que o aumento da temperatura continuará pelo menos até a metade deste século, haja o que houver. No pior cenário, se as emissões continuarem crescendo, estima-se que até 2100 se chegaria a um aumento de 4,4ºC, o que seria catastrófico.

Nesse cenário, a elevação do nível oceânico, em razão do derretimento das geleiras, seria de 40 centímetros na previsão mais otimista, mas poderia até triplicar, com graves consequências às regiões costeiras. Para limitar o aquecimento, é preciso reduzir drasticamente as emissões dos gases de efeito estufa, como apontado no próprio relatório. Para isso, é importante diminuir o padrão de consumo atual e modificar a matriz energética dos países, abandonando a queima de combustíveis fósseis. 

“Já sabemos da finitude dos combustíveis fósseis. Então vamos fazer uma transição energética antes, ou vamos queimar até a última gota? Se formos queimar até a última gota, os piores cenários do relatório do IPCC podem se confirmar”, afirma Verônica.  

“Precisamos, sim, diminuir o uso de combustíveis fósseis, mas também diminuir o consumo. Essa energia só é produzida e gasta em razão da demanda. Nós temos um planeta limitado, com recursos finitos, e precisamos agir de acordo”, reforça o professor Jefferson Simões.

Um dos principais objetivos da divulgação do relatório do IPCC, destaca Lincoln, é que os tomadores de decisão do mundo usem as informações para basear suas políticas públicas em relação ao meio ambiente já no presente.

“Hoje os cientistas não têm um canal de comunicação com quem está tomando as decisões no Brasil. Temos que usar a ciência para construir um futuro menos trágico para o país. É desesperador você saber tudo o que nós sabemos, assistir às decisões que estão sendo tomadas e saber que isso vai ser uma catástrofe. Às vezes eu me vejo vivendo dentro de um hospício”

Luciana Gatti

“Precisamos falar muito mais em adaptação, e não só em mitigação. Por exemplo, aqui no Rio Grande do Sul, como o estado está se adaptando? Quais são os impactos tanto físicos e biológicos quanto socioeconômicos da mudança do clima? Quanto subirá o mar na costa gaúcha? Qual será o custo em defesa costeira, urbanismo, deslocamento de pessoas? Precisamos de planejamento estratégico, no próprio Brasil como um todo, sendo um dos países com a maior extensão costeira do mundo. A única coisa que não dá para fazer é ficar em estado de negação, achando que nada vai acontecer”, finaliza Jefferson.