Artigo | Karen Dufloth de Almeida, da Geografia, apresenta estudo sobre como a constituição da cidade impacta o comportamento de temperatura, umidade e circulação do ar
*Ilustração: Gabriele Taís Anezi/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
As consequências das mudanças climáticas vêm aumentando gradualmente, e a vulnerabilidade das cidades, frente aos eventos extremos cada vez mais frequentes, tem se destacado nos últimos anos. No início de fevereiro, a cidade de Quaraí, no Rio Grande do Sul, apresentou a terceira maior temperatura na série histórica, registrando 45,2°C. Cerca de duas semanas após essa onda de calor sobre o estado, uma forte tempestade atingiu a região metropolitana de Porto Alegre e o Litoral Norte com ventos de 140 km/h, causando danos e prejuízos em várias cidades. Osório e Imbé foram as mais atingidas. Além disso, é essencial citar as enchentes ocorridas em maio de 2024, quando diversas cidades foram atingidas pelo evento extremo de precipitação, categorizado como uma das maiores catástrofes climáticas do estado desde a enchente de 1941.
Frente a esse cenário, é necessário que os planejadores urbanos e os responsáveis pela administração pública estejam atentos aos impactos das mudanças climáticas na escala da cidade, para que os efeitos dessa crise sejam levados em consideração em momentos de tomadas de decisão e principalmente na autorização de novos empreendimentos.
Uma pesquisa do curso de Geografia do Câmpus Litoral Norte da UFRGS buscou compreender como a verticalização pode estar alterando os elementos climáticos e, consequentemente, a habitabilidade desses ambientes. Para avaliar tais alterações, foram realizadas medições manuais de temperatura e umidade relativa do ar e de direção e velocidade do vento no bairro Centro de Tramandaí, em uma rua com um gradiente de verticalização ao longo da sua extensão.
As medições foram realizadas nos meses de outubro e novembro de 2024, sempre às 15 horas, em dias com diferentes condições do tempo. Além disso, também foram adquiridas fotografias hemisféricas do céu acima dos pontos de coleta de dados para avaliar a obstrução causada pelas edificações existentes ao longo da via. A obstrução do céu pode afetar tanto a entrada de radiação solar direta quanto a saída de radiação infravermelha emitida pelas superfícies aquecidas, bem como modificar os padrões de circulação do ar.
O comportamento da temperatura do ar no espaço intraurbano da cidade se demonstrou inversamente relacionado à obstrução do céu, pois, à medida que a entrada de luz era condicionada pela presença de altos edifícios, a temperatura diminuía (Gráfico 1).

No entanto, é importante considerar que esse cenário se modifica ao longo do ano devido à variação no ângulo de incidência dos raios solares. No verão, quando a incidência solar é quase vertical e os dias se tornam mais longos, o bloqueio da entrada de luz solar pelas edificações é menor e, assim, a redução da temperatura nos locais com maior obstrução do céu pode ser diferente do observado na primavera. O efeito das construções nesse caso pode até ser o oposto: a radiação infravermelha que deveria ser liberada durante o período da noite pode acabar sendo mais retida pelas estruturas, dificultando o resfriamento da superfície e, assim, criando condições para a formação de ilhas de calor (Figura 1).

A cidade de Santos, no litoral de São Paulo, por exemplo, sofre com esse fenômeno agravado pelas grandes construções à beira da praia, que impedem a passagem dos ventos e o resfriamento da cidade a partir do fluxo de ar advindo do Oceano Atlântico.
No caso de Tramandaí, com a diminuição da temperatura, foi constatado o aumento da umidade relativa do ar. Isso ocorre devido à redução na capacidade higrométrica do ar, sendo necessária uma menor quantidade de massa de vapor d’água para que ele atinja a saturação. Assim, à medida que a temperatura do ar cai, a umidade relativa aumenta. Em pontos de coleta altamente verticalizados, a umidade relativa do ar chegou a aumentar quase 40% em comparação com locais onde predominam construções baixas.
Outro importante elemento que impacta diretamente o conforto térmico na cidade é a circulação do ar no espaço intraurbano. Apesar de o vento possibilitar o resfriamento a partir da renovação do ar sobre a superfície, o seu aproveitamento acaba sendo limitado devido ao condicionamento do movimento do ar pelas edificações.
Apesar do predomínio do vento “Nordestão”, característico da costa do Rio Grande do Sul, a circulação do ar no centro da cidade se mostrou altamente perturbada, com mudanças súbitas na direção do vento, aceleração ou desaceleração do fluxo de ar e turbulências (Gráfico 2).

Esse comportamento caótico do vento na cidade de Tramandaí pode propiciar a ocorrência de destelhamentos e danos a algumas estruturas urbanas, como ocorreu várias vezes no hospital municipal, por exemplo. Com o provável aumento no surgimento de ciclones devido ao aquecimento da superfície do oceano, é importante que a gestão pública considere os caminhos do vento que estão sendo criados para que, em uma futura Tramandaí mais adensada, a canalização do vento não seja intensificada, como a que já ocorre em menor intensidade em algumas porções do centro.
Ainda há poucos estudos do clima urbano em cidades médias e pequenas no Brasil, porém esse é um tema que tem se tornado cada vez mais relevante. No contexto de crise climática mundial, é crucial que esses aspectos sejam levados em consideração no desenvolvimento das cidades para que sejam minimizados os seus impactos. Além disso, o planejamento também pode resultar em economia de recursos energéticos a longo prazo, reduzindo a necessidade de manutenção mecanizada das condições de conforto térmico nas habitações e em outros espaços construídos.
Karen Dufloth de Almeida é formada no curso de Licenciatura em Geografia no Câmpus Litoral Norte da UFRGS e possui graduação no curso de Bacharelado Interdisciplinar em Ciências e Tecnologia, também da UFRGS.
O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado pelo professor Eliseu José Weber.





