Disciplina obrigatória do curso de História propõe uma formação antirracista

Graduação | Ministrada conjuntamente pelos professores Fernanda da Silva, José Rivair Macedo e Marcus Vinicius Rosa, a cadeira História da África e dos Afro-brasileiros foi a primeira, entre as que tematizam a África, a tornar-se obrigatória

*Foto: Vic Macedo

“Em toda cultura nacional, na arte e até mesmo na ciência, o modo africano de viver exerceu grande influência”, cantaram Ney Lopes e Wilson Moreira no samba setentista Ao povo em forma de arte. A cada semestre acadêmico, a canção é apresentada aos estudantes de História pelos professores Fernanda da Silva, José Rivair Macedo e Marcus Vinicius Rosa. Em conjunto, eles ministram a disciplina História da África e dos Afro-brasileiros, que aborda as relações entre o Brasil e as sociedades africanas atlânticas ou, nas palavras de Marcus, “o que há de África no Brasil”.

E há muito: “Não é só uma questão de contribuição. Temos que pensar a centralidade da África para a construção do país enquanto nação”, diz o professor. Para falar dos povos Yorùbá e Adjá-fon, perpassando o tráfico transatlântico de escravizados até os movimentos negros contemporâneos no Brasil, os três docentes utilizam bibliografia diversa, em formato e autoria: canções, documentários, artigos – de Elza Soares e Abdias do Nascimento a Aimé Césaire.

“Buscamos uma diversidade de pensamentos, porque a gente entende que os lugares de enunciação refletem também na forma com que o conhecimento é produzido”, diz Fernanda. A própria formação da disciplina já adianta sua proposta: a começar que ela é ministrada, conjuntamente, por três professores. “É uma forma de demonstrar que também o conhecimento pode ser construído na base do coletivo, da complementaridade, da troca”, diz José Rivair. Em sala de aula, falam estudantes e professores. Turma em silêncio, Fernanda garante, nunca houve.

“Na coletividade, a gente vai rompendo com alguns parâmetros desse conhecimento hierárquico”

Fernanda da Silva
Disciplina antirracista

Para formar professores e historiadores preparados para tratar de História e cultura africana e afro-brasileira (cujo ensino é obrigatório na educação básica desde 2003), não basta somente falar de África na Universidade, diz José Rivair. É preciso apontar aos estudantes outros caminhos epistemológicos, calcados em distintos valores e perspectivas de mundo. “A preocupação da disciplina é buscar a diversidade e a diferença. E isso nem sempre é garantido só pelo conteúdo. É muito importante a gente distinguir objeto de conhecimento de formação cidadã. Essa disciplina tem uma preocupação com a formação cidadã antirracista”, afirma o professor.

O trio ressalta que, apesar de disciplinas focadas em História africana existirem na Universidade desde meados dos anos 1980, História da África e dos Afro-brasileiros, criada em 2018, foi a primeira delas a tornar-se obrigatória, o que é fundamental para ampliar seu alcance. “É uma disciplina que promove uma discussão e uma percepção epistemológica em relação a um todo. Ela extrapola o dado do conteúdo em si e permite refletir sobre como se constrói conhecimento, o que significa trabalhar com outras enunciações, [vindas] de corpos diversos”, diz Fernanda.

Yuri Camejo, que foi aluno de Fernanda, José Rivair e Marcus no último semestre letivo, aponta: “É uma disciplina que ajuda a gente [os estudantes] a perspectivar como as relações étnico-raciais estão sendo pautadas hoje em dia. Ter cadeiras que voltam o olhar, o lugar epistemológico para outras perspectivas, é necessário. Ainda mais no nosso curso”.

Para os docentes, o que fica de História da África e dos Afro-brasileiros para os estudantes não é um dado ou uma bibliografia, mas um outro olhar.

“É uma disciplina que faz os alunos refletirem sobre o próprio curso de História”

Marcus Vinicius Rosa

Yuri concorda: “Não é uma disciplina que se encerra em si mesma”.


Especial África

As imagens desta edição foram feitas por Vic Macedo. A partir de um capítulo trágico da história do continente africano, Vic aborda os atos de suicídios dos cativos durante o período do tráfico negreiro— não como sinal de fraqueza, mas como ato de insubmissão e resistência ao trabalho escravo.

Vitória Macedo (Porto Alegre, 1994) é artista visual e graduada em Fotografia pela Unisinos. Clique aqui e confira o ensaio completo que ilustra o Especial África do JU.