Artigo | Aline Maria Backes Sehn e Maria Aparecida Bergamaschi, da Educação, apresentam estudo sobre a presença de estudantes indígenas na Faculdade de Educação
*Ilustração: Maria Eduarda Pacheco Fernandes/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
A presença indígena na universidade simboliza uma luta de resistência e retomada desse território, que é marcado por uma história de exclusão dos povos originários, de seus saberes e conhecimentos. Na UFRGS, a partir da mobilização de movimentos sociais, foi aprovada, em 2008, uma Política de Ações Afirmativas, conforme a Decisão n.º 134/2007 do Conselho Universitário, que instituiu o ingresso específico indígena, possibilitando o acesso destes povos em diferentes graduações. Com essa iniciativa, a UFRGS se tornou a primeira universidade pública federal do estado a adotar uma política de acesso indígena.
Diante disso, e a partir do encontro com essa temática ainda no início da graduação, movendo-me enquanto estudante e pesquisadora, senti-me impulsionada a realizar meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre indígenas e educação, como forma de contribuir para a visibilidade das vozes indígenas presentes no curso de Pedagogia da UFRGS, uma vez que é um dos cursos mais escolhidos por esse público aqui na Universidade. Embora por vezes silenciadas, são vozes que ecoam por toda a instituição, com o intuito de desconstruir registros colonizadores que, historicamente, invisibilizaram os povos indígenas e seus saberes no ambiente acadêmico.
Nesse sentido, o estudo se debruçou em evidenciar a presença indígena no curso de Pedagogia durante o período de 2008 até 2024, considerando o contexto das Ações Afirmativas na UFRGS. Foram considerados os movimentos de ingresso, o percurso e a egressão desses estudantes, a partir da consulta de dados no site da Comissão Permanente de Seleção da UFRGS, em que constam registros do Processo Seletivo Específico de Estudantes Indígenas, assim como registros da Comissão de Graduação da Faculdade de Educação, além de dissertações e teses acerca da temática indígena na UFRGS e que constituem dados importantes sobre essa presença.
No decorrer desses 16 anos, foram registrados 17 ingressos de indígenas estudantes no curso de Pedagogia por meio do Processo Seletivo Específico Indígena (PSEI), sendo que já foram diplomados cinco desses estudantes. São dados que nos permitem refletir acerca da relevância do ensino superior para os povos indígenas, além de ser uma luta coletiva destinada a reescrever a história a partir do ponto de vista próprio, que considera a educação uma ferramenta para promover o fortalecimento de seus conhecimentos originários.
Esse movimento visa integrar perspectivas, ciências, conhecimentos e sabedorias indígenas ao contexto acadêmico, de modo a promover uma verdadeira interculturalidade no ambiente universitário. Nessa direção, a escolha dos cursos não se dá de forma aleatória, mas envolve projetos que vão ao encontro das necessidades encontradas nas aldeias, assim como consideram as possibilidades de atuação dos egressos em políticas públicas específicas.
Nesse percurso, apoiei-me em estudos que abordam a presença indígena na universidade, destacando as políticas de ações afirmativas, a educação intercultural e decolonial. Considerei as elaborações de Aníbal Quijano, importante intelectual peruano, para compreender o conceito “colonialidade do poder”, que explica o contexto histórico e social de exclusão dos povos indígenas, e que se reflete também na Universidade.
Igualmente, estudei Catherine Walsh, que propõe uma educação decolonial para romper com as estruturas do poder colonial, promovendo novos horizontes, que dialoguem com diferentes culturas e saberes, incluindo conhecimentos dos povos originários. Nesse sentido, destaco os estudos de Iara Bonin (2022), Maria Aparecida Bergamaschi (2013) e Michele Doebber (2017), que contextualizam a presença indígena na UFRGS, enfocando ações afirmativas, desafios e conquistas, assim como Ana Isabel Santos (2018) e Carine Farias (2018), que contribuem com estudos mais específicos sobre a inserção de indígenas estudantes no curso de Pedagogia.
Para enriquecer a pesquisa, também foram realizadas conversas-entrevistas com três indígenas, que compartilharam suas trajetórias e experiências no curso de Pedagogia: um egresso que, após a sua diplomação, realizou o curso de mestrado em Educação no PPGEDU/UFRGS; uma egressa que concluiu o curso em 2024/1; e outra que se encontra na metade do curso. A partir dessas conversas foi possível perceber o quanto a Pedagogia contribui para a formação desses colegas, possibilitando reflexões que ajudam a ampliar horizontes relacionados à educação.
E evidenciam, contudo, que a Universidade permanece, em alguns aspectos, muito eurocentrada, quando a temática indígena acaba sendo trabalhada de forma rasa, desconsiderando a diversidade e a riqueza dessas culturas. Uma fala marcante de um dos estudantes sintetiza a urgência de uma transformação, ao afirmar a importância de “nos emanciparmos, de valorizarmos os povos do nosso país, de garantirmos o nosso protagonismo”.
Por fim, ressalto que o TCC buscou contribuir para a reflexão acerca do estar-indígena a partir do curso de Pedagogia, mas que se expande para toda a Universidade, em um movimento de nos ensinar a importância do coletivo, do aprender-junto, do estabelecer e ampliar as relações, mostrando que essa presença já evidencia efeitos na construção de horizontes decoloniais nos espaços acadêmicos. É, portanto, relevante considerar uma educação que dialogue com a diversidade, que reconheça as epistemologias indígenas e valorize as trajetórias de resistência e luta por um ensino superior mais inclusivo e intercultural.
Aline Maria Backes Sehn é estudante de Pedagogia na UFRGS.
Maria Aparecida Bergamaschi é professora na Faculdade de Educação.
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