Epistemicídio e o apagamento estrutural do conhecimento africano

Filosofia | Pesquisadores defendem que o processo de morte simbólica dos corpos de pensamento originados na África é resultado de uma sociedade que supervaloriza os ideais ocidentais

Foto de capa: Leonardo Savaris/Arquivo pessoal 03 dez. 2015)

Epistemicídio é um termo criado pelo sociólogo e estudioso das epistemologias do Sul Global, Boaventura de Sousa Santos, para explicar o processo de invisibilização e ocultação das contribuições culturais e sociais não assimiladas pelo ‘saber’ ocidental. Esse processo é fruto de uma estrutura social fundada no colonialismo europeu e no contexto de dominação imperialista da Europa sobre esses povos. Para Alan Alves Brito, professor no Instituto de Física e pesquisador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Indígenas e Africanos, as estruturas opressoras formadas pela colonização do pensamento exterminam os corpos de pensamento africanos.

Raquel da Silva Silveira, coordenadora-geral do Núcleo de Extensão e Pesquisas Antirracistas da Psicologia (Neparpsi), pontua que as relações raciais também produzem a inferiorização do conhecimento africano, constituindo-se, a partir daí, uma violência intelectual. “No genocídio, efetivamente, na morte física, mas também na morte simbólica”, completa. Sendo assim, deve-se enxergar o racismo não somente no campo individual, mas como uma estrutura organizacional da sociedade. A estudante de Fonoaudiologia e voluntária do Neparpsi, Letícia Ludovico, observa: “Todos esses campos estruturais, que fazem que a gente exista enquanto sociedade, estão intrinsecamente ligados ao racismo”.

Mais do que utilizarmos produtos do conhecimento ocidental, somos, portanto, continuamente condicionados a ele a partir de potentes órgãos institucionais, como a escola e a igreja, que formam uma montagem estrutural difícil de ser desfeita. José Rivair Macedo, docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, diz que a resolução para a questão é o estudo das formas de pensar sob uma ótica diferente, reconhecendo a falsa universalidade do conhecimento ocidental. 

“São diferentes formas de humanidade, só que uma forma de pensar a humanidade pretende a universalidade e, ao pretender essa universalidade, ela acaba impondo parâmetros a partir de seus referenciais, como se seus referenciais pudessem ser válidos para outros. Esse é o problema”

José Rivair Macedo

Para que se possa avançar no sentido de decolonizar nosso pensamento, Alan propõe que repensemos a história sob novos referenciais ontológicos e epistemológicos e levemos em conta as humanidades que o projeto de modernidade desumanizou. Raquel concorda ao citar o filósofo africano Kabenguele Munanga, que falava em favor do reconhecimento de diferentes pensamentos: “Para que a vida prospere, ela precisa ser múltipla, precisa ter muita diversidade. Se vier um vírus, mata tudo se for todo mundo igual, então tu precisa de árvores diferentes, flores diferentes, pessoas diferentes”.

Novas perspectivas na História e Filosofia

Com a construção da sociedade sendo fundada em conceitos ocidentais, até as mais específicas áreas do conhecimento se tornam unilaterais e obedecem à ordem da ideia europeia hegemônica. Mateus Victória da Silva, estudante de Psicologia e bolsista do Neparpsi, destaca a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que fala sobre a perspectiva da História única. Mateus completa: “Quando a gente só tem uma perspectiva, um lado da História, a gente acaba conhecendo o mundo de maneira estereotipada, muito preconceituosa e, no nosso caso, que vivemos em uma sociedade de supremacia branca, isso quer dizer conhecer o mundo a partir da Europa”.

Na História, para acessar novas perspectivas, temos de reconhecer a construção das narrativas e de onde elas provêm. Por isso, José Rivair frisa que a questão colocada pela educação das relações étnico-raciais em ensino de História Africana e Afro-Brasileira é uma questão epistemológica, na medida em que se está procurando incentivar outras formas de acesso ao mundo africano presente entre nós. “Os africanos não ficaram isentos da dominação ideológica do período colonial. Então, muitas vezes, inclusive no Brasil, a nossa preocupação é uma aproximação com sociedades africanas tradicionais anteriores ao período colonial na África. E essas perspectivas tradicionais podem ser o referencial que estamos pensando aqui. E se assim o é. O problema não diz respeito a conteúdo, mas ao modo de estudar, e o que considerar como saber, valor civilizatório e conhecimento”, complementa.

O docente ainda observa que, no processo histórico, os africanos foram tomados como objetos de estudo e interpretação, e que, agora, passaram a lutar por sua autodeterminação, reivindicando o domínio sobre a expressão de sua subjetividade. 

Na Filosofia, entretanto, ainda não há um consenso. O historiador frisa que a própria palavra ‘filosofia’ e seu significado já estão ligados a uma perspectiva europeia. Sendo assim, há grupos de pesquisa que preconizam um afroperspectivismo – assim chamado pelo filósofo brasileiro Renato Nogueira – e buscam o estudo de pensadores africanos anteriores à Grécia Antiga. “Sábios egípcios, embora não recebam o nome de filósofos, no sentido de que a palavra filosofia é posterior, desempenhavam esse papel e influenciaram, inclusive, o pensamento grego.”

Porém, para José Rivair, temos diferentes formas de pensar em uma ‘Filosofia Africana’ a partir do momento em que textos são produzidos no continente, mas alguns utilizando o estudo da Filosofia Ocidental como base. O filósofo costa-marfinense Paulin J. Hountondji propõe que a Filosofia Africana é um conjunto de textos e, por extensão, os autores desses textos, ou seja, que os estudiosos não precisam estar lidando com temáticas do continente para serem filósofos. Aí nasce o debate sobre a própria natureza da Filosofia. 

“Os autores africanos percebem que o conceito de ‘filosofia’ ou de ‘pensamento ocidental’, baseado na razão instrumental e no individualismo, não é suficiente para dar conta de questões que são estruturalmente diferentes no continente africano. Então quando eles contestam é porque a própria palavra ‘filosofia’ e a própria ideia de filosofia é limitada para expressar questões que estão colocadas em uma forma de pensamento que não dá conta de indivíduos, mas de coletivos”

José Rivair Macedo

A partir daí, muitos negam a existência da Filosofia Africana, inclusive autores e filósofos africanos, dizendo que, no máximo, poderia se caracterizar como uma etno-filosofia. Alan discorda disso ao sinalizar a assimilação da narrativa de dominação ocidental e de como isso leva até mesmo os pensadores africanos a negarem a potência do continente. “O projeto ocidental de modernidade, o tempo inteiro, tenta colocar o continente africano, as pessoas africanas e negras, como inferiores intelectualmente, como incapazes de autorreflexão, de autocrítica, de criar um sistema robusto de pensamento, como é uma filosofia.”

“A gente precisa viver a vida com pensamento; então, você vive a vida com pensamento a partir de uma única perspectiva, que é essa perspectiva eurocentrada do ’penso, logo existo’. Quando englobo a cultura africana, eu rompo com isso, porque toda essa filosofia, esse pensamento, o modo de vida do continente africano nas várias etnias, línguas, nessa diversidade que tá ali, vai muito além do pensar para existir. É um outro projeto civilizatório, é um outro marco, ubuntu, eu sou porque nós somos.”

Alan Alves Brito
Foto: Leonardo Savaris/Arquivo pessoal
A libertação da Psicologia e os impactos na subjetividade do negro

Martinbaró é um pensador e precursor da Psicologia de Libertação, que diz que temos urgência de libertar a Psicologia de suas amarras imperiais e, assim, abrir caminho para que outras psicologias sejam produzidas, como as culturas locais originárias milenares, abrir para o diálogo entre diferentes visões de mundo. Simone Gibran Nogueira, doutora no Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisadora sobre Psicologia Africana, ressalta a importância de uma descolonização da Psicologia, deixando de vê-la como uma ciência euro-americana. 

Simone explica que há três vertentes de uma Psicologia Negra, com a primeira tratando do indivíduo negro a partir de perspectivas euro-americanas. A segunda passa a olhar para o grupo social das pessoas negras e para a opressão social e racial histórica que sofrem, o impacto do racismo na subjetividade desse grupo social, mas ainda usando as mesmas referências. Na terceira, encontramos novamente a ideia de grupo social, contudo, dessa vez, com bases teóricas e epistemológicas fundadas em culturas tradicionais milenares africanas. Simone, entretanto, admite, em comparação às outras bases teóricas, que o estudo sobre Psicologia Africana ainda é muito parco, sobretudo no Brasil. 

Nesse processo, o estudo da psique também se torna unilateral, não atendendo às especificidades étnico-raciais impostas na sociedade. Mateus revela que nunca havia considerado o estudo da Psicologia a partir de vertentes africanas, enquanto Raquel conta que ainda não há muitas pesquisas em relação a isso na UFRGS, mas que, com a implantação da Lei de Cotas, aconteceram mudanças: “A entrada dos estudantes negros vai tensionar isso completamente dentro da sala de aula, porque eles vão dizer: ‘Opa, o que vocês estão falando aí? Que psiquismo é esse? Cadê o sofrimento do racismo?'”.

Pensando em questões como essa, o Neparpsi foi criado, promovendo mais debates com essa questão. Um dos principais projetos é o Afroconto e outros contos, em que há a contação de histórias com personagens negros e narrativas da África, além da temática do capacitismo que também é abordado. Para Letícia, projetos como esse trabalham diretamente na construção social da criança: “A gente pode lembrar de Chimamanda, que ela, lá na Nigéria, na sua cidade, onde nunca viu neve, o sonho era ver neve, o sonho era ser uma princesa branca, ter o cabelo liso. Olha o impacto na subjetividade dessa criança.” 

Simone frisa que, nesse processo e na hierarquia racial de desumanização, há o desenvolvimento de um complexo de inferioridade, quadro em que o negro cresce rejeitando a si mesmo. 

“No ímpeto de tentar se tornar humano, é imposto esse ideal de branquitude. Então, a pessoa acaba não se aceitando como negra e tem o ímpeto de buscar o desejo da branquitude. Com certeza, se a gente retomar as bases humanas da Psicologia pelo reconhecimento da perspectiva africana e de todos os outros povos milenares, a gente pode contribuir para a correção desses erros, que estão regendo a nossa vida cotidiana hoje, nossas relações étnico-raciais”

Simone Gibran Nogueira

Ao compartilhar seu processo pessoal, Alan conta que, na primeira vez em que entrou em contato com a cultura Iorubá, se viu representado. “Eu me vejo ali, eu vejo a maneira como fui criado, a relação com ‘mainha’, com os vizinhos, as coisas que a gente dizia, que os mais velhos me falavam”, relata, ao assumir que se sente roubado de sua própria cultura e ao pensar o quanto ter acesso a ela poderia mudar a realidade de diversos jovens pretos e pretas brasileiros. 

Os efeitos de uma sociedade baseada em símbolos ocidentais e com uma estrutura racista vão muito além do que se possa imaginar, com marcas deixadas na individualidade de cada pessoa, mas também dentro de um coletivo. Por isso, não podemos continuar com o processo de supervalorização do que vem da Europa e dos Estados Unidos como único conhecimento válido. Simone reafirma a importância de compreender que a África produz História, cultura e conhecimento. “Reconhecer isso e lidar com essa diversidade, em diálogo, no encontro e no conflito também.” 


Especial África

As imagens desta edição foram feitas por Leonardo Savaris entre 2015 e 2019, mostrando aspectos da experiência e da vida de senegaleses em Porto Alegre. São manifestações culturais, festas religiosas e celebrações registradas pelo fotógrafo, documentando parte da cultura trazida por esses novos imigrantes do século XXI.

Leonardo Savaris é formado em Fotografia pela Unisinos. Trabalha principalmente com questões sociais e documentação da vida cotidiana. Seus trabalhos podem ser vistos em leonardosavaris.com.br.