Jorge Amaro e a descoberta do mundo por meio da educação

Perfil | Inspirado no avô Totoca, o quilombola de Mostardas entende que sua trajetória foi definida pelas oportunidades abertas por seu ímpeto de estudar e conhecer

*Foto: Flávio Dutra/JU

Para contar o que o levou à posição de pós-doutorando junto ao Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR), Jorge Amaro precisa retornar à infância vivida na comunidade quilombola dos Teixeiras para sinalizar as circunstâncias que o induziram a se tornar estudante. Foi de lá que veio sua inspiração para se tornar técnico agrícola, biólogo, mestre em Educação e doutor em Políticas Públicas.

Localizada em Mostardas, cidade no litoral sul do estado, a comunidade quilombola dos Teixeiras tem como marco de origem o falecimento de Rosa Tereza de Jesus, em 26 de junho de 1826. Em testamento, Rosa libertou o grupo de 15 negros que eram escravizados e deixou a eles as terras e algumas benfeitorias. É dessa linhagem que Jorge nasce em 1978.

Até os sete anos ele vive na comunidade, onde escuta muitas histórias sobre seu avô Ernesto Chaves de Souza, carinhosamente conhecido como Totoca. Os relatos dão conta de registrar que se trata de um sujeito de muitas habilidades. Era carpinteiro: fazia roda de carreta, pilão, gamela. Era agrimensor: “O que o Totoca mede os engenheiros de Porto Alegre confirmam”, dizia-se. Tosquiava ovelha, era barbeiro. 

“No entanto”, orgulha-se Jorge, “a principal característica, que sempre me chamou mais atenção, é que ele era um exímio leitor e tinha uma letra muito bonita – fazia convites de casamento e aniversário.”

“De tanto ouvir histórias sobre o meu avô, decidi que eu queria ser o Totoquinha, que eu queria aprender a ler e escrever. A minha vontade de estudar foi inspirada nas histórias que contavam sobre ele!”

Jorge Amaro

Em 1985, por diferentes circunstâncias, entre elas a morte do avô dois anos antes, a família migra para a periferia de Mostardas. Jorge é o filho mais velho de Marli Miguelina Chaves de Souza e Baltazar Soares Borges, e naquela época essa condição de primogênito tornava a escola o último lugar no seu horizonte de possibilidades. Seu destino principal seria unicamente o trabalho – que de fato já aparecia em pequenas atividades, como capinar pátios, vender verduras e rapadura, além de cuidar dos irmãos. Ainda assim, e enfrentando uma série de dificuldades, frequentou a escola. Era um dos poucos negros da turma. 

Na primeira série, foi reconhecido pela professora, que entendeu a dificuldade da família e deu a ele um moletom cinza para enfrentar o inverno. “Vejo hoje que ela me ensinou sobre tratar desigualmente os desiguais na justa medida de suas desigualdades. E me ensinou o valor do olhar e da atenção para aqueles que mais precisam. Ela não me deu só um moletom, me deu a esperança de continuar na escola”, reflete Jorge, que segue mantendo contato com a docente.

Chegou ao ensino médio sem nunca ter saído de Mostardas. Mas, com a escola e os livros examinados na biblioteca pública que frequentava assiduamente, pôde descobrir que não morava numa ilha: havia um mundo para além daquele recanto entre a Lagoa dos Patos e o oceano.

Com 16 anos teve pela primeira vez a carteira de trabalho assinada. O emprego era em um jornal local. Tudo veio pela experiência adquirida quando trabalhava, aos finais de semana, no salão de baile ao lado de sua casa. “Eu era o que chamavam de ‘neguinho das garrafas’ – passava a noite recolhendo garrafas de vidro.” Aprendeu ali a operar mesa de som. O dono da casa foi contratado pra trabalhar na rádio Tarumã de Tavares, que tinha um estúdio em Mostardas. Ele não se adaptou e indicou o Jorge.

Assim, passou a trabalhar das 7h às 8h na rádio e depois trabalhava o dia inteiro no jornal como auxiliar. Estudava à noite. Como gostava de futebol, montava o texto sobre os jogos para o jornalista que apresentava o programa na rádio. Depois passou a escrever a crônica esportiva do jornal.

Ao fim do ensino médio, descobre a possibilidade de ir estudar na Escola Técnica de Agricultura (ETA), em Viamão. Ficou residindo lá, longe da família, pela primeira vez. Pouco antes de se formar, em 1998, participa, na ETA, de uma atividade de extensão da UFRGS chamada Convivência Primavera. “Eu descubro então que tem algo chamado universidade.” Em vez de retornar a Mostardas, decide que quer ficar em Viamão e fazer o ensino superior.

Ao final do ano, na formatura, foi laureado como melhor aluno. “Talvez tenha sido o melhor presente que dei pra minha mãe e minha avó. Elas puderam participar desse momento.” Segundo Jorge, se alguém apostou em sua dedicação aos estudos, foram justamente a mãe e a avó, Marli Miguelina Chaves de Souza.

Como decorrência de sua formação, realiza um estágio em um viveiro da Secretaria de Meio Ambiente de Viamão – é onde entra em contato com um dos temas que o acompanha até hoje: a questão ambiental. Ao fim do estágio foi nomeado assessor de meio ambiente e depois diretor de limpeza urbana.

Enquanto isso, faz vários vestibulares na UFRGS para Biologia, mas não passa. Então inicia, em 2001, o técnico em monitoramento e controle ambiental na Escola Técnica da Universidade, que foi logo interrompido pelo falecimento da mãe. Traz para Viamão três irmãos e precisa readequar sua vida, buscando um novo emprego. 

É assim que passa a atuar como técnico agrícola na Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e Pessoas com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul (Faders). Foi a primeira vez que tomou conhecimento da atenção a pessoas com deficiência, temática que se torna central em suas atividades de pesquisa.

Em 2006, com o Prouni, passa a cursar Biologia no IPA. “Quanto mais eu estudava, ia descobrindo outras coisas que não sabia que existia”, relata Jorge. Após a graduação, tomou conhecimento da possibilidade de seguir estudando e fazer mestrado. A primeira prova que fez foi para o PGDR, mas não passou. No ano seguinte, iniciou o mestrado em Educação na PUCRS, na área de Educação Ambiental.

Já concursado na Faders, onde trabalhava com capacitação e pesquisa, recebe o convite para ser coordenador geral do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade), órgão vinculado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, onde permaneceu entre os anos de 2013 e 2015.

Abriu mão do cargo de prestígio para cursar o doutorado no Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas da UFRGS, recém-criado. Foi, aliás, seu primeiro egresso, em 2018.

Antes disso, em 2016, o amigo de infância que o havia levado para trabalhar no jornal se elege prefeito em Mostardas e convida Jorge para voltar à cidade e assumir as secretarias de Meio Ambiente, Planejamento, Turismo e Cultura. “Eu só saí de Mostardas pra estudar. Não saí porque quis. Agora é hora de voltar pra casa.”

“O que mantém a comunidade quilombola unida são o território e, principalmente, os laços de parentesco. Quando a gente sai, rompe-se o vínculo do dia a dia. Mas eu sempre consegui manter a relação com minha ancestralidade e a comunidade”

Jorge Amaro

Durante o trabalho nas secretarias, encontra o polo de educação a distância de Mostardas sem nenhum curso. Em contato com a professora Rumi Kubo, do PGDR, em 2017 consegue trazer o Bacharelado em Desenvolvimento Rural (Plageder). Com isso, o polo é resgatado e passa a receber também cursos da UFPel e da UFSM.

Em 2021, Jorge vai a uma formatura do Plageder em Porto Alegre representando a prefeitura e começa a conversar com Rumi sobre a ideia de um pós-doutorado. O projeto de pesquisa iniciado no ano seguinte enfoca as políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência dentro de comunidades quilombolas. Seu intuito é estudar os três quilombos de Mostardas: Casca, Colodianos e Teixeiras.

Como parte do pós-doc, está ministrando, como professor convidado, a disciplina obrigatória “Problematizando o Desenvolvimento Rural: questões e perspectivas contemporâneas”, do PGDR. O curso, que é oferecido pela professora Rumi e pelo professor Alberto Bracagioli Neto, terá seu campo de estudos em Mostardas.

Jorge acredita que, assim, pode estimular mais pesquisadores a se interessarem pelo tema das comunidades quilombolas e por Mostardas. Além disso, entende a oportunidade como uma maneira de dar um retorno a sua comunidade.

O pós-doutorando crê que vai alcançando tudo aquilo que seu avô Totoca e seus antepassados não puderam ter. Vê isso como uma obrigação sua, inclusive. Ele se coloca a tarefa de mostrar a crianças negras e pobres que elas também podem almejar esses lugares onde ele chegou.

Jorge diz que não se imagina parando de estudar em algum momento da sua vida. “O maior sentimento que tenho em relação à educação é o sentimento de liberdade. Ela me permite escolher os rumos da minha vida”, conclui.