Elisa e Moacir: conversar e dar risada com os colegas

UNAPI | Enquanto os encontros presenciais não retornam, eles contam da alegria que é poder fazer coisas diferentes e se divertir com colegas e professores da Universidade Aberta para Pessoas Idosas

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Dar risada e conversar com as colegas e os colegas é do que mais o casal Elisa Maia e Moacir Maia sentem saudades da UFRGS. Há cinco anos eles são alunos da Universidade para Pessoas Idosas (UNAPI), projeto parceiro do Centro Cultural da instituição. Foi o filho mais velho que os incentivou a participar da seleção, destacando que ali eles desfrutariam de atividades especialmente direcionadas à faixa etária deles. Convencidos, logo se inscreveram e foram aprovados. E foi a filha caçula que assessorou os pais na gravação em vídeo desta entrevista, concedida conjuntamente ao JU e à UFRGSTV.

Moacir diz que sente falta até mesmo do deslocamento da casa onde moram, na zona norte de Porto Alegre, até a UNAPI, próxima ao prédio da reitoria, no centro da cidade. Deslocamento que dura cerca de duas horas em ônibus de linha. Esse percurso também é importante para Elisa.

“Sinto muita falta de sair, ver coisas, conversar com as pessoas. A gente fica mais alegre. São essas coisas de que sinto muita falta, de estar junto lá”

Elisa Maia

Ela menciona especialmente a professora Tatiana Muller, a quem descreve como sendo uma pessoa muito alegre e divertida, e acentua: “Isso faz bem pra gente”. 

Pra amenizar um pouco o afastamento das atividades do curso Natureza e Saúde – interrompido pela pandemia –, o casal se dedica a cuidar dos jardins e canteiros no pátio de sua casa. Ali eles replantaram algumas mudas que trouxeram do curso. Um desses chás eles batizaram de pronto alívio, pois não recordam a denominação original – Elisa diz que se assemelha à hortelã e que tem um aroma muito agradável. “Ele é bom pras vias aéreas; tomo sempre no chimarrão ou faço chazinho de noite. É muito gostoso.”

Mas a planta, assegura a aluna da UNAPI, é apenas uma das tantas existentes no canteiro perto do Instituto de Psicologia, prédio onde assistiam às aulas. Para Elisa, esse é um cantinho especial do qual recorda com carinho. Ela guarda na memória o dia em que foram visitar o canteiro pela primeira vez e comenta como tudo era muito bem organizado, com diferentes espécies de chás para variados usos. Depois regressaram várias vezes para regar as plantas, limpar, inserir novas mudas. Até mesmo nas férias alguém da turma ficava de ir até lá para manter as regas. Mas como agora isso não dá pra ser feito, Elisa se preocupa. “Ficou tudo abandonado porque a gente não foi mais lá. Veio a pandemia e essa história toda. Então ele deve estar seco e esturricado”, imagina. 

Moacir fala pouco, mas, atento a cada palavra da esposa, assente com a cabeça quando ela descreve as atividades das quais participam na Universidade, compartilhando do mesmo sentimento de falta que tais ocupações fazem às suas vidas. No jardim de casa é ele quem faz a parte mais pesada, que é cavar e abrir os buracos maiores para as plantações. “A gente faz muda pros outros também – chegam aqui e querem levar”, comenta dando uma breve risada. “Dá saudade, a gente sente falta”, acrescenta.

O bar do Antônio ou o da Arquitetura são outras referências na saudades deles da UFRGS presencial. Mesmo cuidadoso com as limitações da dieta, Moacir confessa que é difícil resistir. “De vez em quando eu pegava uma guloseima.” Escapadinhas sempre observadas por dona Elisa. “Ele se cuidava, mas de vez em quando eu tinha que ficar de olho nele senão comia tudo que era bom lá, e não podia”, revela a esposa. E os dois riem juntos.  

Além de participarem de atividades da UNAPI, Elisa e Moacir reformam roupas, sapatos e brinquedos para uma ONG de apoio a crianças em situação de vulnerabilidade (Fotos: Flávio Dutra/JU)
Contato possível

Para ambos, não fossem os grupos de colegas no whatsapp, o afastamento seria ainda maior. Elisa comenta que esses espaços de conversa são uma forma de permanecer em contato, trocar ideias e dar risada. “A gente conta piada, elas mostram as plantações delas, as flores.” Para ela, essa troca de mensagens ajuda a atenuar o sentimento de afastamento tão prolongado. “Então a gente faz uma coisa e outra, mostra os netos. Sabe?”, conta. Durante o isolamento eles continuam mantendo contato com o UNAPI por meio dos espaços virtuais, assistindo a palestras às segundas-feiras. Elisa lamenta, entretanto, que existem outras atividades promovidas pela Universidade que eles não estão conseguindo acessar, que compreendem cursos de jardinagem e de leitura, entre outros. 

Além dessas atividades, em três dias da semana, das 17h às 18h, eles fazem ginástica com o grupo do Centro de Estudos de Lazer e Atividade Física do Idoso (Celari), programa da UFRGS para pessoas com mais de 60 anos, visando à manutenção das atividades saudáveis na rotina diária. “Não estamos sem fazer exercícios. Eu me arrumo, coloco tênis, fico toda prontinha”, descreve Elisa. “Essas atividades são muito importantes pra nós”, reforça Moacir.

“A gente não pode andar por aí, só sai quando é necessário, mas quando tem essas atividades a coisa é diferente”

Moacir Maia

Antes a pandemia, os encontros presenciais aconteciam duas vezes por semana, às segundas e quintas-feiras. Além das palestras havia também oficinas e produção de artesanato. Nessas ocasiões, era comum trocarem tecidos entre as participantes para que cada uma tivesse resultados mais diversificados em suas confecções. Elisa conta que certa vez costuraram saquinhos para colocar chás aromatizantes e distribuíram em atividades da Universidade. “No Salão de Extensão, fizemos plaquinhas com dizeres”, ilustra Moacir.   

Depois que o isolamento passar

Quando as atividades presenciais retornarem, Elisa diz que a primeira coisa que vai fazer é conversar e brincar com as colegas. Moacir diz que vai querer trocar ideias com todos que rever. 

“Eu espero que depois dessa pandemia a gente possa seguir como era antes: seguir as aulas, ter os encontros, passeios, conversar, ter o canteiro lá à disposição pra gente poder trabalhar”

Elisa Maia

Elisa conta que sempre gostou da UFRGS, por isso queria que seus quatro filhos estudassem na instituição. Todos passaram e fizeram seus cursos, e nos últimos anos ela e o marido têm desfrutado desse contato. Moacir espera que projetos como a UNAPI  não sejam cancelados nos próximos anos. “Bate na madeira”, Elisa diz pro marido, espantando qualquer possibilidade de eles não poderem mais regressar aos seus encontros na Universidade depois que o isolamento social terminar.

A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto do JU e da UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: