Em que prateleira estão as plantas nativas?

Botânica | Especialistas destacam que é necessária uma mudança cultural para que a flora nativa do Rio Grande do Sul tenha mais protagonismo no mercado e esteja mais presente nas floriculturas e residências

*Foto: Ana Terra Firmino/Ju – Brinco-de-princesa (Fucshia regia), considerada
por um decreto estadual de 1998 a flor símbolo do do Rio Grande do Sul

O ditado popular “A beleza está nos olhos de quem vê” pode ajudar a explicar o que é uma planta ornamental. Desde que possa ser cultivada em ambiente interno, qualquer planta tem potencial para ser ornamental; basta possuir alguma característica de destaque, que chame a atenção do cliente na floricultura ou na feira. A subjetividade da beleza é o que impulsiona a diversidade; enquanto alguns preferem as espécies com flores coloridas, como as minirrosas (Rosa chinesis), outros optam pelas “plantas verdes”, tal como a espada-de-são-jorge (Dracaena trifasciata).

Há vários fatores que moldam o gosto dos clientes e guiam suas compras. Muitas vezes é apenas a aparência, mas existem aqueles que chegam na floricultura com espécies específicas em mente, pois viram na casa de um amigo e gostaram, ou possuem uma memória afetiva da infância ligada a determinada planta. Também existem os colecionadores, que se apaixonam por certo grupo, como as orquídeas, e estão sempre procurando variações para ampliar sua coleção. 

Devido a esses fatores, algumas espécies já se estabeleceram no mercado e podem ser encontradas na grande maioria das casas daqueles que têm o cultivo como hobby. As tendências também são um fator importante – sim, também há plantas que estão “na moda” –, mas o fato é que dificilmente se encontram plantas nativas do Rio Grande do Sul à venda nas floriculturas. Apesar da grande biodiversidade brasileira, muitas flores e plantas que vemos no nosso dia a dia vêm de outros lugares, como a peônia (Paeonia), que, mesmo sendo típica de zonas frias, é amplamente vendida no país.

Interesses dos consumidores e as plantas nativas

Cada planta tem sua individualidade e deve ser cuidada de uma forma específica, porém algumas regras gerais facilitam o cuidado e são disseminadas até por aqueles que não são especialistas no assunto. Quando o cultivo é feito dentro de casa, são mais indicadas as plantas de sombra, que, como requerem apenas luz indireta e não precisam estar expostas ao sol, podem ficar em quartos, cozinhas e salas de estar que tenham janelas e certa luminosidade. Dentre as mais comuns, podemos citar o ciclame (Cyclamen persicum) e a samambaia (Polypodium persicifolium), que podem ser encontradas na maioria das floriculturas.

O fato de uma espécie ser ou não nativa não é uma preocupação comum da maioria dos clientes das floriculturas, que costumam atentar mais para as questões relacionadas ao cultivo da planta. “As pessoas querem saber como elas vão fazer para que a planta não morra, como regar e cuidar”, diz Taiane Rodrigues, bióloga e dona da floricultura Ave do Paraíso há 18 anos. A bióloga acredita que isso se dá devido à falta de educação ambiental – principalmente na escola, que, segundo ela, tem pouco foco na botânica, apesar da natureza de nosso país. 

Trazendo esse tópico à ótica do Rio Grande do Sul, podemos observar que poucas das plantas comercializadas para cultivo dentro de casa são originárias do nosso estado. Isso se dá, principalmente, pela natureza dos nossos biomas. O Pampa, bioma exclusivo do território gaúcho quando se trata do âmbito nacional, ocupa 63% do estado e é caracterizado por plantas herbáceas, arbustos e árvores de pequeno porte, que necessitam de mais sol e não são propícias para cultivo dentro de casa.

Uma das possibilidades nativas para cultivo dentro de casa é o brinco-de-princesa (Fucshia regia) – que, inclusive, é a flor símbolo do Rio Grande do Sul. A espécie nativa da mata atlântica recebe esse nome devido a sua semelhança com brincos e se caracteriza pela beleza e adaptabilidade, resistindo até ao frio e a geada do inverno gaúcho. Apesar de florescer ao longo de todo o ano, o brinco-de-princesa costuma estar mais cheio na primavera e no verão, e é muito visitada por beija-flores no seu período de floração. A planta pode ser cultivada dentro de casa, desde que fique perto de uma janela e fique no sol por algumas horas ao dia.

Questão cultural e as plantas regionais

É importante compreender também o processo necessário para que uma planta saia de seu habitat na natureza e seja difundida comercialmente. Dentre esses fatores, é preciso entender como a planta se comporta em cultivo, se produz sementes para se propagar e quanta luminosidade deve receber. Além disso, é ilegal coletar plantas da natureza para exploração comercial, portanto há procedimentos legais que precedem a inserção de uma espécie no mercado.

“Sempre você deve levar em consideração onde a planta surgiu e para o que ela está apta”, explica Gilmar Schafer, professor da Faculdade de Agronomia na UFRGS e pesquisador da área de Floricultura. Segundo ele, também é importante que as plantas apresentem um valor econômico, atraindo de alguma forma o mercado, para que se inicie o processo de produção.

Essa mudança cultural é um processo lento, que dificilmente partirá do consumidor. “O profissional da área do paisagismo tem uma responsabilidade muito grande nesse sentido”, enfatiza Sérgio Tomasini, professor da Faculdade de Agronomia da UFRGS. Caso os paisagistas ampliem o uso de plantas nativas do Rio Grande do Sul em seus projetos, o que resulta em compras em grandes quantidades de determinadas espécies, isso chama a atenção do mercado e auxilia na mudança cultural da população.

“Se há uma atenção da população para as plantas nativas, e uma demanda, o mercado terá que se adaptar e aumentar sua oferta”, complementa Gilmar. Um exemplo é o Parque Urbano da Orla do Guaíba, projeto que tem como um dos eixos a reintrodução de espécies nativas.

O uso de espécies locais é importante não apenas pela valorização da flora regional, mas também para a preservação de espécies. O bioma Pampa vem sofrendo com o aumento do desmatamento e o crescimento das lavouras de soja, o que é prejudicial para a vegetação nativa. 

“Quer conservar uma espécie, dê valor econômico a ela”

Gilmar Schafer

A transformação cultural é um movimento constante, e é vital que o conhecimento sobre as plantas regionais seja disseminado entre a população para que o mercado seja compelido a aderir aos produtos locais. Afinal, como dizia o paisagista Roberto Burle Marx, “um jardim é uma natureza organizada pelo homem e para o homem”.