Inteligência Artificial generativa precisa de uma escuta necessária | 13.08.26

Espaço da Reitoria | Marcia Barbosa, reitora da UFRGS, e Dirce Maria Santin, diretora da Biblioteca Central, apresentam as estratégias da Universidade para debater o uso da IA na produção do conhecimento

*Excerto do mural “As Profissões”, de Aldo Locatelli (1958), exposto na Sala do Conselho Universitário, na Reitoria da UFRGS (Foto: Flávio Dutra/JU)

A rápida evolução das tecnologias de Inteligência Artificial (IA), sobretudo a IA generativa, vem produzindo mudanças na produção do conhecimento, na formação humana e na sociedade. Sistemas capazes de gerar textos, imagens e códigos já fazem parte da rotina acadêmica, com potencial para apoiar o ensino, a pesquisa, a extensão e a gestão. Ao mesmo tempo, trazem desafios relevantes, que colocam a Universidade diante de questões que não podem ser adiadas.

Essas questões não são apenas técnicas. Dizem respeito à formação de pessoas, à integridade da produção científica e ao papel da universidade como espaço de reflexão crítica sobre as transformações da sociedade. O que significa produzir conhecimento quando parte de um texto ou de uma imagem pode ser gerada por sistemas de IA? Como preservar a autoria humana, o pensamento crítico e a responsabilidade intelectual diante dessas ferramentas? Que formação queremos oferecer numa época em que a fronteira entre criar e reproduzir se torna menos nítida? As diretrizes sobre integridade em pesquisa são claras: sistemas de IA não podem ser considerados autores de trabalhos científicos; a responsabilidade pelo conteúdo produzido é sempre humana. O mesmo princípio se aplica a outras atividades da Universidade.

Foi para enfrentar essas questões que a Reitoria instituiu, em 2025, o Grupo de Trabalho Inteligência Artificial Generativa (GT IAGen), reunindo representantes de diferentes áreas para elaborar diretrizes institucionais voltadas ao uso ético, transparente e responsável dessas tecnologias. Diretrizes institucionais, porém, não podem ser definidas de forma isolada. Para que orientem de fato a vida universitária, precisam nascer da escuta da comunidade. É esse o propósito da pesquisa “Inteligência Artificial na UFRGS: percepções da comunidade universitária”, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, que estará disponível de 10 a 28 de agosto, no Portal do Aluno e no Portal do Servidor.

Estudantes de graduação e pós-graduação, docentes e técnicos administrativos em educação são convidados a responder, de forma anônima e voluntária, como percebem o uso da IA generativa nas atividades da Universidade e quais oportunidades e preocupações identificam nesse contexto. Não se trata de discutir se a Universidade deve ou não usar ferramentas de IA generativa: a dinâmica social e tecnológica já indica os caminhos.

O objetivo é compreender, com rigor, as percepções sobre o uso da IA generativa entre nós, para que a UFRGS possa responder de forma consciente e fundamentada.

Os resultados da pesquisa subsidiarão o Guia de Uso Ético e Responsável da Inteligência Artificial Generativa na UFRGS, em elaboração pelo GT IAGen. O documento se baseia em princípios como agência e autoria humanas, ética e integridade, transparência e proteção de dados. Há, nessa iniciativa, um compromisso central: tratar a IA não como uma ameaça a ser temida nem como uma solução a ser adotada sem reflexão, mas como um fenômeno que exige da Universidade Pública o exercício de sua essência: pensar de forma crítica e autônoma, debater democraticamente e construir, de forma coletiva, os caminhos para o uso responsável dessas tecnologias.

A IA generativa pode ampliar nossas capacidades de produzir conhecimento sem substituir o julgamento crítico, a criatividade e a ética que orientam a atuação da Universidade. Convidamos toda a comunidade universitária a participar da pesquisa. Cada resposta contribuirá para um retrato mais fiel do uso da IA generativa na UFRGS e para a elaboração de orientações mais consistentes, realistas e alinhadas aos valores que definem a Universidade como uma instituição pública, plural, comprometida com a formação humana, a produção do conhecimento e a sociedade.


Dirce Maria Santin é diretora da Biblioteca Central da UFRGS
Marcia Barbosa é reitora da UFRGS