Entre luzes e tensões: o labirinto emocional do final de ano

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Bem-estar | A psiquiatra Carolina M. Moser identifica os principais geradores de estresse no mês de dezembro e aponta algumas formas de mitigar o sofrimento nesse período desafiador

*Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU

O fim do ano é, para muitos, um período paradoxal. As luzes natalinas e as celebrações emolduram um cenário de alegria e comunhão, mas, por trás dessa fachada festiva, grande parte da população enfrenta o que especialistas têm chamado de “estresse de final de ano”. Reflexo do ritmo acelerado e das expectativas crescentes da vida moderna, o fenômeno representa uma combinação de sobrecarga emocional, fadiga física e pressão social que se intensificam nas semanas que antecedem o término do calendário.

De fato, o período de final de ano carrega consigo um acúmulo de demandas que vão desde obrigações profissionais até compromissos familiares, acabando por exigir um ritmo frenético. No âmbito do trabalho, a prática de encerrar projetos, realizar balanços e cumprir prazos contribui para a sensação de urgência que permeia os meses de novembro e dezembro. Em paralelo, o planejamento de festas e reuniões, a compra de presentes e a gestão financeira criam um fardo adicional, sobretudo em contextos socioeconômicos desafiadores.

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Foto: Flávio Dutra/JU

É nesta época do ano que convergem com mais intensidade três dos principais fatores desencadeantes da resposta de estresse, segundo a especialista Sonia Lupien, da Universidade de Montreal (1): novidade, imprevisibilidade e sensação de falta de controle. Nesse sentido, a necessidade de lidar simultaneamente com eventos atípicos, mudanças abruptas de rotina e múltiplas demandas soma-se à pressão do que nos é apresentado nas redes sociais. Imagens e vídeos em alta definição e apenas nos melhores ângulos – quando não milimetricamente retocados com algum filtro ou photoshop – potencializam a sensação de estarmos aquém de uma realidade que, muitas vezes, nem sequer existe.

Por uma comparação desleal com a vida fora das telas, especialmente quando o final de um ciclo se aproxima, somos tomados por inevitável sentimento de frustração. Entre aqueles que enfrentam dificuldades financeiras ou emocionais, essas comparações podem intensificar sentimentos de inadequação ou fracasso. De acordo com estudos da relação humana com a tecnologia, a professora Sherry Turkle (2), do Massachusetts Institute of Technology (MIT), destaca que as redes sociais ampliam a pressão para “viver de acordo com um ideal”. No contexto do final de ano, isso significa parecer feliz e bem-sucedido, mesmo que a realidade interior de muitos indivíduos seja marcada por ansiedade e exaustão.

Além das demandas externas, o final de ano é um momento de reencontros familiares, que podem tanto proporcionar instantes de afeto quanto gerar tensões. Para algumas pessoas, essas reuniões evocam memórias difíceis ou conflitos interpessoais mal resolvidos, resultando em estresse adicional.

Cabe aqui considerar a noção de “dissonância emocional”, descrita pelo psicólogo Arlie Hochschild (3), que ocorre quando os indivíduos são forçados a exibir emoções que não correspondem ao que realmente sentem. O esforço para aparentar felicidade em reuniões familiares, mesmo em meio a desentendimentos ou desconforto, costuma amplificar o desgaste psicológico.

Felizmente, existem abordagens baseadas em evidências que podem mitigar o estresse de final de ano. A prática da atenção plena (mindfulness), por exemplo, tem-se mostrado eficaz na redução da ansiedade e no aumento da resiliência emocional (4). Pesquisas já revelaram que meditações diárias de poucos minutos podem ajudar as pessoas a cultivarem uma atitude mais consciente e menos reativa diante das demandas (5).

Outra estratégia que pode ser aplicada consiste em priorizar o autocuidado e reavaliar expectativas. É essencial compreender que nem tudo precisa ser perfeito e que estabelecer limites claros pode preservar o bem-estar mental. Compartilhar responsabilidades com familiares ou colegas de trabalho também pode aliviar a sobrecarga, transformando as tarefas de final de ano em experiências colaborativas.

Embora os desafios sejam reais, a busca por equilíbrio, a redefinição de prioridades e a prática do autocuidado podem transformar esse período em uma experiência mais leve e significativa, centrada no propósito intrínseco das celebrações de final de ano: conexão, gratidão e renovação. Em meio ao frenesi, resgatar o significado simbólico desse período pode ajudar a redirecionar o foco para o que realmente importa. Em vez de ceder à pressão do consumo ou às expectativas sociais, pequenos gestos de generosidade e momentos autênticos de convivência podem trazer mais satisfação do que qualquer lista de tarefas cumprida.


Carolina M. Moser é médica psiquiatra e atua na Divisão de Promoção da Saúde (DPS/Progesp).

Quinzenalmente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre nutrição, saúde, cotidiano e outros temas ligados a bem-estar. A seção tem curadoria de Fabiana Tanabe e Stéfani Schneider.


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