Artigo | Enéas Konzen, Marcos Siqueira e Pedro Galetti apresentam obra que aborda o estudo das variações genéticas com exemplos de espécies ligadas à realidade da América Latina
*Ilustração: Bibistriz/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
Aprender genética, a ciência que estuda a hereditariedade, pode não ser uma tarefa simples para iniciantes e aspirantes a esse campo do conhecimento. Em cursos de Ciências Biológicas e afins, disciplinas da área de genética frequentemente são consideradas complexas, pois envolvem muito raciocínio lógico, além de conhecimentos sobre biologia celular e molecular, bioquímica, matemática e estatística. Especificamente, o campo da genética de populações estuda o comportamento da variação genética em populações (isto é, o conjunto de indivíduos de uma mesma espécie e que vive em determinada região), ou seja, aquela variação no âmbito do DNA e como ela é transmitida às próximas gerações. Isso envolve muito raciocínio, exige o estabelecimento de uma conexão entre o que alguém enxerga (características visíveis como a cor dos olhos, as formas das sementes, a altura de plantas, etc.) e o que essa mesma pessoa não enxerga (nos âmbitos celular e do DNA).
Basicamente, a variação genética é uma premissa para a evolução ocorrer. E a variação genética se traduz em diferenças entre as letrinhas que ocorrem no DNA, as chamadas quatro letras da vida: A, G, T e C (ver mais aqui). A espécie humana, por exemplo, contém em cada uma de suas células cerca de 6,4 bilhões dessas letras, organizadas em sequências e separadas em grandes conjuntos chamados cromossomos, mais precisamente 46 nos humanos. Além disso, pouco mais de 16 mil dessas letras compõe um pequeno DNA circular que está dentro de cada mitocôndria, um corpúsculo intracelular que é vital para nossa sobrevivência, por exemplo, em relação à respiração.
Agora, imagine comparar todas essas sequências entre você, nós, os autores deste artigo e mais milhares ou milhões de pessoas. Comparativamente, teremos várias regiões iguais entre todos nós. Mas também teremos vários lugares, que chamamos locos, que serão diferentes ao longo de todo esse conjunto de sequências. Essas são as diferenças genéticas, frequentemente de um nucleotídeo apenas (cada um com uma letrinha terminal, A, G, T ou C). Algumas dessas diferenças combinadas se refletem em certas pessoas terem olhos castanhos, enquanto outras têm olhos verdes ou azuis, dentre outras tonalidades. Alguns têm um conjunto de diferenças (das quatro letras) que as tornam imunes a uma doença ou, ao contrário, mais suscetíveis. Pense, por exemplo, em quem nunca teve os sintomas da covid-19 comparativamente a quem adoeceu. Não é só o DNA que explica isso, mas parte da explicação está nessa grande molécula codificadora da vida.
Bom, é nessas diferenças que a genética de populações se pauta. E vamos além disso… Com a genética de populações, é possível saber se algumas variações genéticas estão aumentando em frequência, ou o contrário. Se algumas variações, que podemos chamar de mutações, estão aumentando ou diminuindo em frequência em populações, é provável que estejam sob seleção natural.
Outros mecanismos também podem ser responsáveis por isso, mas aqui não vamos entrar no mérito. Cabe utilizar métodos estatísticos e genético-populacionais para entender o que de fato está acontecendo em uma ou mais populações e espécies.
O fato é que a genética de populações já nos ajudou a responder a muitas questões sobre nossa espécie, sobre outros animais e sobre diversas plantas, fungos e micro-organismos. No caso da covid-19, foi por meio da análise das mutações do vírus que se conseguiu discriminar novas variantes e identificar quais delas afetaram mais e em que período prevaleceram em humanos de qualquer parte do planeta (para saber mais, acesse aqui).
No caso de diversos animais e plantas em risco de extinção, populações dessas espécies podem apresentar baixa variabilidade genética, o que somente pode ser constatado por meio de análises com métodos da genética de populações. Com o conhecimento dessa variabilidade, é possível fazer recomendações de manejo para recuperar ou aumentar a variabilidade de uma população ou espécie que corra sérios riscos.
Assim, aprender genética de populações é importante para diversas aplicações. Só que é mais fácil aprender genética de populações se estudarmos espécies que estão ao nosso redor, até mesmo no nosso quintal. Livros diversos de genética de populações abordam os mais diferentes temas e métodos analíticos, mas frequentemente usam exemplos de espécies norte-americanas ou europeias, ou de outras regiões e continentes distantes da nossa realidade.
Pensando nisso, editamos e construímos um livro de Genética de Populações com diversos colaboradores, especialistas em genética com os mais diversos organismos próximos a nós, pertencentes aos chamados Neotrópicos, que abrangem a biodiversidade que ocorre na América do Sul e parte da América Central e do Caribe e são um dos domínios biogeográficos do planeta, um dos mais diversos, por sinal.
O livro todo aborda conceitos básicos em genética de populações e traz exemplos de animais e plantas que ocorrem próximos a nós, talvez até mesmo no seu quintal. O livro foi pensado justamente para o leitor que mora no Brasil, na Argentina, no Uruguai e nos outros países vizinhos. Os exemplos trazem as particularidades de organismos da Amazônia, do Cerrado, do Chaco, dos Andes, do Pampa, dentre outros. Você verá exemplos de peixes que ocorrem na Amazônia ou no Pantanal, de palmeiras que ocorrem no Cerrado ou na Mata Atlântica, desde o Rio Grande do Sul até a Bahia, e muitos outros organismos que estão por aqui, por ali, mais pertos de nós do que outros livros têm mostrado até agora.
O livro Population Genetics in the Neotropics (traduzindo: Genética de Populações nos Neotrópicos) é um compilado de 18 capítulos que versam sobre conceitos básicos desse campo do conhecimento, as principais ferramentas tecnológicas e analíticas que permitem a realização de análises genético-populacionais e as principais aplicações da genética de populações para conservação e melhoramento genético de espécies de animais e de plantas dos Neotrópicos. Esperamos que essa coleção facilite o aprendizado dessa verdadeira máquina reveladora dos segredos microscópicos que definem as diversas formas, cores e tamanhos de espécies que vemos ao nosso redor, todos os dias.
Enéas Konzen é professor no Centro de Estudos Costeiros Limnológicos e Marinhos (Ceclimar) da UFRGS.
Marcos Siqueira é professor na Engenharia Agronômica da Universidade Estadual de Minas Gerais.
Pedro Galetti é professor do Departamento de Genética e Evolução da Universidade Federal de São Carlos.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.





